ENTREVISTA

Thaís Oyama, a mogiana que irritou Bolsonaro

REALIZADA A jornalista mogiana Thaís Oyama se diz estimulada ao descobrir o rádio, após trabalhar nos principais jornais e revistas, além da maior rede de televisão do País. (Foto: João Henrique Moreira)

Mogiana, a jornalista Thais Oyama nasceu na década de 1960, quando os pais Carlos e Edna Maeda Oyama se mudaram para a cidade. Era da família a conhecida loja Mogi Miudezas, no centro. A jovem estudou jornalismo na PUC de São Paulo. Depois construiu carreira profissional com passagens por veículos da imprensa nacional (Folha, Estado, TV Globo e Veja) e reportagens especiais em países como Japão, Irã, Afeganistão e Coreia do Norte. No ano passado, decidiu escrever o livro Tormenta – O governo Bolsonaro: Crises, intrigas e segredos (Companhia das Letras), recém-lançado. A ideia do livro-reportagem nasceu em 2017, quando a profissional acompanhou o então deputado Bolsonaro em uma viagem pelos estados do Nordeste. À ríspida reação do presidente sobre o livro e aos comentários sobre a origem japonesa da escritora, Thais afirma: “Não achei que os comentários foram preconceituosos, apenas desajeitados e inadequados, como muitos outros que ele já fez”. Eis a entrevista:

Como a família Oyama chega a Mogi das Cruzes?

Meu pai, Carlos Oyama, nissei, trabalhava como contador em São Paulo. Nos anos 60, mudou-se pra Mogi atendendo a convite de um tio meu, Toshio Yazawa, que era proprietário da relojoaria Cruzeiro, na rua Deodato Wetheimer. O convite era para ser gerente da relojoaria. Ele trabalhou na Cruzeiro por alguns anos e depois abriu um comércio próprio, a Mogi Miudezas.

Qual é a história de sua família?

Meus avós maternos nasceram nas províncias japonesas de Gifu e Hyogo; meus avós paternos nas províncias de Akita e Nagano. Meus avós chegaram nas primeiras décadas do século passado como imigrantes e trabalharam em lavouras de café. Nunca moraram em Mogi, só os meus pais. Minha mãe, Ena Maeda Oyama, professora primária, mudou-se para Mogi em 1965, ano em que casou-se com meu pai. Além de mim, que sou a filha mais velha, meus pais tiveram outros três filhos, todos mogianos: André, Fernanda e Patricia (a Patrícia já saiu no Diário de Mogi, em uma reportagem em 1986, quando ela foi a escritora mais jovem da Bienal do Livro, e hoje também é jornalista)

Quanto tempo você morou em Mogi?

Nasci em Mogi e morei aí toda a minha infância e adolescência, até entrar na faculdade (PUC-SP). Estudei no Instituto Dona Placidina e fiz o colegial no São Marcos. E tenho tios e primos que residem na cidade, onde vou ocasionalmente, a última vez fui a um encontro com ex-colegas e amigos do São Marcos.

Fale um pouco de sua vida profissional.

Eu não posso reclamar da minha vida profissional, trabalhei em todos os veículos que sempre admirei e fui muito feliz neles. Agora estou tendo a oportunidade de aprender a fazer rádio (ela é comentarista da rádio Jovem Pan). A essa altura do campeonato, é muito estimulante começar algo novo e desconhecido.

Em quais épocas você trabalhou na Veja, no Estado e na Folha de S. Paulo. E, nesses veículos, quais coberturas apontaria como marcantes?

Comecei na Folha, nos anos 90, passei rapidamente pelo Estado, pela revista Marie Claire, pela TV Globo e depois fiquei por 18 anos na Veja, onde fui de repórter a redatora-chefe. Na Veja, onde fiquei mais tempo, algumas das reportagens que considero marcantes foram a da máfia do apito — eu e o André Rizek revelamos como uma quadrilha subornava juízes de futebol para ganhar dinheiro nas loterias eletrônicas. A matéria anulou — e mudou— o resultado do Campeonato Brasileiro de 2005. Cobri o tsunami no Japão em 2011, que deixou quase 20 mil mortos; fui ao Irã para mostrar a mudança do país depois da vitória do atual presidente Rouhani, em 2008; estive no Afeganistão em 2010 para relatar a situação trágica das mulheres de lá e fui uma das primeiras jornalistas brasileiras a entrar na Coreia do Norte, em 2009, quando o país era ainda mais fechado que agora. Na política, cobri os governos Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer — tive a oportunidade de entrevistar todos esses presidentes.

Como surgiu a ideia do livro?

A ideia surgiu em 2017, quando fui acompanhar o então deputado Bolsonaro numa viagem por estados do Nordeste e fiquei muito impressionada com a forma como era recebido nas ruas, no avião e aeroportos. As pessoas mostravam devoção por ele, aguardavam por horas a sua chegada e, quando ele aparecia, gritavam “Mito!” e o carregavam nos ombros. Vi que estava diante de um fenômeno político. Quando ele ganhou, propus o livro para o Luiz Schwarcz (sócio da Companhia das Letras), que topou na hora.

Em entrevista à Jovem Pan, você afirma que tudo na obra é verídico…

Sim, é um livro-reportagem, uma apuração feita com critérios jornalísticos, não é uma obra de ficção. Todas as informações que colhi foram cruzadas e confirmadas, incluindo as que me foram dadas em off. O texto final passou pelo crivo dos editores e pela leitura minuciosa de advogados — dado que o livro é também um empreendimento comercial, a editora não pode correr o risco de ser processada e perder na Justiça. Então, o que está lá é o que eu apurei, confirmei e posso provar.

Como ocorreu a produção desse material?

Assim que a Companhia das Letras topou o projeto, eu pedi demissão da Veja, onde trabalhei por 18 anos e onde ocupava o cargo de redatora-chefe. Passei a trabalhar exclusivamente no livro. Fiquei um ano viajando, numa média de duas semanas por mês em Brasília ou no Rio, fazendo entrevistas. Nos intervalos, escrevia em São Paulo, onde moro desde que saí de Mogi.

Qual a maior dificuldade enfrentada na apuração para o livro?

Acho que tive muita sorte em encontrar e conquistar a confiança de fontes muito próximas do presidente, devo o livro a essas fontes. O difícil foi seguir o ritmo do governo. Quando comecei, achei que fosse trabalhar menos do que trabalhava na Veja, mas a velocidade com que fatos relevantes e surpreendentes se sucedem no governo Bolsonaro é alucinante. É preciso fôlego pra acompanhar.

Em sua opinião, qual foi a grande revelação do seu livro?

Há várias, mas acho que o conjunto é o mais importante: ajuda a entender como opera a cabeça do presidente e como funciona esse governo tão singular.

Como recebeu as críticas de Jair Bolsonaro sobre o conteúdo da obra e sobre a sua origem japonesa?

Não achei que os comentários foram preconceituosos, apenas desajeitados e inadequados como muitos outros que ele já fez. Sei que o presidente gosta dos japoneses, do Japão e dos descendentes de japoneses que vivem no Brasil e ajudaram a construir o país. Bolsonaro já falou mais de uma vez da admiração que tem pelo povo japonês.

Na sua carreira você viveu diversos períodos da política nacional, em lugares privilegiados. Quais diferenças observa entre os ex-presidentes e Bolsonaro?

Acho que por vários motivos e em inúmeros aspectos, nunca houve um presidente como Jair Bolsonaro. O único termo de comparação que enxergo é com o carisma de Lula – mas a meu ver, nesse ponto, Bolsonaro ganha do ex-presidente.

Possui outros projetos de livros?

Sim, tenho vários projetos, mas nem todos são de política. Gosto muito de fazer entrevistas e há alguns anos publiquei um pequeno livro sobre o assunto, A Arte de Entrevistar Bem, pela editora Contexto.

Algo mais a dizer?

Apenas que fico muito contente em falar para o jornal (O Diário) que li durante toda a minha adolescência e que contribuiu para a minha entrada no mundo adulto e também no universo da política.


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