CASO

Tragédia de Paraisópolis mata dois jovens de Mogi das Cruzes

ADEUS Familiares e amigos acompanham o sepultamento de Gabriel Rogério de Moraes no Cemitério da Saudade. (Foto: Eisner Soares)
ADEUS Familiares e amigos acompanham o sepultamento de Gabriel no Cemitério da Saudade. (Foto: Eisner Soares)

Um grande número de jovens se reuniu no velório Cristo Redentor, em Mogi das Cruzes, na manhã de ontem, para a despedida do leiturista jovem aprendiz Gabriel Rogério de Moraes, de 20 anos. Ele e Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos, também morador na cidade, estão entre as nove vítimas fatais resultantes de uma ação da Polícia Militar na comunidade de Paraisópolis, na madrugada de domingo, durante um baile funk. Outras 12 pessoas ficaram feridas. Bruno deverá ser enterrado hoje, em Mogi das Cruzes. Gabriel foi sepultado no Cemitério da Saudade, ontem.

No atestado de óbito de Gabriel Moraes consta a informação de que ele morreu por asfixia mecânica por enforcação indireta, finergia físico química, no Hospital Municipal do Campo Limpo. O pai dele, Reinaldo Cabral de Moraes, falou com emoção sobre o filho. Ele soube da morte do filho na manhã de domingo e logo foi para São Paulo. No Hospital do Campo Limpo descobriu que o filho estava entre os mortos.

FAMÍLIA Ao lado da mãe de Gabriel, o pai Reinaldo de Moraes espera justiça pela morte do filho. (Foto: Eisner Soares)

“Não sei exatamente, porque ainda vai ter investigação, mas tudo indica que houve um excesso policial, uma força excessiva da polícia contra jovens que estavam lá e não tinham nada a ver com o assunto, apesar deles alegarem que foi uma ação contra criminosos, mas não é agredindo jovens que estavam se divertindo. Fica a questão: será que pegaram os verdadeiros bandidos? O que se leva a crer, como alguns falaram, que foi uma emboscada, porque eles fizeram um cerco, não deixavam ninguém passar. Quem passava por eles, eles agrediam”, conta o pai.

Gabriel Rogério de Moraes tinha 20 anos. (Foto: reprodução – redes sociais)

Sobre a ida do filho à festa, Reinado afirma que o filho reprovava esse tipo de festa, e não gostava de festas de funk. Gabriel teria ido após a insistência de amigos. Foi a primeira vez dele no baile da 17, que existe há mais de 10 anos e atrai pessoas de outras cidades e estados a Paraisópolis. “Ele dizia que não gostava, mas, de repente, a companhia para ele era agradável, por isso, ele acabou cedendo e foi. Pra mim, ele era uma benção de Deus. Todo filho jovem tem o seu momento, o seu jeito. Eu não poderia escolher outro filho, não”, ressaltou.

Uma jovem de 15 anos que tinha ido com Gabriel para a festa conversou com a reportagem de O Diário. Ela contou que era a primeira vez dela também na festa. Por isso, quando começou o tumulto, sem saber o motivo, o amigo falou para ela correr e se proteger. “Ele dizia que a gente não sabia como era, então tinha que correr. Mas, depois, ele desapareceu e não atendia a ligação, nem nada. Procuramos por ele, mas não encontramos. Eu fui saber ontem, à meia-noite, que ele tinha morrido. Ele era um garoto muito bom”, diz.

A jovem avalia a ação do polícia como “cruel”. Segundo ela, não havia motivo para tamanha truculência. “A gente só queria se divertir. Ninguém merece isso, é abuso de autoridade”, enfatiza.

Na versão dos policiais do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), eles realizavam a Operação Pancadão na comunidade de Paraisópolis, quando foram alvo de tiros disparados por dois homens em uma moto. A dupla teria fugido em direção ao baile funk ainda atirando, o que provocou tumulto entre os frequentadores do evento, que tinha cerca de 5 mil pessoas.

A Polícia Militar informou em nota a O Diário que, por determinação do comandante-geral, coronel Marcelo Vieira Salles, no domingo, a Corregedoria assumiu o inquérito instaurado pelo 16º BPM/M. “Todas as circunstâncias do fato são apuradas. As armas dos policiais foram apreendidas e encaminhadas para perícia. O 89º DP também instaurou inquérito e os policiais que atuaram na ocorrência já prestaram depoimento”, destacou nota sobre a ocorrência.

Bruno foi ao baile festejar aniversário

VÍTIMA Amigos lamentam a morte de Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos. (Foto: reprodução – redes sociais)

Bruno Gabriel dos Santos, filho adotivo de uma família mogiana, decidiu ir ao Baile da 17, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, no último domingo, para celebrar o próprio aniversário. Lá, de acordo com o boletim de ocorrências da Polícia Militar (PM), morreu após ser supostamente pisoteado – assim como outras oito pessoas, durante a dispersão da festa. O jovem havia completado 22 anos na última quinta-feira e, segundo amigos, estava empolgado com a data, o que para eles torna ainda mais triste a notícia de sua morte. Familiares e conhecidos cobram “justiça”, e detalhada investigação do caso.

O corpo de Bruno foi reconhecido por familiares e liberado pelo Instituto Médico Legal (IML) da Capital por volta das 14h30 de ontem, de onde seguiu para o Velório Cristo Redentor no início da noite, onde o corpo foi velado na noite desta segunda-feira. Segundo a direção do espaço, o sepultamento está agendado para a manhã de hoje, no Cemitério São Salvador.

“Foi tudo um caos quando a polícia chegou e as pessoas começaram a correr. Quem estava com ele, contou que no meio de tudo isso, Bruno foi para um outro lado e depois não foi mais visto”, diz o estudante Pedro Silva, de 18 anos, que estava na festa e relata ter presenciado o tumulto.

“Nenhuma pessoa que morreu lá merecia ter passado por isso, e Bruno, pelo que eu ouvi, era muito tranquilo”, conta. Segundo ele, que contesta a versão policial. “Ele foi assassinado, queremos justiça para todos que perderam suas vidas e aqueles que ficaram feridos”, disse.


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