EDITORIAL

Tristes e complexos tempos

O juiz manda, mas não é atendido. Os vizinhos alertam sobre os riscos de queda de árvores e nada acontece

Está no chão mais uma parte do telhado do Casarão dos Duque, imóvel do século passado que registra o momento que Mogi das Cruzes flertou com a produção do café. Era questão de tempo.

A copa de uma árvore seca com cerca de 15 metros caiu em cima da telhas da cobertura do imóvel de 200 metros quadrados (m²) em processo de tombamento como patrimônio histórico de Mogi das Cruzes.

Os riscos de queda estão descritos em processo judicial impetrado pela Prefeitura, por meio de denúncia do Comphap (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Artísticos e Paisagístico) sobre o abandono e as noticias de ações propositais para acelerar a degradação da construção pertencente, ao que se sabe, à empresa Soto Incorporação e Engenharia.

Essa relíquia da memória de Mogi das Cruzes está no meio de um terreno de 3 mil m² cotado para abrigar um empreendimento imobiliário tem localização privilegiada, no Mogi Moderno.

A queda da árvore revolta vizinhos. Foram eles que tentaram dar uma força para a proteção do lugar com a instalação de um cadeado para impedir a invasão de terceiros, encontrados mais de um vez em atitudes suspeitas – removendo telhas, colocando fogo no interior do casario.

A preservação do patrimônio histórico é terra sem lei. Já há uma decisão em liminar, com fixação de multa diária, cobrando dos atuais donos a proteção da antiga fazenda de café.

Porém, nesse caso, está prevalecendo a afronta à lei e a vontade popular. Num exercício desesperado de salvaguarda, a comunidade comprou um cadeado para impedir o saque premeditado ou não a um bem de interesse social. Em vão. Sem a manutenção de uma vigilância em tempo integral, buracos são feitos nos muros facilmente escaláveis para temor de quem mora ao lado dali e se vê também refém de vândalos e desocupados.

Há uma lentidão no cumprimento da lei que reflete a fragilidade administrativa e civil em voga não apenas nessa questão. O juiz manda, mas não é atendido. Os vizinhos alertam sobre os riscos de queda de árvores e nada acontece.

Nenhuma ação assertiva da Defesa Civil, órgão com poder legal para agir em nome da prevenção de acidentes. O Comphap tem mãos atadas. O Conselho aponta, aos ventos, erros e riscos na condução da ocupação do espaço urbano e nada. O fim do Casarão dos Barradas é exemplo acabado disso.

Prevalece a vontade de quem chega de fora ou é daqui mesmo e e desrespeita a lei, o compromisso ético com a vizinhança. Tristes e complexos tempos.


Deixe seu comentário