EDITORIAL

Tudo pode em Mogi?

Apresentada como uma medida provisória, a transferência das presas da Cadeia Feminina de Poá para Mogi das Cruzes durante as obras de reforma do endereço atual repete um circulo vicioso na vida pública. Ao invés de se tratar esse assunto como mereceria, o Governo do Estado opta pelo improviso, o arranjo extraordinário que pode muito bem se tornar como definitivo, a depender de como Mogi das Cruzes irá acompanhar os desdobramentos dessa medida, divulgada com exclusividade por este jornal, na semana passada.

No português claro, o que se está apresentando é mais um exemplo do que é um atraso na gestão pública e privada: o “jeitinho brasileiro”, o que é feito para tratar uma dificuldade ou problema de maneira enviesada, geralmente com pitadas de astúcia e manha, e não ataca o cerne da questão.

Não há como questionar os motivos da decisão que está se tornando realidade. O delegado seccional Jair Barbosa Ortiz afirma que são insalubres e inadequadas as condições das dependências atuais da Cadeia Pública de Poá. Ou seja, é preciso, mesmo, resolver esse problema, que resulta da incúria do próprio Governo do Estado e dos antigos delegados seccionais por deixar a cadeia chegar a esse ponto.

Que se reconstrua ou reforme a Cadeia de Poá, mas sem incluir Mogi das Cruzes nesse plano. Que o Governo do Estado faça a coisa certa: uma nova cadeia, em Poá mesmo, de preferência. Mogi já fez sua parte, ao aceitar, no passado, a construção de um CDP.

Aliás, de gambiarra e promessas descumpridas, esse exemplo é bem esclarecedor. Quando foi construído o Centro de Detenção Provisória (CDP) do Taboão, em Mogi das Cruzes, a conversa passada pelo Governo do Estado aos mogianos, era acabar com a Cadeia Pública, que funciona ao lado do 1º Distrito Policial.

Naquele tempo, o lugar chegou a registrar rebeliões semanais, impactando a vida dos moradores da vizinhança entre o Socorro e a Vila Oliveira, então, uma área residencial densamente ocupada. E mais: dizia-se que o lugar receberia apenas presos de Mogi das Cruzes.

Os anos foram passando, a Cadeia Pública continuou recebendo os detentos, durante dois, três dias, até o encaminhamento para o CDP. E assim foi, não se falou mais em destruí-la. Ao contrário, agora a ideia é ampliar a ocupação do espaço, com o recebimento de presas e de carcereiros de outro município.

O CDP, bem observa o vereador Antonio Lino (PSD), iria receber apenas 300 presos, como havia prometido o Estado aos vereadores, na época da aprovação do projeto. Hoje abriga mais de 1,6 mil detentos. Tudo pode em Mogi?