CULTURA

Um espaço para fomentar a poesia falada

AUTORAL Os primeiros versos e rimas publicados no podcast são criações de Matheus Borges, que publicou um livreto no final do ano passado, e falam, entre outros assuntos, da pandemia e do isolamento social
AUTORAL Os primeiros versos e rimas publicados no podcast são criações de Matheus Borges, que publicou um livreto no final do ano passado, e falam, entre outros assuntos, da pandemia e do isolamento social

 

“Este momento de pandemia trouxe diversas reconfigurações”, diz o poeta suzanense Matheus Borges, que encontrou, no triste cenário imposto pelo novo coronavírus, a oportunidade de “fugir da tempestade de informação” e ao mesmo tempo divulgar a poesia falada. Por isso ele mantém agora, além de um projeto escrito e publicado em forma de livreto, um podcast composto exclusivamente por mensagens versadas e rimadas.

AosPrimatas é o nome do projeto, e também um primeiro exercício de interpretação. O criador, que mora em Mogi das Cruzes e trabalha com teatro, explica que trata-se de “um codinome” que o acompanha há bastante tempo, funcionando como representação de uma metáfora, já que “a poesia está sendo, de alguma forma, sendo propagada no tempo, aos primatas”.

O conceito é complexo, mas é como toda forma de prática poética: exige que quem consome participe do processo interpretativo, às vezes até mesmo apresentando olhares distintos dos originalmente pensados. Exemplo disso é o texto ‘Gabinetes de Ódio no Sofá da Sala’, cujos vesos podem não parecer ao primeiro “play”, mas falam sobre a efervescência política atual e sobre o isolamento social.

Para ilustrar, aqui vão os primeiros versos: “Nós, os que longe não vamos, tão longe estamos das fotos estampadas no jornal /Cara cheia, embarbecida, perfil capaz / Gabinetes do ódio no sofá da sala / Mofo de requeijão no dispenser da geladeira repleta, sob os muitos ambientes da casa / jardim de infância onde se regam os brancos sortilégios /Chave no portão, rodas ambulantes mergulhadas em álcool 70, protegidas na UTI dos hipocondríacos cremes de cabelo bom, higienizados de medo […]”

Mas não é só de textos atuais que é composto o podcast, que já conta com 36 poesias. Algumas delas foram escritas em 2013, época em que Matheus começou a produzir o livreto ‘Azia D(Á) Poesia’, publicado no final de 2019 (leia mais nesta página). Já outras “foram reconfiguradas e ganharam a perspectiva da poesia falada”.

Isso porque há sete anos ele tem um blog, com o mesmo nome do livreto. A diferença é que no material impresso, publicado com o apoio do Programa de Fomento à Arte e Cultura de Mogi (Profac), há 40 textos, ao passo que na internet a coleção chega em 280. No entanto, não pode ser acessada na íntegra neste momento.

“O blog não está mais disponível para acesso público. Pretendo relançar ele em algum momento, repaginado, com textos novos”, adianta o autor, que também detalha a próxima “fase” do AosPrimatas, que acontecerá já na primeira quinzena de junho.

“A proposta é que a cada quinzena o acervo inicial seja ampliado com alguns textos, com a presença de novos autores, que vão, a cada publicação, trazer suas obras e a perspectiva de olhar para a poesia falada”.

É com a meta de “fomentar o lugar da poesia falada” que se justifica o podcast, mídia exclusivamente de áudio, como fosse um programa de rádio. Com o tempo, espera-se que o AosPrimatas se configure “uma espécie de portal para reunir acervos”. Exemplos das possibilidades são as produções do Entremeio Literário, de Mogi, e também materiais de escritores como Sacolinha e Seu Zé, de Suzano.

“Já existem muitos podcasts que falam de poesia, mas eles não dizem a poesia”, justifica Matheus, que, fez, antes de publicar os áudios, um estudo ao lado de Kaique Costa, do teatro Contadores de Mentira, que é quem produz o programa. Juntos, identificaram “teóricos e escritores que falam sobre o que leem”, mas não encontraram um “espaço claro e definido para o autor independente, para a poesia autoral”, para o ato de recitar.

A iniciativa surge no momento que seu criador define como sendo um “boom pandêmico”, quando o isolamento social impôs uma “série de dificuldades” para artistas independentes, mas também trouxe “efervescência criativa muito grande”. “Percebi que esse formato não tinha sido francamento explorado”, resume Matheus, cheio de sonhos e expectativas para o projeto.

 

“É preciso que haja amor”

‘Azia D(Á) Poesia’, o livreto do poeta Matheus Borges, contém “minusculas vociferações argonáuticas acerca do nada absolutamente inquietante”. Ao longo das páginas, o leitor acompanha poesias que precisam, às vezes, serem lidas duas ou mais vezes para atingir a compreensão. O projeto gráfico ora auxilia e ora confunde este processo, entregando o protagonismo na mão de quem lê.

Em uma das experiências poéticas, o texto segue o formato de um círculo, praticamente exigindo que o pequeno livro de bolso seja virado durante a leitura. Outras possuem palavras escondidas, letras em negrito, maiores, menores.

“Em outros momentos da história a gente teve a poesia censurada. Textos poéticos tinham altas doses de contestação, e nesse momento que a gente vem vivendo de polarizações, vale encontrar poesia em sua forma escrita e também falada, que nem abandone o contexto em que ela está inserida mas que também não foque totalmente nele a ponto de se desprender de uma outra perspectiva”, diz Matheus.

Ele acredita que o brilho deste tipo de produção textual seja a possibilidade de fazer diferentes “leituras do mundo”. Para definir a importância da manutenção da poesia no mundo atual, repleto de incertezas como o novo coronavírus, ele recita um pensamento autoral, onde quer dizer que versos e rimas são “permanentes”, independentemente de quando foram escritos: “[…] O poeta é um trabalhador permanente / a serviço do afeto / Lavrador inquieto / arando a terra / Úmida do tempo / Trabalha com a pá que lavra / A orbe dos sentidos / Ao poeta, verdade não basta / É preciso que haja amor”.


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