Um fio de esperança

A obstinação de um grupo de lideranças e familiares das 21 vítimas das cinco chacinas que ocorreram entre novembro do ano passado e julho último em Mogi das Cruzes poderá ser decisiva para que esses crimes não se transformem em meros números das estatísticas da impunidade e da violação da Constituição brasileira. As chacinas mogianas são parecidas com as cometidas em Osasco e Barueri, duas semanas atrás, e que começaram a ser esclarecidas nos últimos dias, por causa da pressão popular e da brutalidade do extermínio de moradores da periferia.Grande parte dos homicídios cometidos no Brasil não é esclarecida. E pouquíssimos são os crimes supostamente praticados por policiais denunciados pelas vítimas, investigados pela Polícia, e punidos pela Justiça. Em Mogi das Cruzes, o surgimento de uma rede disposta a pressionar pela conclusão das investigações e dos inquéritos abertos pela Polícia Civil é um fio de esperança para as mães e familiares
dos que foram brutalmente assassinados por homens encapuzados, que usavam carros e motos para abordar e balear pessoas que estavam na vizinhança de casa. Entre as vítimas, algumas foram baleadas pelas costas e no rosto.
Um encontro realizado no final da manhã de sábado, na Câmara Municipal, entre líderes ligados a organizações defensoras dos direitos humanos e das crianças e adolescentes, e representantes do Movimento Mães de Maio, começou a articular uma série de ações para pressionar o Estado a resolver
as chacinas, e outros crimes supostamente praticados por policiais. Entre elas, a formalização de uma denúncia ao Núcleo de Violência Policial do Ministério Público do Estado sobre as mortes mogianas, e o acompanhamento de denúncias já encaminhadas à Defensoria Pública do Estado.
Protestos e encontros como o de sábado, quando mães que vivem a mesma dor das mães mogianas puderam encorajá-las e orientá-las, pretendem dar voz a todos. Essa reação, aparentemente tímida, dá voz às centenas de pessoas que moram nas proximidades dos pontos onde esses crimes ocorreram, nos bairros do Caputera, Jardim Universo, Vila Natal, Jundiapeba, Mogi Moderno, e etc. Esses moradores temem pela vida, mudam hábitos por medo. O descontrole da violência, explicitado pelas chacinas, assassinatos, latrocínios e outros crimes, aflige toda a sociedade mogiana, embora quem grite contra a insegurança e a impunidade, hoje, sejam essas mães – aliás, apenas algumas das mães conseguem vencer o temor e a paralisia que tragédias dessa proporção provocam. Um dos desafios dessa rede em montagem será atrair e atender as demais famílias. Todas as mães têm o direito de saber quem matou, à revelia da lei, os 21 mogianos assassinados nas cinco chacinas.


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