ARTIGO

Um grito pela casa comum: combatendo a cegueira da razão

O Brasil e o mundo voltam a atenção, neste momento, aos cuidados da preservação de vidas. Em nosso País, mais de mil pessoas por dia têm suas vidas ceifadas em decorrência da pandemia do coronavírus. Enquanto isso, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles aparece dizendo que, uma vez que a atenção da mídia está voltada para a Covid-19, é hora de “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. Que tipo de interesses sombrios esse antiministro está defendendo? Quais regras ele quer mudar e para favorecer a quem? Ele reúne condições morais para ocupar tal cargo e defender uma biodiversidade de relevância mundial como a brasileira?

Como um ceifador, anuncia a morte de anos de lutas pela preservação da vida, através do meio ambiente. Essa luta diária ensejou constar em nossa Carta Magna o fundamental capítulo 225, que diz: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

Pelo visto, nem as presentes nem as futuras gerações estão sendo pensadas. Por uma mordaz coincidência, a infeliz afirmação mira nos dois biomas em que estão duas cidades entre as mais atingidas pelo coronavírus: Manaus, na Floresta Amazônica, e a Região metropolitana de São Paulo, circundada pela Mata Atlântica. Essa cruel coincidência não pode ficar em silêncio.

Basta ter sensibilidade, bom senso e um mínimo de conhecimento para não silenciar, gritar e lutar. A Floresta Amazônica, a maior megabiodiversidade do mundo, reguladora climática e do regime de águas em nosso País, não pode ser esquartejada em nome de uma pseudo-flexibilização econômica. Como também não se pode facilitar o acesso predatório ao que resta da Mata Atlântica, o bioma originário e um dos maiores do Brasil, com cerca de 5% das espécies de vertebrados e da flora mundial, em pouco mais de 0,8% de área proporcional da Terra, além de ser berço da água que se bebe na região metropolitana.

O meio ambiente e sua defesa não são realidades adversas à economia, de modo que, no atual contexto socioeconômico, a preservação dos recursos naturais e o desenvolvimento sustentável tem que ser o delineador de planejamento em vista de um pensamento lúcido e sadio, embasados nas leis terrestres e divinas que devem nortear os valores da sociedade contemporânea.

O Papa Francisco apresenta um estudo profundo e abrangente sobre ecologia por meio da encíclica Laudato Si’ (Louvado Sejas), promulgada em 2015. Esse documento tornou-se uma referência mundial no que se refere ao cuidado da criação e a defesa do Planeta Terra, por ele chamado de “nossa casa comum”.

Daniel Teixeira de Lima

Secretário do Verde e Meio Ambiente de Mogi das Cruzes

Dom Pedro Luiz Stringhini

Bispo diocesano


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