CASO

Um mês depois, ex-vereador Geraldão vence a Covid-19

CASO Geraldo Augusto demorou a reconhecer que tinha o novo vírus. (Foto: arquivo)

Uma salva de palmas de funcionários e familiares marcou o sinal definitivo de que estava chegando ao fim o pesadelo que, durante quase um mês, atormentou o ex-vereador e advogado Geraldo Tomaz Augusto. Em plena tarde ensolarada do último domingo, sentado em uma cadeira de rodas, Geraldão, como é conhecido, deixou o Hospital de Campanha do Mogilar, última etapa de uma internação que havia começado, no dia 23 de junho, no Hospital Municipal de Braz Cubas, para onde foi levado por uma de suas filhas, após se agravarem os sintomas da Covid-19, que ele havia detectado dias antes.

Geraldão é a prova acabada de que o novo coronavírus consegue alcançar suas vítimas até mesmo nos lugares mais improváveis.

Afinal, na companhia da mulher Vera Lúcia, duas irmãs e um cunhado, ele havia se escondido da doença, num sítio isolado, na zona rural de Biritiba Mirim. De lá, Geraldão só saía em último caso, para ir comprar remédios ou suprimentos para a casa. Tudo indica, portanto, que numa dessas esporádicas saídas, acabou sendo alcançado pelo novo coronavírus.

Os primeiros sintomas vieram de uma maneira pouco convencional e diferente daqueles normalmente ressaltados pelos infectologistas. Inicialmente, ele foi tomado por uma forte ansiedade, “que não sabia de onde vinha”, mas que o impedia de dormir boa parte das noites.

Em seguida, veio a perda de apetite que o afastou da alimentação trivial, porém saborosa, que era produzida no seu refúgio pelas irmãs e esposa.

Logo depois vieram os calafrios e uma sensação de frio intenso, “daqueles de bater o queixo”, que logo passaram a se alternar com períodos de calor fortíssimo.

Após um tempo de constipação, veio a diarreia. Era como se tudo estivesse descontrolado, mas Geraldão ainda não imaginva que pudesse estar contaminado pelo corona.

Religioso, prestes a alcançar a ordenação diaconal, ele ficou ainda mais preocupado quando, ao rezar o terço de todas as noites, passou a esquecer algumas partes de orações tradicionais, como o Credo e Salve Rainha. A surpresa maior aconteceu quando ele não conseguiu chegar ao fim do Pai Nosso, uma das rezas mais tradicionais e comuns entre os católicos. Com o lapso da memória, ele voltava ao início da oração para tentar chegar até o fim.

“Eu não imaginava que estivesse com o vírus e, por isso, fui protelando a ida a um médico, por achar que aquilo seria um mal-estar mais duradouro”, lembra ele. Até que os sintomas foram se agravando e a febre chegou com força.

A solução foi ligar para a filha caçula, Patrícia, que trabalha como assistente social no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo. Foi ela quem deu a ordem: deixar Biritiba e seguir direto para o Hospital Municipal, em Braz Cubas.

O primeiro teste rápido para avaliar a presença do coronavírus deu negativo, mas uma tomografia mostrou grave lesão no pulmão. Outros exames, como a gasometria, indicaram que apesar do pulmão comprometido, o PH do sangue estava ótimo. O médico lhe entregou antibióticos para cinco dias e recomendou que fosse para casa, em quarentena. Vera Lúcia, sua mulher também era portadora do corona, porém, assintomática.

Geraldão seguiu à risca as recomendações médicas, mas sentiu que os sintomas característicos da Covid-19 começavam a se intensificar. A intensa falta de ar já o impedia de dormir à noite.

Novamente, a filha Patrícia entrou em cena, ao saber dos sintomas do pai. “Vai agora comigo para o hospital”, sentenciou ela, ao deixar o conjunto Mirage, na Vila Cintra, onde a família reside, e seguir para o Hospital Municipal. Todos os exames foram repetidos e ampliados: gasometria, tomografia, testes rápidos, mostraram uma taxa de saturação muito baixa. O índice de oxigenação no sangue, que deveria ser de 97, estava em 89. A decisão médica não deixou dúvidas: internação imediata.

E lá ficou Geraldão, respirando com ajuda de uma permanente oxigenação, sendo medicado, mas sem a necessidade da temida entubação. No hospital de Braz Cubas ele permaneceu internado desde o dia 23 do mês passado, até sexta-feira, dia 3 deste mês, quando foi transferido para o Hospital de Campanha e, de lá, recebeu alta no último domingo. O aviso que chegou por volta de 10 horas, o encheu de esperança e confiança.

“Foi uma alegria muito grande. E a recepção foi maravilhosa”, lembra ele, que foi recebido na porta do hospital por familiares e seguiu direto para sua casa, onde continua de quarentena. Até se livrar definitivamente do vírus, ele corre o risco de contaminar pessoas. Por isso, o isolamento pleno.

Mas o que a dura experiência representou para Geraldão?

“Essa doença muda bastante a consciência das pessoas, incentiva uma mudança de vida. Por mais que eu seja religioso, acostumado às orações, me senti muito frágil, até na fé”, confessa ele. Formado em Parapsicologia, Geraldão admite que a doença o levou a “mudar o entendimento em relação à vida” e a dar “mais valor a ela”.

E avisa: “Vem aí um Geraldão diferente, mais humano, mais ligado às orações, mais contemplativo”.

Entre seus planos, está finalizar a Faculdade de Teologia, onde ele se encontra no oitavo e último semestre, antes de ser ordenado diácono.

Agradecido pelo apoio que recebeu da família, do bispo dom Pedro Stringhini, dos padres da Diocese de Mogi e amigos, ele espera ser liberado totalmente pelo médico após novos exames, para que possa fazer um tratamento específico destinado a recuperar o pulmão, duramente afetado pelo corona, e buscar uma fonoaudióloga para melhorar a voz, igualmente atingida pela doença. Depois, voltar às palestras e aos cânticos, nas igrejas que costuma frequentar. Até lá, uma recomendação aos amigos e às pessoas em geral:

“É preciso evitar o problema e a solução é o isolamento. Não tem outra saída”, garante.


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