CHICO ORNELLAS

Um passeio com Oraida

LUZ ELÉTRICA – Início do século passado: enfim, a luz elétrica chega à Cidade. Para alegria da menina Oraida Pereira de Oliveira

Não a conheci. Foi pelas mãos de uma querida amiga – Esther Lopes Silveira – que recebi, há anos, o livro “Eu me lembro”, no qual Oraida Pereira de Oliveira traça um retrato da Mogi das Cruzes que seus olhos viram, nos primeiros anos do século passado. Aí por volta de 1908, 1909. É do livro o capítulo 31º que transcrevo. Uma pérola para entender esta Cidade e sua gente:

Descalça? Não sei, nem me lembro, mas creio que sim, porque eu sempre gostei de andar descalça pelas ruas de Mogi, correndo atrás desta ou daquela atração. Pois, desde pequena, tenho essa inquietação de não poder estar parada e quieta no lugar, sentindo sempre essa necessidade imensa de correr, olhar, ver tudo ao meu redor. Maravilhada com as descobertas que se abriam diante dos meus olhos atônitos, surpresa de encontrar tanta coisa interessante naquelas plácidas ruas longas e tristes da minha cidade.

Tudo para mim tinha o gosto, o sabor do desconhecido. E perambulava sozinha, andando ou correndo, à procura daquelas festas citadinas, ingênuas, homenagem a isto, àquilo, inauguração disto ou daquilo, como era nesse dia a festa de abertura de uma fábrica de doces e a comemoração da luz elétrica em nossa terra.

1909 – Mogi nos primeiros anos do século, eu nos primeiros anos de vida. Por toda parte escutava um nome, pronunciado com respeito e reconhecimento. Esse nome era do dr. Ricardo Vilela.

A ele, aos seus esforços, devíamos a luz elétrica em nossa cidade. Eu só o conhecia por ser o pai de Ciomara Vilela e fiquei sabendo de seu valor quando vi o nome dele pronunciado em discursos alusivos à grande data da inauguração da luz elétrica.

Aquele senhor de cabelos brancos e porte marcial, que discursava sobre os progressos da cidade face a luz elétrica, graças à qual teríamos, além da iluminação das ruas e das nossas casas, a facilidade de implantação de indústrias e outros benefícios mais. Aquele homem que falava por todos os mogianos era o capitão Brasílio Amélio de Azevedo Marques. Nessa ocasião, não me lembro se ele já tinha se casado com minha mãe ou se era apenas seu noivo; dei pouca importância ao seu discurso.

E apenas o vi falando. Homem simpático. E todo mundo ali presente ouvindo-o atenciosamente e prorrompendo em palmas, ao término do discurso.

Havia muita coisa, muita surpresa para o meu deslumbramento: a fábrica de doces, o povo, a desconhecida luz, motivo de tanta festa. E, dali a pouco, a inauguração da iluminação das ruas.

Viva o dr. Ricardo Vilela! Viva!’ O povo vibrava.

Toda aquela festança era na rua que hoje tem o nome do dr. Ricardo Vilela. As festas, homenagens, eram – se não me engana a memória – no Parque Mogiano, de propriedade de Joaquim de Melo Freire, o nosso muito querido capitão Quinzinho.

Todas estas minhas notas são tiradas das lembranças que guardo na mente; não fui buscá-las em pesquisas pelas velharias autênticas, que sei devem estar guardadas, ou na Prefeitura de Mogi ou na Biblioteca Mogiana. Às vezes, penso que estão guardadas no meu coração, tal é a comoção que me atinge quando relembro tudo do meu tempo de menina.

Já disse que não me lembro se minha mãe já tinha se casado com o capitão Brasílio Marques, no tempo destas solenidades da luz elétrica em Mogi. Mas são vivas as lembranças, quando meu padrasto mandou iluminar nossa casa da Rua José Bonifácio. Foi outra festa, não só para mim, mas para todos de casa, acostumados à semiescuridão dos lampiões a querosene.

Em todos os cômodos da residência, a feérica iluminação clareava também os nossos rostos radiantes. Que sol, que claridade esfuziante naqueles quartos antes tão escuros! Tínhamos sol durante a noite toda. Era uma beleza! Cantava em mim o trinado de todos os pássaros do mundo. Não achava que houvesse na terra coisa tão linda e tão boa como aquela!

Tudo o mais me fora dado pela natureza e essa luz deslumbrante me era presenteada pelo dr. Ricardo Vilela e por meu padrasto. Meu coração de criança agradecia a eles essa felicidade.”

Carta a um amigo

Sebastian escafedeu-se com o dinheiro

Meu caro leitor

Só vivendo para conhecer; até que há alguns livros sobre o tema e outros tantos filmes. Mas, para conhecer uma Redação de jornal, só vivendo-a. É um microcosmo em cujo cadinho se sintetiza todas as qualidades e defeitos do ser humano. E ali ocorre de tudo, como esta passagem. Se me contassem, eu não acreditaria, Mas, como a testemunhei…

Era 1980. Na Redação do Estadão, algumas semanas após a morte de Alfred Hitchcock (29 de abril), nada indicava um dia diferente. O pessoal da edição que ia chegando, conversava com os incumbidos da produção sobre o cardápio do dia. Passava das 4 da tarde quando os mais antigos, entre eles Hélio Damante e Eduardo Martins, fizeram uma rodinha em torno de um visitante. Não demorou para que a roda crescesse e muitos ficassem a ouvir as histórias de Sebastian. Era assim que tratavam aquele jovem senhor, pouco entrado nos 40 anos, estatura baixa e conversa convincente.

Sebastian havia prestado serviços de motorista à empresa anos antes e dizia, agora, que tinha amigos no aeroporto de Congonhas e muita coisa para oferecer. Eram tripulantes que traziam de rádio para automóvel a bebidas; perfume também havia e alguns relógios de marca. Tudo por um preço imbatível que ele se dispunha a ir buscar. Só não poderia receber cheque em pagamento, tinha de ser dinheiro, tinha de ser cash. Eu próprio liguei para minha mulher, queria comprar um rádio novo para o carro – ela me convenceu a desistir.

Por duas horas Sebastian recebeu as encomendas e o dinheiro; algumas vezes ainda ligou para alguém, perguntando se havia o produto pedido. Sempre havia. Pouco depois das 6 da tarde, com a lista de pedidos, Sebastian disse que precisaria de um carro para levá-lo a Congonhas e traze-lo de volta com a carga. Lula, o prestimoso motorista de uma Kombi, veterano do Estadão, foi escalado.

Partiram.

Por volta das 8 da noite ligou Lula para a Redação. Estava na entrada do Conjunto Nacional pela Alameda Santos já fazia quase duas horas à espera de Sebastian. Que lhe pedira, tão logo deixaram o prédio do jornal na Marginal Tietê, para passar por ali onde iria apanhar a chave do depósito em Congonhas.

Sebastian nunca mais foi visto. Escafedeu-se com as economias de uns e os sonhos de um rádio ou um relógio novo de outros.

Abraços do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
67 ANOS – Faz 67 anos (1952), este mês, que um temporal colocou abaixo boa parte da antiga Igreja Matriz de Mogi. Em seu lugar foi construída a Catedral de Santana, obra iniciada pelo vigário cônego Roque Pinto de Barros e concluída pelo bispo dom Paulo Rolim Loureiro.

GENTE DE MOGI

PEDIATRAEle tinha 28 anos quando chegou a Mogi das Cruzes, em 1950. Nasceu em Agudos, formou-se pela Escola Paulista de Medicina e aqui se instalou como pediatra Seu primeiro consultório foi na Rua José Bonifácio, 160. Transferiu-se, por fim, para a Clínica Infantil São Nicolau, que ele próprio fundou na Rua Navajas. Como legado, além de uma história dedicada à Medicina, deixou vários livros de crônicas. Um deles, “Histórias Agudas e Crônicas de um Médico”, dr. Aziz lançou em 1976 pela editora Manole. A edição está esgotada, mas é possível encontrar exemplares em sebos da internet, como www.estantevirtual.com.br. Aziz Ansarah Rizek morreu em 17 de novembro de 2004.

O melhor de Mogi

As muitas ações de benemerência que sempre existiram – e continuam existindo – em Mogi das Cruzes. Na sua totalidade tocadas pela disposição humanística de moradores daqui.

O pior de Mogi

Já vai para 90 dias que a empresa Atlântica Construções, Comércio e Serviços assumiu a Estação Rodoviária de Mogi, e ainda não se tem notícia de sua atuação por ali.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… se surpreender ao constatar que, no ano que vem, tem eleição para prefeito!