CHICO ORNELLAS

Um passeio pela Mogi de 1935

MOGI EM 1935 – Uma edição do semanário O Liberal nos leva a um passeio pela Cidade em 1935. Ano em que o advogado José Arouche de Toledo se casou (com Elza Pacheco) e que Adopho Pereira inovou, mandando construir um carro funerário.
MOGI EM 1935 – Uma edição do semanário O Liberal nos leva a um passeio pela Cidade em 1935. Ano em que o advogado José Arouche de Toledo se casou (com Elza Pacheco) e que Adopho Pereira inovou, mandando construir um carro funerário.

Sabe aquela edição de jornal que, por algum motivo, foi guardada no fundo de uma gaveta? Pois é: antes de desvencilhar-se dela, pergunte a si próprio o motivo que levou alguém a preservá-la e, se não atrapalhou ninguém até agora, deixe-a como está.

Pois isto me vem à mente ao receber, há alguns dias, a edição 243 do periódico O Liberal, publicada em Mogi das Cruzes no dia 8 de setembro de 1935. Completam-se 84 anos dentro de 8 meses.

Me foi enviada, em forma digital, pela advogada e professora Ines Pacheco Arouche, filha do advogado José Arouche de Toledo e de Elza Pacheco Arouche, um dos casais mais elegantes que esta Cidade já teve. Elegantes no trajar e no tratar.

Seu pai graduou-se, em 1933, na 102ª turma da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, academia que teve um ancestral homônimo seu como primeiro diretor: José Arouche de Toledo Redon dirigiu a Arcadas entre 1827 e 1833. E teve uma rápida passagem pela política local, na 1ª Legislatura após o Estado Novo de Getúlio Vargas – foi vereador entre 1948 e 1951, período em que exerceu a presidência da Câmara local.

Eram outros tempos: havia 31 vereadores e ninguém contestava bancada tão grande, já que a vereança não era remunerada e os poucos funcionários do Legislativo atendiam a todos os vereadores. Hoje, a Câmara tem 221 pessoas a serviço de 23 vereadores.

Na 1ª Legislatura estavam: Abílio Augusto Pinto, Afrodízio Witzel, Alberto Edmundo Perotti, Anézio Urbano, Anis Fadul, Benedicto Oliveira Flores, Benedicto Sebastião Rosa, Benedito Ferreira de Souza, Carlos Ferreira Lopes, Faustino de Souza Lima, Francisco Rodrigues Mathias, Gabriel Pereira Filho, Guido Guida, Heitor da Cunha Braga, Henrique Perez, Jair da Rocha Batalha, Joaquim Pereira de Carvalho, José Antônio Gopfert, José Arouche de Toledo, José da Costa Soares, José de Lourdes Cardoso Pereira, José Lourenço Marques da Silva, José Mario Calandra, José Mendes Ramos, José Monteiro Filho, José Silveira, Lorehi Novazzi, Milton Cruz, Plínio Boucault, Tadeu José de Moraes e Tuffi Elias Andery.

O jornal foi preservado pela mãe de Ines por uma questão pessoal: pequena nota, em uma coluna, noticiava o casamento de seus pais, neste texto (preservada a grafia original):

Enlace Pacheco Arouche – Realisou-se no dia 5 do corrente, às 17 horas, na Egreja Matriz, o enlace matrimonial do Dr. José Arouche de Toledo, filho do sr. Leoncio Arouche de Toledo com a srta. Elza Pacheco, filha do sr. Manuel Pacheco. Paranympharam o acto, pelo noivo, no civil o sr. Dr. Honório Monteiro e Senhora e no religioso D. Alice Franco e sr. Manuel Pacheco. Pela noiva, no civil, sr. Arthur Navajas e Senhora e no religioso sr. Leoncio Arouche e Senhora.

Mantendo o estilo da imprensa da época e fazendo jus às características da Cidade de então – tinha 40 mil habitantes –, O Liberal dedicava pouco espaço às notícias e esmerava-se na prática literária. Instalado com Redação e Oficinas na Rua Manoel Caetano e identificando-se como “órgão do Partido Constitucionalista”, informava nascimentos, falecimentos e eventos sociais.

Como este: “No próximo dia 11, no Cine Parque, realizar-se-á a anunciada festa artística da simpática rainha do rádio paulista – a interessante garota Agripina, a rainha do samba e cantora da Record”.

Em esportes, a notícia era a equipe do Vila Santista FC, que partira para Pindamonhangaba, onde iria jogar com o Ferroviário e Comercial. Também o União FC, que comemorava seu 22º aniversário de fundação.

O prefeito de então era João Cardoso Pereira, a quem incumbia, como dá conta o jornal, administrar o funcionalismo público, promovendo, “ao cargo de 2º Lançador Municipal o atual Fiscal Geral, sr. José Collela”. E entregar o cargo de fiscal de águas ao sr. Antônio Nogueira

Dentre os anúncios, uma declaração firmada por Adolpho Pereira: “tomo a liberdade de avisar à distinta população desta cidade, que se acho aparelhado para bem servir aos que precisarem dos serviços de minha empresa funerária”. Para esse fim mandou construir um auto fúnebre e adquiriu grande estoque de mercadorias do ramo, “que vende a preços módicos e com a máxima seriedade”.

A mesma edição comunica que no dia 10 (setembro/1935) a Associação das Damas Enfermeiras mandará celebrar uma missa às 8 horas, na Igreja Matriz, “por alma do saudoso Dr. Deodato Wertheimer” (ele morreu dia 15 de agosto de 1935).

Não havia muitos anúncios no semanário O Liberal. Os maiores eram da Leiteria Glória (de Antonio Eugenio Ferraz, na Rua 13 de Maio, 224 – atual Rua Dr. Deodato Wertheimer) e da Cafiaspirina (“remédio de confiança garantido pela Cruz Bayer). Anunciava também M. Cardoso (afinação de pianos), Casa Fernandes (de Faustino F. Souza), Agência Paulista (do corretor Martins Coelho) e Café Lourenço (“o melhor entre os melhores”)

Carta a um amigo
Glamour, só nas novelas da televisão

Meu caro Renato

Recebi sua mensagem e, nela, encontro a visão típica dos que imaginam a vida do repórter como algo cheio de glamour. Você escreve: “Tudo bem, Chico, com a história que você publica. Mas, cá entre nós: quantos outros mortais, além dos jornalistas, teriam o privilégio de viajar no vagão do rei da Bélgica, como você contou há tempos?”

Aquilo, meu caro, foi uma passagem, uma viagem de algumas horas; exceção absoluta na nossa rotina. Rotina? Se você – e outros que nos leem – tiver curiosidade de saber como são, na verdade, as viagens dos jornalistas, sugiro-lhe dois livros. Um deles é “Viagens com o Presidente” (Leonêncio Nossa e Eduardo Scolese, Editora RCB) e outro “Viagem ao mundo do Taleban” (Lourival Santana, Geração Editorial). No primeiro, os autores descrevem dezenas de viagens feitas para acompanhar, no Brasil e no Exterior, o presidente Lula. No outro, Lourival Santana dá uma aula de reportagem contando sua peregrinação pelo Afeganistão após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Você verá que há muito pouco de turismo e social no trabalho dos jornalistas. Eles não viajam nos luxuosos aviões presidenciais. Seja no Air Force One de Donald Trump Obama ou no Airbus tupiniquim. Normalmente têm de procurar voos comerciais que se adequem aos horários oficiais. Em raras exceções conseguem carona em voos do governo. E, quando isto acontece, nem sempre as acomodações são aquelas que se imagina.

Já houve tempo que não foi bem assim. Mas isso, há cerca de 60 anos quando, no Brasil, jornalista não pagava passagem de avião e era isento de imposto de renda. Eu não peguei essa época. E, das caronas que me lembro ter conseguido, apenas uma foi em voo, digamos, com dignidade. Estava em Araçatuba cobrindo o confisco do gado determinado pelo governo federal na tentativa malsucedida de conter a alta dos preços. Faz uns 40 anos! Fui para lá no início da semana, fiz o que tinha que fazer, mandei os textos para as edições da semana e um especial para o domingo. Acordei no sábado pela manhã com o telefone do hotel tocando. Era minha mulher cobrando o retorno a tempo de ir a um casamento aos qual não podíamos faltar. De Araçatuba para São Paulo, em ônibus, levaria para lá de 7 horas. E eu nem passagem tinha.

Desci para o café e peguei o jornal da cidade. Nele, a informação de que o secretário dos Transportes de então estaria em Araçatuba para uma inspeção a obras. Vi o programa e calculei que ele retornaria a São Paulo por volta da 1 da tarde. Ao meio-dia estava no aeroporto; em 40 minutos chegou seu assessor de imprensa. Não me lembro quem era, mas de pronto nos cumprimentamos. “Tem carona para São Paulo?” – saquei de pronto. E voltei em um bimotor Mitsubishi de asa alta a tempo do casamento.

Outra ocasião foi nos tempos do regime militar, quando mudança de comando do Exército sempre era notícia, por envolver o jogo político da ditadura. E lá fui rumo a Campo Grande. Como não tinha voo diário, o jeito foi se acomodar em um DC-3 militar que, na FAB, era conhecido pela sigla C-47. Era um jipe de dois compartimentos. No da frente, mais ajeitado, ia o comandante do II Exército, o general Humberto de Souza Mello; nos fundos, 15 pessoas que tentavam, sem sucesso, prender os cintos de segurança.

Mas nada se compara a uma viagem para a floresta amazônica, na cobertura de acontecimentos envolvendo a construção da estrada Cuiabá-Porto Velho. Como chegar lá? Só de carona em avião da FAB. De novo um C-47 mas, desta vez, não o que servia ao comando fosse lá do que for. Nos sobrou o avião que está nas fotos.

Pois é Renato – você ainda vê glamour nesta profissão?

Grande abraço do

Chico