EDITORIAL

Um problema de todos

A mãe de 34 anos e o filho, de apenas 7, morreram dias após terem o corpo queimado em um ataque sorrateiro – enquanto dormiam em um sofá na casa da família no Jardim Aeroporto III, em Braz Cubas. Nos relatos sobre a brutalidade e covardia desse crime está o mesmo fio condutor da crônica sobre a violência doméstica e contra a mulher. O acusado do crime já tinha agredido outra companheira no passado em situação semelhante.

Assustadoramente, em todo o país, crônica a respeito do feminicídio e da violência doméstica passou a ser assunto diário.

Desde a vigência da moderna Lei Maria da Penha houve certo avanço na punição dos autores dos crimes e na escuta às mulheres e vítimas, tantas vezes desencorajadas e humilhadas nos próprios serviços públicos por trabalhadores mal orientados. Um outro fator torna o assunto tão complexo: a sociedade brasileira se vê enredada por tantas violações de direitos que essa causa, normalmente tradada entre quadro paredes, perde fôlego diante de outras urgências.

As cidades estão começando a se preparar para responder ao crescimento das denúncias em fóruns, delegacias comuns e da Mulher e serviços de assistência social. Esse é um ponto positivo, ainda tímido, mas positivo. A maior parte dos casos ocorre em lares em situação de extrema vulnerabilidade e pobreza. Que ninguém se engana, a violência doméstica não escolhe classe social.

E é aqui que o desafio se avoluma: a construção de valores de respeito ao outro, independente do gênero e raça precisa acontecer dentro de casa, na escola, na faculdade e em outros circulos sociais.

A rede de atenção ao problema, em Mogi, melhorou muito em órgãos públicos. A Patrulha Maria da Penha já deteve 40 acusados de violação das medidas protetivas. Tem o dever hoje de assistir 400 mulheres detentoras de medidas protetivas concedidas pela Justiça de Mogi.

Mas ainda falta cobertor para atender melhor quem sai de casa e não tem estrutura para, de pronto, cuidar dos filhos, arranjar um outro endereço. O vazio na estrutura do acolhimento é o que mais preocupa hoje a advogada Rosana Pieucetti, uma das fundadoras da ONG Recomeçar, criada para exercer o papel. Ela confirma as conquistas de Mogi com a manutenção de várias ferramentas para inibir o feminicídio. Mas ainda faltam investimentos públicos para o Serviço de Acolhimento Sigiloso, que atua justamente na prevenção de um tipo de crime que não pode ser abafado, nem desconsiderado por ser um problema do outro.


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