EDITORIAL

Um tabu a ser derrubado

Mais um feriado prolongado chegou ao fim, com a repetição de velhos problemas ao longo da ligação rodoviária Mogi das Cruzes-Bertioga, cada dia mais utilizada por paulistanos, moradores do Alto Tietê e até do Vale do Paraíba, que se destinam às praias da Baixada Santista.

De novo, as reclamações foram as mesmas: o excesso de veículos que provoca os inevitáveis congestionamentos ao longo do trecho da estrada que corta a Serra do Mar e nas principais vias de acesso, como a Mogi-Dutra e parte da Avenida Perimetral que conduzem o tráfego vindo de outras cidades para a chamada Rota do Sol, no caminho para Bertioga e localidades próximas.

Mais uma vez, as fotos mostradas por este jornal revelavam o trânsito quase parado e o movimento intenso de vendedores ambulantes circulando em meio aos veículos para oferecer água mineral, salgadinhos, refrigerantes e, até mesmo, cerveja e outras bebidas alcoólicas.

A fila era praticamente uma só, entre Mogi e a chegada ao Litoral. Os protestos também se repetiram, tornando-se uma espécie de samba de uma nota só em torno de um tema já desgastado, mas que se torna atual a cada feriadão, final de semana, ou época de férias. Estamos nos referindo à questão da duplicação da estrada em seus 50 km de extensão, algo aparentemente simples, se analisada somente a distância entre as cidades de Mogi das Cruzes e Bertioga.

O trecho é reduzido, mas as implicações ambientais são gigantescas. Afinal, a rodovia passa em meio à abundante vegetação da Serra do Mar, algo que dificultaria sobremaneira qualquer tentativa de duplicar o trajeto ora existente.

Com as atuais restrições impostas a qualquer obra que implique na supressão de mata nativa, a duplicação da Mogi-Bertioga passou a exigir vultosas obras de arte. Algo como construir uma pista suspensa sobre pilastras por cima da atual vegetação, o que elevaria o seu custo também às alturas.

Por tudo isso, a duplicação da Mogi-Bertioga se tornou um verdadeiro tabu para as autoridades. Que o digam os candidatos a governador de São Paulo que, entrevistados por este jornal, fugiram do assunto como o diabo costuma fugir de cruzes. A questão ambiental é lembrada sempre como o empecilho definitivo para a execução de tal obra.

Um desafio que ninguém parece interessado em enfrentar e executar.

E enquanto falta aos políticos de hoje a coragem de um Waldemar Costa Filho, que, no passado, construiu a Mogi-Bertioga contra a vontade de governadores outros dirigentes das décadas de 70 e 80, as reclamações da população vão continuar, certamente, sabe-se lá por quanto tempo. Os congestionamentos também.

O tabu da duplicação está por ser derrubado. Mas parece ainda não ter nascido alguém disposto a encará-lo e vencê-lo. Ao menos, por equanto.