EDITORIAL

Uma cidade rara

Uma exposição de arte sacra, em cartaz até 31 de janeiro, na Pinacoteca, permite uma raríssima experiência histórica, cultural e artística sobre o passado e o presente de Mogi das Cruzes, uma das mais antigas cidades brasileiras, com um portfólio de registros artísticos dos séculos XVII, XVIII e XIX, muitos deles, espalhados em coleções particulares e públicas.

O acervo que pode ser visitado na Pinacoteca possui 50 peças sacras. Entre elas, estão uma imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, que pertenceu à capela da Chácara da Yayá, imagens do artista José Benedito da Cruz, o Zé Santeiro, autor das pinturas da Capela de São Sebastião, do Distrito de Taiaçupeba, parte do preservado altar da Capela de Santo Alberto, além de fragmentos de uma coluna da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, derrubada no século passado para dar lugar ao conjunto de lojas e um hotel, no largo de mesmo nome, no coração de Mogi.

JBC é a assinatura do santeiro e pedreiro considerado por Eduardo Etzel, um dos mais reconhecidos estudiosos da arte sacra brasileira, como um excelente artista multifacetado, cuja “obra transcendeu ao homem”.

A mostra com as obras de JBC na própria Mogi das Cruzes onde ele viveu, enquanto trabalhava na antiga capela de Taiaçupeba é algo singular por si – muitas das peças dele se perderam.

Poucas vezes, Mogi vive essa oportunidade – de ter em apenas um local, no caso, a Pinacoteca, exemplares de arte que conta a sua própria história.

É uma dica de um passeio cultural que merece ser divulgada, principalmente, junto às novas gerações, que desconhecem muito do que cidade construiu em mais de quatro séculos e meio. E isso para evitar desvarios. Há dois anos, a obra de JBC foi profanada na Capela de Taiaçupeba, quando um padre resolveu passar um reboco nas paredes com os registros únicos de JBC.

Este jornal mostrou a impropriedade do que estava acontecendo, e o bispo diocesano dom Pedro Luis Stringhini agiu para impedir mais um duro golpe na arte sacra de Mogi das Cruzes, e na história brasileira.

À época, o historiador Ângelo Nanni propôs a seguinte reflexão sobre o episódio que retrata os dias marcados pelo consumismo, a instabilidade das relações e da vida: “O filósofo Lévi-Strauss nos fala que as cidades vão do viço à decrepitude, sem passar pela estabilidade e o vigor da idade avançada. São como cidades decrépitas. O que é antigo não tem valor, tem que ser substituído”.

A exposição é algo esporádico, mas tem sua importância. No mínimo, energiza um antigo assunto dolorido para Mogi, a preservação do patrimônio histórico.