EDITORIAL

Uma curva perigosa

Riscos de acidentes na Via Perimetral não sensibilizarm os sete últimos prefeitos de Mogi

Trabalhadores da região entre a Ponte Grande e a Volta Fria são testemunhas mais frequentes dos acidentes com motoristas de carros e caminhões ou motociclistas na curva considerada como a mais perigosa da Via Perimetral, perto do portão de acesso ao Kosmos Clube.

Quando um caminhão ou uma moto tomba naquela pista, o acidente pouco respercute. Principamente porque a maioria dessas ocorrências representa dano financeiro ou sequela pessoal apenas para os envolvidos nos incidentes.

Esse é um trecho da Via Perimetral com um grande fluxo de veículos, mas sem o ingrediente que poderia ter forçado o governo municipal a tomar providências para proteger o usuário da pista: moradores e lideranças de bairro que pudessem pressionar vereadores, secretários de Trânsito e prefeitos. Esse trecho possui além do clube, alguns poucos sítios.

Os últimos quilômetros da Via Perimetral, entre Braz Cubas e a Rodovia Mogi-Bertioga, foram entregues em 2002. Alguns anos antes disso, essa curva perigosa foi pavimentada durante a construção do anel viário aberto a partir de 1987, como uma alternativa para retirar parte dos veículos da região central.

Quando os investimentos na Via Perimetral foram suspensos pela administração municipal, Mogi das Cruzes possuía cerca de 330 mil moradores (Censo 2000). Hoje, dizem as estatísticas oficiais, ganhou mais de 100 mil habitantes. Além do crescimento populacional e das demandas da mobilidades urbana, nesse período, nesses 17 anos, o transporte particular ganhou força em detrimento do público, provocando um surpreendente aumenta da frota municipal de carros e motos. A curva perigosa da Via Perimetral permaneceu como foi construída.

Os riscos de acidentes neste ponto do acesso não sensibilizaram nenhum dos sete prefeitos que sucederam Antonio Carlos Machado Teixeira, que iniciou os primeiros metros da Via Perimetral, entre o César de Souza e o Rodeio, no último ano do mandato em 1987.

Há um lamentável desinteresse do poder público e também a imprudência de condutores e a falta de sinalização adequada, como mostrou nossa reportagem de domingo.

Porém, vez por outra, algo bom acontece. Como agora há pouco, quando o nosso leitor, o motorista Clóvis Bertazzi Mondiglione, escreveu uma carta à redação, cobrando a eliminação do risco, com o redesenho do traçado. É uma reação necessária. Dará resultado? O tempo dirá.

Em especial nesses tempos tão incertos, esse tipo de participação cidadã tem grande valia porque vai contra algo cada vez mais perturbador, preocupante e atual: a desarticulação e o desinteresse da sociedade civil organizado por assuntos de interesse coletivo, que acabam sendo lembrados quando alguém próximo se perde em uma curva perigosa.