EDITORIAL

Uma rampa e a justiça social

O que se espera, da Prefeitura, é o bom senso, a gentileza

Um pedido de uma moradora da avenida Altino Arantes, no Distrito de Jundiapeba, acatado pelo juiz Eduardo Calvert, da Vara da Fazenda Pública de Mogi das Cruzes, simboliza o difícil caminho de quem busca, na convivência com a cidade, sentidos como gentileza, justiça social e cidadania. Cadeirante, ela solicita ao governo municipal a instalação de rampas na rua onde vive.

A Prefeitura terá chance, se não recorrer da decisão judicial que sentenciou a construção das rampas de acesso em uma das vias mais movimentadas daquele distrito, de avançar um pouco na construção desse conceito tão longe da realidade e muito presente em peças publicitárias governamentais e eleitorais: o de uma cidade boa para se viver, trabalhar, criar filhos, ver os netos nascerem.

É uma cidade boa, não só na propaganda, é bem verdade. Mogi evolui em diversos aspectos socioeconômicos. Mas ainda derrapa feio e gravemente em parâmetros como os de plena acessibilidade e mobilidade urbana.

Voltemos ao caso. A moradora cadeirante solicitou as rampas na via para que possa circular com segurança e liberdade. O juiz Eduardo Calvert reconheceu os argumentos sobre um antigo assunto polêmico porque o governo municipal delega ao proprietário do imóvel a obrigação de construir as rampas, assim como o de preservar as calçadas, que estão no espaço público e comum a todos.

Nesse caso, o que significaria para a Prefeitura estabelecer alguns pontos da via, construir algumas rampas e atender à solicitação individual , mas de resultados coletivos? Um recurso, aqui, é mais um golpe à luta pela acessibilidade urbana e o prolongamento de uma discussão judicial.

Forçoso lembrar que, infelizmente, a cidade acompanhou essa mesma negligência do poder público quando reivindicação semelhante para os arredores da Apae levou anos para ser solucionada. Mesmo assim, a coisa só mudou de rumo pelo caminho da judicialização, quando o Ministério Público, a Câmara e também este jornal defenderam os direitos das mães, professores e alunos.

A construção da acessibilidade urbana é capítulo recente nas cidades brasileiras e do mundo. Em nossa edição de ontem, neste mesmo espaço, falamos sobre cumprimento dos direitos das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida (uma população que cresce, a cada ano).

O que se espera, da Prefeitura, é o bom senso, a gentileza e o respeito a uma demanda legítima, observada em todos os bairros. Aliás, Mogi demora a criar um modelo mais abrangente de acessibilidade.


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