ARTIGO

Umbrais do amanhã

Gaudêncio Torquato
Twitter@gaudtorquato

Quando o olhar de esperanças começava a enxergar os umbrais do futuro, eis que a paisagem devastada por lama e rejeitos de ferro, em um território adornado por morros e montanhas, desvia a vista para uma horrenda fotografia do passado. Carlos Drummond de Andrade, em 1984, já descrevia a cena: “O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse/Mais leve a carga. Entre estatais/E multinacionais/Quantos ais!”

O futuro ensaiava ser um misto de harmonia ambiental, desenvolvimento social, alegria de viver em segurança, com o homem tirando a riqueza da terra para formar seu pibizinho de felicidade.

Já o passado contém curvas, artimanhas e adereços: a mamata nas tetas do Estado, o nepotismo, o amaciamento de leis, a devastação da natureza, as tragédias anunciadas com a visão de mortos enfileirados.

Chegamos a confiar no lema do comandante dessa que se apresentava como empresa-orgulho do Brasil, a Vale: “Mariana nunca mais”. Não foi assim. A barragem pertence à Samarco, de propriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton. O desastre de Mariana se repetiu.

E o que se enxerga a essa altura? Desculpas esfarrapadas. Bloqueios de bilhões da empresa. Como se sabe, não vingarão. O caminho longo do Judiciário fará retornar os recursos. Endurecimento da legislação sobre concessão ambiental? O então candidato Jair Bolsonaro e o então candidato Romeu Zema, governador de MG, prometeram em campanha o contrário: amaciar, flexibilizar, sob o argumento de desburocratizar. Portanto, o novo governo está numa encruzilhada.

Não há, então, fresta na janela do amanhã que possa fazer brotar as esperanças? Só se for a janela do ministro Sérgio Moro, da Justiça, de onde descortinaríamos melhor visão. Mas ele terá que aguentar o tranco e sustentar a força investigativa do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), este mesmo que está de olho nas contas do senador eleito Flávio Bolsonaro. Moro parece estar entre a cruz e a caldeirinha. Se o órgão for em frente, fará crescer a montanha de suspeitas sobre o filho do presidente e outros protagonistas, ameaçados de flagra fazendo o jogo da “rachadinha” (uma parte pra lá, outra prá cá).

O fato é que o futuro continua preso no cordão do passado. Por mais que se procure cortar os laços, nossa cultura política se banhará por muito tempo nas águas lamacentas de fontes contaminadas. A assepsia será um exercício de longuíssimo prazo.

Gaudêncio Torquato é jornalista e professor titular da USP, consultor político e de comunicação