CIRCUITO

Ubirajara Nunes lidera grupo de voluntários unidos pela Rota da Luz

Ubirajara Nunes. (foto: Eisner Soares)
Ubirajara Nunes. (foto: Eisner Soares)

A Rota da Luz, que corta as cidades de Mogi das Cruzes, Guararema, Santa Branca, Paraibuna, Redenção da Serra, Taubaté, Pindamonhangaba e Roseira até chegar à Aparecida, leva em média seis dias para ser concluída a pé. Portanto, este final de semana é o mais procurado do ano por peregrinos que buscam chegar ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida no dia da padroeira (12 de outubro – próximo sábado). Sendo assim, nesta entrevista o presidente da recém-criada Associação Amigos da Rota da Luz, Ubirajara Nunes, que também é chefe de divisão de museus da Secretaria de Cultura Municipal, traça o perfil de quem faz a caminhada e explica quais são as necessidades do trajeto, como a manutenção de placas e conscientização dos comerciantes.

Quem é o peregrino da Rota da Luz?

A pesquisa da Associação Amigos da Rota da Luz visa, entre outras coisas, entender quem são as pessoas que fazem a peregrinação e saem de Mogi. Além das pessoas da região, para nossa surpresa há muita gente de fora, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná e do Acre. E quanto mais de longe as pessoas são, mais procuram se hospedar por aqui. Praticamente 90% dos peregrinos, seja a pé, de bicicleta ou a cavalo, participam por motivos de crença, fé e religiosidade, por alguma graça alcançada, algum pedido atendido por Nossa Senhora e pago com a peregrinação. Os outros 10% são ciclistas, esportistas, aventureiros, atletas e trilheiros que querem fazer pela paisagem bonita, pelo desafio da distância longa, turismo ou lazer.

Muitos fazem a peregrinação até Aparecida pelo acostamento da Via Dutra, porém em 2016 surgiu uma nova opção a partir da inauguração da Rota da Luz. Isso fez aumentar o número de adeptos?

Sim, o número de peregrinos está aumentando, e percebemos isso até mesmo pela quantidade de pousadas e serviços, que cresceu muito ao longo da rota. Também conseguimos avaliar a demanda pelo total de certificados de participação emitidos na Basílica (Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida). Mas a partir deste ano nossos formulários vão nos ajudar a mensurar isso com mais precisão.

Que formulários são esses?

A associação dispõe de um cadastro chamado “calendário peregrino”, no qual o interessado em participar coloca algumas informações básicas, como nome, cidade de origem e de onde vai iniciar a caminhada. Até o momento, temos 300 peregrinos cadastrados para fazer o trajeto em outubro, sendo que 150 são somente neste final de semana, que é o mais movimentado de todo o ano, já que a rota leva em média seis dias a pé e o próximo sábado, dia 12, é a data em que se comemora o dia da padroeira. Aliás, a Rota da Luz emite um certificado para quem participa do caminho e passa por pelo menos três cidades. Em Mogi, é possível pegar e carimbar o passaporte na Estação Estudantes.

Mas também há quem participe e não preencha o cadastro, certo?

Sim. Na realidade esse cadastro começou a agora, pois a associação é recente, fundada em setembro último. Acompanhamos os peregrinos desde 2016, e já estávamos discutindo a criação do grupo desde o início do ano, mas as definições legais e burocráticas levam tempo.

E como é composta a Associação Amigos da Rota da Luz?

Em cada uma das nove cidades há um grupo regional. Todos os voluntários que fazem parte é peregrino, seja realizando a pé, de bicicleta ou a cavalo. A motivação inicial vem, portanto, do fato de todos sermos peregrinos e devotos à Nossa Senhora. A Rota da Luz foi criada em 2016 para tirar os peregrinos da Dutra, trazendo-os para um caminho mais seguro, não só contra assaltos mas principalmente livre de acidentes e atropelamentos.

Como você se envolveu com esta causa?

Em 2014 fundei na cidade um grupo de ciclismo chamado Família de Ciclistas, e desde então realizo muitos pedais, passeios e viagens de bike. Naquele ano eu e minha esposa ficamos “grávidos” do Davi, e durante um dos exames de rotina da gestação, apareceu que nosso filho

poderia ter uma doença, um problema de saúde. Ficamos desesperados, mas como eu já era devoto, fiz um compromisso com Nossa Senhora, e entendi que tudo seria como tinha que ser. Ele nasceu saudável e a partir do ano seguinte, passei a fazer a peregrinação anualmente, e levando-o comigo.

Qual o trabalho da Associação?

Quando o Governo do Estado criou a Rota da Luz, fez a sinalização, criou um aplicativo digital, estabeleceu um convênio com a Basílica para a emissão de certificados, tudo dentro do programa Caminha São Paulo. Mas o interessado deveria baixar o aplicativo e seguir sozinho, procurando por pousadas e pontos de apoio por conta própria. Além disso, a cada ano as placas vão desbotando e sumindo, e não há manutenção. Ao longo da rota há comerciantes que não sabem do que se trata o caminho, então faltou um trabalho de sensibilização, que é o que fazemos.

Como isso é feito?

Orientamos o peregrino, que muitas vezes quer fazer o caminho mas não sabe onde pode pousar, onde estão os pontos de apoio. Se acontecer alguma coisa com esta pessoa no meio da estrada, se ela passar mal, por exemplo quem vai dar suporte? Tem tudo isso site oficial, mas muito informatizado e pouco humano. Então damos esse suporte, fazendo uma entrevista inicial para entender a motivação da pessoa em fazer o trajeto, depois acompanhamos toda a caminhada da pessoa por meio de geolocalização e ainda há outras questões, como a manutenção da sinalização em todo o percurso, trabalho que começamos há duas semanas.

Então voluntariamente vocês tem arrumado as placas ao longo da Rota da Luz?

Isso mesmo. A primeira necessidade que identificamos foi essa, pois muitos peregrinos reclamam ficarem perdidos ou não saberem por onde começar. Mais do que a ação do tempo, o que prejudicou as placas foi o vandalismo: há várias pichadas, outras quebradas e têm aquelas que sumiram. E como não houve manutenção desde 2016 todas estão ressecadas, apagadas e sujas. Com recursos de doação estamos fazendo limpeza e a fixação das placas nos postes, reapertando as cintas e substituindo os parafusos quando necessário. Também mandamos fazer novas setas amarelas, refletivas e em adesivo resistente ao tempo para aplicar por cima das antigas.

Vocês também têm conscientizado os comerciantes?

Sim, pois entendemos que este trabalho pode fomentar a economia, a cultura e o turismo local, ajudando todas as cidades envolvidas. A partir do cadastro de apoio ao peregrino, os comerciantes podem se registrar e depois fazemos uma visita ao local, para uma entrevista mais detalhada e também explicações sobre o que a Rota da Luz, quem e como são os peregrinos, que podem chegar cansados, com dor e bolhas nos pés e vão precisar de kit de primeiros socorros e outros cuidados.

Como está a expectativa para este final de semana, que é o mais procurado?

Esperamos não somente os 90 peregrinos já confirmados para o sábado e 60 para o domingo, mas muitos outros, que ainda não conhecem nosso trabalho. Aliás, nossa intenção é fazer manutenções periodicamente na rota, e não somente em outubro. Por enquanto todos os nossos esforços estão voltados para este trabalho inicial e emergencial, que leva muito tempo. No último sábado nossa pretensão era chegar até Redenção da Serra, porém fizemos somente de Mogi à Paraibuna, já que em Santa Branca precisamos refazer praticamente todas as placas, que estavam amarradas com arame. Depois, no domingo saímos de Paraibuna e nos deparamos com o outdoor da rota da luz todo sujo, e gastamos quase duas horas para lavá-lo.

Que outras ações estão no plano da associação?

Queremos trabalhar rotineiramente o material de turismo de todas as cidades com os peregrinos e temos o viés de preservação dos patrimônios histórico e cultural por meio da recuperação de capelas e igrejas. Também pretendemos criar códigos QR para informar o peregrino sobre as belezas naturais “escondidas” na rota, e ainda um concurso de fotografia para promover estes locais. Já sobre a manutenção, o governo já levantou a possibilidade de custear a instalação de nova sinalização, então estamos levantando todos os valores e necessidades atuais, tendo como inspiração o Caminho Da Fé, que também é regido por uma associação.

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