REMÉDIO

Uso medicinal da maconha ajuda família mogiana

QUALIDADE DE VIDA Andréia e o marido Djovaldo tinham rotina estressante devido à fragilidade das filhas gêmeas, que agora vivem melhor. (Foto: Eisner Soares)
QUALIDADE DE VIDA Andréia e o marido Djovaldo tinham rotina estressante devido à fragilidade das filhas gêmeas, que agora vivem melhor. (Foto: Eisner Soares)

A vida da família de Andreia não era nada fácil. Ela e o marido, Djovaldo Rodrigues, viviam uma rotina estressante, de medo e incertezas com a saúde de filhas gêmeas. Passaram seis anos frequentando as unidades de atendimento da cidade quase todos os dias e muitas noites. Praticamente não dormiam, porque uma das meninas, Isadora, com epilepsia sofria com sucessivas convulsões, e a outra, Isabela, teve paralisia cerebral. O casal procurou tratamento na rede pública e médicos particulares, mas não conseguia amenizar o problema das crianças. Pelo contrário, as doses de remédios aumentavam e nenhum dos oito medicamentos que elas tomavam controlavam as crises. Porém, tudo mudou quando ela decidiu passar por cima de todos os seus preconceitos e começou a usar o óleo da maconha medicinal, a Cannabis Sativa, indicado para o tratamento de diversas doenças.

Andréia Rodrigues, moradora em César de Souza, Mogi das Cruzes, conta que as condições das meninas, que hoje estão com sete anos, se agravavam cada vez mais à medida que cresciam. As duas têm apneia do sono, e somado os outros problemas de saúde, não conseguiam dormir. Durante uma dessas crises de convulsão da Isadora, o casal levou a filha em todas as unidades de saúde da cidade e não conseguiu resolver, relata emocionada a mãe, ao descrever o desespero que sentiu naquela noite quando percebeu que não tinha mais para onde recorrer: “Abracei meu marido e disse que não estava aguentando mais. Pedi para Deus me indicar um caminho e ajudar a encontrar uma forma de acabar com o sofrimento das minhas filhas”, recorda, com a voz embargada.

Evangélica, filha de militar, a dona de casa disse que ficou “chocada e muito brava” quando a filha mais velha, Ester, de 17 anos, lhe disse que ficou sabendo que a maconha poderia ajudar as irmãs. Um tempo depois, uma vizinha a convidou para ir a um curso sobre a cannabis. Ele resistiu inicialmente, mas decidiu ir com a amiga na paróquia São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, onde conheceu o padre Ticão, que promove cursos sobre o uso da planta em parceria com a Universidade Federal de São Paulo. Muito desconfiada, disse que foi levada pela curiosidade, porque era cética. Mas, no final, por via das dúvidas, levou um vidrinho com o óleo da cannabis para a casa dela.

“Foi muito rápido, como se fosse um milagre: dei umas gotinhas do óleo de cannabis para as meninas e em meia hora as duas estavam dormindo, como nunca tinha acontecido antes.  Essa é uma erva santa, que tem que deixar de ser demonizada para ajudar as pessoas que sofrem com diversos problemas de saúde”, defende. Ela sempre diz sorrindo que na casa dela “pode faltar arroz e feijão, mas não a maconha”.

A partir daí tudo mudou e a família passou a ter qualidade de vida. Claro que as meninas ainda têm dificuldades, mas Andreia garante que elas estão evoluindo a cada dia. As crises reduziram, passaram a ter mais autonomia, e se comunicar melhor. Ao estudar sobre o tema, ficou sabendo que a erva também ajuda pacientes com Parkinson, como o caso do pai dela. “Ele estava na cama, muito mal. Comecei a dar o óleo e houve uma grande melhora, porque ele não usa mais fraldas, voltou a se movimentar, e a conversar”, destaca ela.

A vida de Andreia poderia estar plena com todas as melhorias. Mas, ela ainda enfrenta o mesmo problema de milhares de mães que lutam para legalizar o uso medicinal da planta no Brasil. Admite que muitas delas precisam usar métodos clandestinos para garantir o produto. Ela já conseguiu a autorização da Anvisa, mas para importar o produto disse que teria um custo do R$ 3,9 mil por frasco para cada uma das filhas, o que foge totalmente do seu padrão.

 Hoje ela se define como ativista, para poder ajudar “muitas outras Andréias preconceituosas, que sofrem com filhos doentes e que poderiam ter a ajuda do óleo da maconha”. Conta rindo que fez questão de participar da marcha pela legalização da maconha em São Paulo porque acha que é preciso acabar com o preconceito, passar por cima dos interesses econômicos, e investir mais em pesquisas para ampliar o uso do produto.

Padre defende a legalização do produto

“Temos que acabar com a demonização da maconha no Brasil. É preciso legalizar e estimular o seu uso para ajudar as pessoas no tratamento de muitas doenças. Trata-se apenas uma planta, que vem da natureza, não tem nenhuma química. É muita hipocrisia não admitir os seus benefícios”. A declaração é do padre Antônio Luís Marchioni, o Padre Ticão, que decidiu enfrentar o preconceito e sair do discurso para a prática para disseminar o uso do produto.

Para ampliar essas informações, buscou uma parceria com a Universidade Federal de São Paulo e passou a realizar cursos na sua paróquia, onde reúne centenas de pessoas de diferentes credos interessadas conhecer melhor a Cannabis Sativa, uma planta que segundo ele, era usada antes de Cristo e até mesmo a Bíblia foi confeccionada com o cânhamo. As aulas são ministradas por uma equipe técnicos, pesquisadores e médicos. Atualmente são virtuais. “Aqui temos casos de pessoas com câncer, Parkinson,  Alzheimer e muitas famílias que enfrentam problemas com filhos que têm convulsões”, pontua o Padre Ticão, que pode ser contatado pelo telefone 999432646.

Defensor da legalização, ele critica a demora para autorizar o plantio para que a erva possa ser usada de forma mais democrática. “As pessoas que têm dinheiro podem comprar o produto, mas não é justo que as famílias pobres sofram porque não conseguem pagar o preço”, avalia. A Anvisa aprova apenas a comercialização, mas custo para a importação está acima de R$ 2 mil, entre outras exigências para ter acesso ao extrato da erva. Hoje no Brasil cerca de 8 mil pacientes têm autorização da Agência.

Médica diz que custo elevado limita o acesso

A médica Carolina Nocetti é uma das profissionais que está na luta para conseguir avançar com o projeto que legaliza a plantação da maconha para fins medicinais no Brasil,  país conservador quando se trata desse assunto. Clínica geral, focada exclusivamente no estudo sobre o tema, ela disse que as expectativas melhoraram a partir da autorização da Anvisa para a venda do produto importado nas farmácias. Porém, apesar dessa abertura, o seu alto custo no mercado inviabiliza o acesso para todos.

A legalização, na opinião dela vai ajudar a disseminar mais o uso da maconha medicinal no Brasil e ajudar no tratamento de muitas enfermidades. Ela já iniciou esse processo ministrando cursos, inclusive na paróquia do padre Ticão – para profissionais de saúde e interessados em se informar melhor sobre o uso da planta, indicada para tratar de doenças crônicas, especialmente casos epilepsia, autismo, Parkinson, Alzheimer, dores, câncer e ansiedade.

Ela disse que a indicação do produto vem aumentando por parte dos médicos, que passaram a demonstrar mais interesse pelo assunto após a liberação da Anvisa para a comercialização. Mas, existem muitas dificuldades para se ter acesso. “Trabalhar em um país enfrentando o dilema para conseguir usar o produto é um desafio e uma missão que tenho na vida”, ressalta a médica,

Nocetti destaca a necessidade de agilizar a aprovação Projeto de Lei nº 399, de 2015, pelo Congresso Nacional para liberar o uso e o plantio da cannabis para fins medicinais. Ela disse que tem participado de debates sobre o tema e está otimista. “E por mais conservador que seja, no Congresso temos o apoio da direita e da esquerda, inclusive da deputada Carla Zambeli (PSL)”.

Na opinião dela existe cada vez mais compreensão sobre os benefícios do uso medicinal do extrato da planta, não só por profissionais de saúde, pacientes, como também pelas autoridades políticas e que existe uma ala envolvida nessa discussão no Congresso. Para agilizar o processo, ela sugere que as famílias e pessoas que precisam da cannabis entrem em contato com os deputados que os representam para incentivar para que votem favoráveis ao projeto.


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