MUDANÇA DE HÁBITO

UTI cria nova rotina para preservar bebês do novo coronavírus, em Mogi

SEGURANÇA Superlotação na UTI Neonatal é uma das preocupações do hospital referência para a região. (Foto: arquivo)
Em pandemia, pai e avós não podem mais visitar recém-nascidos que dependem de cuidados intensivos  (Foto: arquivo)

A pandemia de Covid-19 exige reforço nos cuidados com a higienização e segurança dos mais diversos ambientes para evitar a disseminação do novo coronavírus, mas no caso das unidades de saúde, estas medidas ganham ainda mais atenção. Na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal da Santa Casa de Misericórdia de Mogi das Cruzes, com 12 bebês, e outros 6 na unidade de cuidados intermediários – até a última sexta-feira -, desde a divulgação dos primeiros casos na cidade, as visitas dos pais, que até então podiam ficar com os recém-nascidos durante todo o período de internação, foram restritas apenas ao período das 16 às 17 horas. Já os avós não têm mais permissão de ver os netos internados no local, como ocorria sempre às quintas-feiras.

“A única exceção para que as mães fiquem de forma intensiva com seus bebês para poder amamentá-los é quando, após dois a três meses de internação, faltam de três a quatro dias para a alta hospitalar. O reforço de cuidados com os recém-nascidos prematuros, principalmente aqueles com menos de um quilo, ou que apresentam problemas de saúde ao nascer, sempre existiu na UTI Neonatal, bem antes do coronavírus, mas agora, isso tem sido muito maior”, explica a pediatra e intensivista Maria do Carmo Leitão.

Outra medida é não receber bebês que já tiveram alta, foram para casa e precisaram retornar ao hospital ou vindos de outros locais. “Não existem vagas. Temos três leitos de UTI fora da unidade para estes casos, porque este paciente pode vir com alguma virose, H1N1 ou até coronavírus. Não tivemos demanda, mas se tivermos, vamos recebê-los e dar toda assistência enquanto aguarda a vaga na Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde)”, diz a médica.

Segundo ela, que também é diretora clínica e coordenadora da UTI Neonatal da Santa Casa de Mogi, as equipes médica e de enfermagem recebem orientações especiais. “Os médicos da UTI fazem testes do coronavírus. E se, por ventura, alguém der positivo, será afastado por 14 dias. Por enquanto, não tivemos ocorrências em profissionais e nem em recém-nascidos. Estamos dentro da normalidade, mas não sabemos até quando”, alerta a médica. Mesmo restritas ao período de uma hora, as visitas dos pais aos bebês na UTI Neonatal também tiveram protocolos reforçados.

“Todos lavam as mãos, colocam celular e chaves na bolsa, que fica do lado de fora. Depois, lavam as mãos de novo ao entrar na unidade, onde usam avental, touca e máscara. Muitos querem fazer fotos, mas o celular não é permitido no local porque estudos mostram que é um instrumento que carrega multibactérias e pode ser agente de contaminação”, explica a intensivista.

Maria do Carmo diz que os profissionais são testados. (Foto: Divulgação)

Maria do Carmo lembra que, apesar de a Covid-19 ser uma doença recente, ainda sem muitas informações precisas, alguns estudos apontam comportamento menos agressivo em bebês, o que leva a crer que em caso de possível infecção, os recém-nascidos seriam contaminados de forma mais branda. “Já os pacientes com comorbidades e idosos são afetados de forma gravíssima, com a destruição das formas pulmonares.

Nestes casos, se internados e após receber a medicação apresentarem insuficiência respiratória, fica mais difícil conseguir sobreviver. Mas entre os recém-nascidos, bebês e crianças, não há relatos de alta taxa letalidade”, completa. No entanto, os cuidados são  redobrados, principalmente com o uso de máscaras e higienização das mãos com álcool em gel, na hora da amamentação, para formar uma barreira contra o vírus.

“Embora pareçam ser mais resistentes, não dá para confiar. Então, estamos trabalhando como se todos, incluindo equipe de trabalho e pais, tivessem alguma comorbidade ou estivessem na faixa etária de idosos. Estas são as orientações na nossa unidade, onde estamos adotando uma conduta única em busca de um final feliz, já que ainda temos um tempo para conseguir prever algo”, avalia.

Os cuidados, que já eram necessários para recém-nascidos que precisaram ficar na UTI, devem ser reforçados após a alta hospitalar. “Os bebês, principalmente prematuros, que tiveram infecções durante a estadia, precisam de uma atenção imensa, então, a família é orientada com os cuidados a seguir em casa, como lavagem das mãos, uso de máscaras e suspensão das visitas. No caso de quem mora com os avós, tios, primos, a mesma casa, a atenção deve ser ainda maior, porque há aqueles que precisam sair de casa para trabalhar. Estes bebês são especiais e, neste período, o melhor é evitar o contato com muitas pessoas. Da mesma forma, os pais não devem levá-los a locais com aglomeração de pessoas, como supermercados, bancos, shoppings”, orienta Maria do Carmo.

Maioria das crianças não tem os sintomas
Com as escolas fechadas durante a quarentena, aulas online e crianças em casa, a procura por atendimentos nos pronto atendimentos da cidade apresenta redução de até 40%, apesar da maior ocorrências de problemas respiratórios nesta época do ano. A estimativa é da pediatra mogiana Paula Regina Russo, que trabalha no Pró-Criança, na Unidade Básica de Saúde do Jardim Santa Tereza e no Hospital Ipiranga e diz não ter atendido, por enquanto, casos confirmados de coronavírus em bebês e crianças em Mogi.

“Temos crianças que nos procuram com febre e tosse, que são suspeitas, mas nestes casos não são realizados testes rápido e nem o PCR e são tratados como síndrome respiratória e quadro gripal. Há alguns internados, mas por causa do vírus sincicial (VSR) e bronquiolite. Mas o atendimento, de modo geral, caiu bastante com as crianças em casa, sem ir às creches e escolas, e de certa forma, mais protegidas.

Paula Russo nota redução das doenças típicas do período. (Foto: Divulgação)

Além disso, as pessoas estão deixando de sair e, quando possível fazem o tratamento em casa. Na UBS, a puericultura até os 3 meses têm sido feito, mas a agenda das demais consultas foi cancelada para evitar aglomerações”, conta a pediatra, destacando que os casos de viroses também reduziram, já que o problema é mais comum no verão.

Segundo ela, embora as pesquisas apontem que nesta faixa etária, a maioria dos pacientes é assintomática e mais resistente ao novo coronavírus, a prevenção é sempre necessária, já que podem atuar como agentes transmissores da doença aos pais e avós. “O ideal é permanecer em casa, higienizar sempre as mãos com sabão ou álcool em gel e manter cerca distância, principalmente, das pessoas que precisam sair para trabalhar. Não é hora para abraços e beijos. Temos estudos em países da Europa apontando que a síndrome de Kawasaki (que causa inflamação nas paredes de vasos sanguíneos do corpo) pode estar associada à Covid-19 e que, ao entrar em contato com o novo coronavírus, a criança também pode desenvolver a Kawasaki, por ser uma vasculite, mas tudo é muito novo. São hipóteses”, conclui.

No entanto, a médica orienta que, até os seis meses de vida, a maior preocupação deve ser com o vírus sincicial (VSR), que causa chiado no peito e pode levar à síndrome respiratória e bronquiolite aguda, e o H1N1, que causa a gripe. “Claro que o coronavírus também exige atenção, mas como são assintomáticas, as crianças têm complicações diferentes dos adultos, que chegam a sofrer de insuficiência respiratória. Algumas vezes podem apresentar nariz escorrendo, tosse e sintomas de resfriado comum, mas o estado geral da criança não se compromete na maioria dos casos. Estudos apontam que isso têm ligação com a parte imunológica da criança e ao fato de ela não ter entrado ainda em contato com nenhum vírus. Há duas semanas, tivemos ainda comentários de que o coronavírus pode ser transmitido pelo leite materno, mas isso também ainda está em estudos. Não há diagnósticos concretos”, conta.

Embora prevista para julho, a volta às aulas presenciais também vai exigir cuidados. De acordo com a pediatra, as aglomerações devem ser evitadas, os intervalos precisam ocorrer em horários diferentes para cada grupo de alunos e, na sala de aula, o ideal é manter espaço entre as carteiras, além da obrigatoriedade do uso de máscaras e proteção das mãos sempre com álcool em gel. “Vale lembrar que as máscaras só são indicadas para crianças acima de 2 anos, por isso, a situação nos berçários é mais complicada”, alerta.

Enquanto as atividades presenciais não são retomadas, em casa os cuidados devem ser redobrados. Os produtos vindos do supermercado, como frutas, verduras e legumes, por exemplo, precisam passar por rigorosa higienização. Ainda segundo a pediatra, outra medida de proteção é direcionada àqueles que precisam sair para trabalhar ou fazer as compras essenciais. “O ideal é tirar sapatos e roupas fora da casa, mas como isso não é possível para quem mora em apartamento, é recomendado colocar um pano umedecido com água sanitária ou Lysoform na entrada e espirrar
álcool 70 na roupa, que deve ser tirada na lavanderia para evitar contaminar quem está em casa”, reforça. 


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