ENTREVISTA

Valéria Rocha Macedo: ‘Ninguém é o mesmo depois do câncer’

Valéria Rocha Macedo. (Foto: Elton Ishikawa)
Valéria Rocha Macedo. (Foto: Elton Ishikawa)

Há 18 anos trabalhando com pacientes oncológicos, a mogiana Valéria Rocha Macedo aprendeu a ouvir a dor e entender o que as pessoas sentem. Ela é responsável pelo atendimento ambulatorial de psicologia do Centro Oncológico Mogi das Cruzes e diz que é preciso entender que hoje os tratamentos são modernos e oferecem menos riscos do que antigamente. Além disso, comenta a importância do apoio da família nestes casos que, segundo ela, provocam uma mudança de vida completa.

Qual é o seu trabalho com os pacientes oncológicos?

Hoje eu faço o ambulatório de psicologia, ou seja, o atendimento voltado a pacientes portadores de câncer. Eu escuto a dor, o que as pessoas sentem frente a um diagnóstico de câncer. Já ouvi milhares de coisas, mas a pergunta que mais escuto é “será que vou morrer?”. Essa questão da morte é um fenômeno existencial para a psicologia, porque nós, latinos, não somos criados para morrer, diferente dos africanos ou dos japoneses. Então meu trabalho é ajudar o paciente no enfrentamento do diagnóstico.

O medo da morte é muito profundo. O que ele quer dizer?

Sempre por trás dessa pergunta tem uma história de vida carregada de sofrimento. Pessoas com histórias de mágoas, separações mal resolvidas, pessoas que vão vivendo em função do trabalho, do outro, e o diagnóstico do câncer vem para mostrar para a pessoa que ela está viva, que existe, e que precisa ser ela.

Ou seja, seu papel é inverter o pensamento, mostrando a importância de estar vivo?

A psicologia vai trabalhando isso. Morrer todos vamos, inclusive eu. Mas é um olhar que traz para a vida. E não precisava ser assim. Ninguém precisa descobrir que está vivo a partir de um diagnóstico de câncer, mas se foi esse o caminho, vamos lá, enfrentar esta que é uma dor individual.

Que outras questões os pacientes trazem?

Hoje alguns quimioterápicos não provocam a queda do cabelo, mas o tratamento de quimioterapia para o câncer de mama, que atinge muitas mulheres, ainda faz isso acontecer, o que provoca uma transição e mexe com a autoestima. Nesses casos, dou dicas de que este momento é temporário. Se alguém não se reconhece sem cabelo, deve procurar colocar peruca, lenço ou batom que combine com a roupa. Em outras palavras, é preciso fazer um reconhecimento interno, porque o externo está muito fragmentado.

Qual a importância do tratamento psicológico nestas situações?

O trabalho do psicólogo tem sido primeiro no enfrentamento deste diagnóstico, entendendo essa questão de ser algo temporário, porque parece que nunca vai terminar, mas termina. E o paciente às vezes pergunta “porque comigo?”. Eu pergunto então se a pessoa encontrou a resposta, e quando me dizem não, falo que é porque não há resposta. Trabalhamos no aspecto da mudança, na construção de uma nova vida. Porque ninguém é o mesmo depois do câncer.

Você diria que a psicologia é tão importante quanto outras etapas do atendimento?

Sim. Ela é tão importante quanto, e hoje a equipe médica com a qual trabalho é muito voltada para questões psicológicas. Além de fazer o atendimento mais ambulatorial a gente também faz acompanhamento no momento da quimioterapia, onde surgem crises de ansiedade, e até mesmo na sala de espera, onde muitos choram, até mesmo a família, que muitas vezes está mais abalada que o paciente.

Nestes momentos, surgem outras questões que vão além do câncer?

O diagnóstico, muitas vezes, provoca um sentimento de urgência, e os pacientes trazem repertório de mágoas, assuntos que não se resolveram. Por isso trabalho hoje na linha da psicologia fenomenológica existencial, ou seja, fenômenos da vida, como separação, morte, liberdade. Há aqueles que se separaram há 25 anos, mas contam como se tivesse sido ontem. Existe também muito stress, devido ao trabalho, já que as pessoas não descansam, não têm limite. E além disso falamos da própria mudança de vida. Passa a quimioterapia e a pessoa não morreu. Passa a cirurgia, não morreu. Passa um ano, não morreu. Mas ela não quer ser, pensar ou agir como era antes.

A resistência ao tratamento oncológico é uma das questões que surgem?

Essa é uma demanda também. O paciente precisa entender que a medicina avançou muito, e que existem muitas possibilidades de tratamento. Os efeitos colaterais de um quimioterápico diminuíram muito. É preciso entender que estamos em 2020, mas ainda tem gente que não quer fazer quimioterapia porque acha vai vomitar, ou porque o cabelo cai todo na hora, o que não necessariamente é verdade.

Qual seu papel neste entendimento?

Primeiro, ouvir qual é a fantasia do paciente, porque ele tem uma, e o médico não vai ouvir. E depois ver se essa fantasia esbarra em alguma questão emocional dele, trazendo a possibilidade da tomada de consciência. Quanto mais orientações e informações, melhor.

As pessoas ainda escondem o câncer dos familiares?

São poucos os casos hoje em dia, mas ainda acontece. Normalmente filhos que escondem de pais, principalmente dos mais idosos. Nessas situações eu chamo a família, para tentar entender porque não querem contar, e mostro porque isso é importante.

E existem casos em que a família abandona o paciente?

Não. Quando o diagnóstico é de câncer as pessoas se comovem muito, e oferecem muito apoio. Não vejo nenhum paciente sozinho.

Quais são os principais tipos de câncer com os quais você lida?

Na mulher, a maior incidência é a de câncer de mama, mas também tem muito o câncer de colo de útero, em moças mais jovens. Já nos homens, o principal é o de próstata, além de intestino, desencadeado pelo uso excessivo de álcool.

É possível traçar um perfil dessas pessoas?

Há anos, atendíamos pessoas de meia idade, a partir dos 55 anos. Mas hoje muitos jovens estão adoecendo, e tenho demanda de pacientes na faixa de 30 anos, tanto homens como mulheres. As questões são diferentes nesses casos. Nos homens com câncer de próstata, por exemplo, surge a questão sexual; nas mulheres mais novas, com câncer de mama, o foco é melhorar, e a preocupação é a autoestima. E as pessoas mais velhas costumam querem ficar bem para viver um pouco mais.

No consultório, já ouviu muitas histórias?

Sim, são tantas. Existem as histórias tristes, como quando uma mãe perde um filho para o câncer. Essa dor é tão grande que não tem nem nomenclatura. Tem também muitas histórias de mulheres vivendo relações abusivas e casamentos com traições, e há aqueles que vivem achando que está tudo bem, mas que descobriram o câncer e precisam recomeçar, ou ainda os mais idosos, que vão perdendo a voz e até mesmo entrando em depressão.

Ainda há preconceito com os pacientes oncológicos?

Hoje não mais. Outro dia estava na feira noturna e vi muitas pessoas carecas, mulheres de lenço, homens sem cílios e sobrancelhas. Estamos cada vez mais em contato com o fato de que adoecemos, o que é muito bom, já que a estatística para 2020 é de que haja pelo menos um caso por família ou grupo de amigos. Ou seja, todos convivemos com pessoas com câncer.


Deixe seu comentário