EDITORIAL

Valeu, Galpão

Em memória do mogiano Arthur Netto, espaço cumpre missão especialíssima na cena cultural

Símbolo de luta, resistência e arte, o Galpão Arthur Netto vai fechar nas próximas semanas. Desde a certidão de nascimento, o espaço manteve-se fiel a esse perfil. Foi criado após a morte do ator e publicitário mogiano ocorrido em 2006 que deu nome a uma obra cultural inspirada em outros modelos de atuação artística surgidos após a virada do milênio em outras cidades brasileiras e do mundo.

De maneira colaborativa, artistas empreendedores construíram um tablado próprio para o desenvolvimento de projetos multifacetados que abraçaram do circo, teatro e música à literatura, fotografia e cinema, num exercício político criado pela classe artística mogiana após o covarde ataque a Arthur Netto que saia de uma casa noturna e foi cruelmente espancado por dois homens, posteriormente condenados pelo crime.

Arthur Netto sobreviveu bravamente à gravidade dos ferimentos durante 40 dias. Em sua memória, o Galpão funcionou durante 13 anos. Descobriu e aprimorou talentos e coletivos em de todos os pesos.

Destaque, no entanto, será a organização de mostras e encontros. O mais significativo deles, o Festival Internacional de Teatro Knots.Nudos em 2017, responsável pela presença de artistas e grupos de 17 países em Mogi das Cruzes.

Houve nesse evento um feito surpreendente. Mesmo sem a âncora de subsídios públicos, os organizadores e colaboradores [a partir da Companhia do Escândalo e o Impulso] coordenaram um financiamento coletivo para recepcionar os participantes. Conseguiram de maneira pioneira incluir a cidade na rota internacional da cultura contemporânea.

O Galpão Arthur Netto cumpre missão especialíssima na cena mogiana.

Uma outra porta de fomento cultural e artístico se fechou neste ano. Nos mesmos moldes do Galpão Arthur Netto, o Casarão da Mariquinha também foi desativado. O primeiro funcionou durante 13 anos. O segundo, 4 anos.

Ambos terminaram ciclos decivisos ao abrirem espaço para a arte e a formação do público. Um público cativo, diga-se de passagem.

Evidentemente, cabe a avaliação sobre o que poderia ter mudado um desfecho que outros espaços flertam todos os dias. No mais das vezes desenlaçados do cobertor público, esses projetos caducam por falhas na gestão financeira e administrativa. Há outros motivos, mas esses são determinantes para o fim ou não deles.

Algo que deve ser sanado (e aprendido) para o bem de todos, a começar pelo poder público. A independência de grupos e artistas e a existência de endereços plurais e coletivos, mas privados, são um fator positivo para a desoneração do próprio estado e prefeituras.

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