ARTIGO

Vamos tomar umas?

Perseu Gentil Negrão

Na semana passada, minha filha esteve em casa, para entregar algumas encomendas. Como ela está trabalhando e, portanto, se expondo, tem nos ajudado com alguns itens de supermercado, que não conseguimos comprar por “delivery”. O triste foi atendê-la de máscara, sem poder dar-lhe um abraço (que saudade!). Nossa cadelinha (Bisteca) também tem sofrido, pois a minha “menina”, antes de tocá-la, encharca as mãos com álcool. A Bisteca odeia cheiro de álcool.

Apesar da alegria de ver a filha querida, meu dia “azedou”, pela falta de contato.

Por causa da tristeza, não consegui fazer minha “siesta” habitual. Por sorte, chegaram alguns processos digitais que ajudaram a espantar o desânimo. Quem diria que eu iria agradecer por receber processos?

No início da noite, meu amigo Celso enviou-me uma mensagem de ‘WhatsApp”. Para brincar, respondi-lhe: “E aí vamos tomar umas?” (era o código que usávamos para sairmos com as esposas). Em seguida, o amigo telefonou e observou: “como era bom combinarmos de sair com uma simples digitação no celular”. Finalizamos a prosa com a pergunta: quando a normalidade voltará?

Há dias estou com isso na cabeça. Até quando esse maldito “vírus chinês” vai ficar? Até quando serei privado de abraçar minhas filhas? Até quando não poderei ir à padaria tomar um café e bater um papo? Até quando não poderei ir ao Ministério Público? Até quando não poderei viajar? Até quando não poderei ir pescar? Quando terei minha vida de volta?

Sempre fui muito afoito, apressado, impaciente. Muitas vezes deixei um amigo “falando sozinho”; não dei a devida atenção às minhas filhas e esposa; fiquei pouco com meus pais e irmãos.

Quando a pandemia passar. Quero “amar mais. Chorar mais. Ver o sol nascer. Arriscar e errar mais. Complicar menos. Trabalhar menos. Ver o Sol se pôr” (parafraseando Sérgio Britto, em “Epitáfio”).

Nessa linha, o poema de Nadine Stair (que alguns atribuem a José Luiz Borges): “Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido… viajaria mais, contemplaria mais entardeceres… Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente”.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo


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