DESPEDIDA

Veja a trajetória de Manoel Bezerra de Melo, padre que fez história no ensino

O chanceler Manoel Bezerra de Melo faleceu aos 94 anos, em Fortaleza, onde será enterrado. (Foto: arquivo)
O chanceler da Universidade de Mogi das Cruzes, Manoel Bezerra de Melo, faleceu aos 94 anos, em Fortaleza, onde será enterrado. (Foto: arquivo)

“Peguei duas malas, uma de roupas e outra de livros, e vim para Mogi”. Foi assim, de surpresa, que no dia 1º de março de 1962, chegava a Mogi das Cruzes, o desconhecido Padre Lima, um cearense enviado pelo cardeal dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, de São Paulo para a cidade, com a missão de ser o auxiliar do cônego Roque Pinto de Barros, à época enfrentando problemas com a saúde.

O Padre Lima, que estava a caminho de Santo André quando foi designado para Mogi, era Manoel Bezerra de Melo, o qual, tempos depois passaria a ser conhecido como Padre Melo, e seria o responsável por uma verdadeira revolução no setor educacional da cidade que ele conhecera quase por acaso e onde faria uma longa carreira política, primeiro como deputado federal e, por fim, como prefeito municipal, tornando-se conhecido por seu espírito de arrojado empreendedor.

Após participar ativamente da vida de Mogi das Cruzes durante algumas décadas, principalmente como reitor e depois chanceler da UMC, Bezerra de Melo, de 94 anos, faleceu nesta terça-feira (9), às 11h10, no Hospital Monte Clínico, em Fortaleza (CE), vítima de insuficiência cardíaca, agravada por problemas pulmonares. Há tempos, ele havia se submetido a duas cirurgias cardiovasculares e era portador de bronquite asmática, complicada pelo vício do cigarro.

Ao tomar conhecimento do agravamento da saúde de seu pai, a reitora da UMC, Regina Coeli Bezerra de Melo, viajou, ontem cedo, para o Ceará, num vôo fretado. O sepultamento de Padre Melo será às 10 horas desta quarta-feira (10), no Cemitério da Paz, em Fortaleza.

Segundo consta, Melo não chegou sequer a ser internado em uma Unidade de Terapia Intensiva do Monte Clínico, um dos melhores hospitais de Fortaleza, já que seu estado não indicava tamanha gravidade. Ontem pela manhã, no entanto, os problemas no coração se agravaram rapidamente, a ponto de levá-lo à morte.

Padre Melo viveu as últimas décadas de sua vida em seu apartamento, localizado no bairro de Aldeota, em Fortaleza, onde recebia a atenção de cuidadores e enfermeiros, que se revezavam a seu lado durante 24 horas diárias. Muito lúcido, ele fazia constantes contatos com a filha, na UMC, e também com amigos de sua confiança, como o médico e diretor da Policlínica, Melquíades Machado Portela.

A decisão de ir viver no Ceará, sua terra natal, tinha um motivo especial: as altas temperaturas registradas naquele Estado. O frio de Mogi das Cruzes era um grave complicador para sua saúde e, por isso, suas visitas à cidade, que aconteciam especialmente durante o período mais acentuado do verão, foram se tornando cada vez mais raras, nos últimos anos, em razão da idade e das dificuldades para caminhar.

Um luto oficial de três dias foi decretado nesta terça-feira (9) pelo prefeito Marcus Melo, e a bandeira de Mogi das Cruzes está hasteada a meio mastro, em homenagem ao ex-prefeito.

Religião

Nascido em Crateús, no Ceará, em 5 de janeiro de 1926, o filho de Manoel Bezerra de Lima e de Luzia de Pinho Melo, o menino Manoel, por influência dos pais católicos, decidiu seguir a carreira religiosa a partir do Seminário Menor de Sobral, que antecedeu sua ida para a Escola Apostólica dos Jesuítas, em Baturité. Do Ceará, continuou os estudos no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, tornando-se bacharel em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande, ordenando-se padre jesuíta em 1958.

O chamado Padre Lima, denominação que fazia referência a seu pai, ainda se aventurou por mais dois anos, em Buenos Aires, na Argentina, onde concluiu sua formação em Teologia.

Na condição de padre jesuíta, o religioso lecionava no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, quando seu espírito irriquieto o levou a deixar a Ordem dos Jesuítas para se tornar padre secular e vir trabalhar em Santo André, no ABC paulista.

Era final do mês de fevereiro, quando ele, a caminho de Santo André, decidiu passar por São Paulo para se encontrar com o cardeal, dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, mesmo sem audiência marcada. Os dois haviam se conhecido, anos antes, numa solenidade em outro estado e ele aguardou uma vaga na agenda para ser recebido. Quando entrou na sala, foi surpreendido pelo cardeal, que o recebeu de braços abertos:

“Padre, você caiu do céu!” – disse-lhe Vasconcelos Motta.

E os planos do Padre Lima foram totalmente alterados. Em vez de seguir viagem para o ABC, ele acabou pegando o trem e vindo parar em Mogi, com as duas malas de livros e roupas. O cônego Roque Pinto de Barros havia adoecido e o cardeal decidiu enviar o novato para auxiliá-lo nas funções. Antes, porém, Melo recebeu uma tarefa política. Passou uma semana no campus da PUC-SP, hospedado como aluno, para produzir um relatório sobre o ambiente político da época entre professores e alunos.

A Igreja da época estava preocupada com militância esquerdista dentro da Universidade e, ao final da missão como “espião”, Melo apresentou, oralmente, suas avaliações pessoais, que acabaram por confirmar as preocupações do cardeal.

TRAJETÓRIA Chanceler da UMC, Manoel Bezerra de Melo, chegou a Mogi como Padre Lima, e atuou na paróquia da Mineração. (Foto: divulgação)

Ele tinha, à época, 36 anos, quando chegou em Mogi como padre auxiliar da Catedral. Foi morar nos fundos do templo e fazia suas refeições na casa de dona Alice Franco. Além das missas diárias, era também o responsável por levar o dízimo recolhido semanalmente na igreja para a Cúria Diocesana.

Os sermões do jovem padre, entretanto, eram liberais e modernos demais para o gosto dos conservadores católicos que frequentavam a Catedral.

E foi então que, em 3 de fevereiro de 1963, já conhecido como Padre Melo, ele foi encarregado de assumir a Paróquia da Mineração. Naquela época, um outro fato marcaria definitivamente a vida de Melo. Com a criação da Diocese de Mogi – curiosamente, num dia 9 de junho, que viria a ser o mesmo de sua morte – , dom Paulo Rolim Loureiro foi sagrado seu primeiro bispo e ele convidou Melo para ser seu secretário.

Àquela altura, o religioso já havia criado na cidade um curso de Admissão ao Ginásio, em 1962, e, logo em seguida, uma escola primária e um ginásio.

Com a ajuda de mogianos e do novo bispo, Melo levou adiante os planos de implantar em Mogi a primeira Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que seria o embrião da futura universidade.

Não demorou muito para que o espírito irrequieto do religioso o levasse em direção à política. Em 1966 conseguiria se eleger, pela primeira vez deputado federal e, no plenário da Câmara, manteve o mesmo tom de sermões que incomodaram os tradicionalistas mogianos. De batina, defendeu a instituição do divórcio na tribuna do Legislativo, em Brasília.

Pensando dessa maneira, não demorou muito para que ele, no começo dos anos 1970, decidisse deixar a batina, por acreditar que os padres deveriam “ter mais abertura para o mundo secular”. Licenciado pelo Vaticano, ele deixou formalmente as funções de padre.

E enquanto se valia do cargo de deputado já reeleito pela Arena, partido da ditadura militar da época, para impulsionar a criação de novos cursos na UMC, Melo iniciou um romance com a piauiense Maria Coeli, com quem se casaria em 2 de outubro de 1971, na Igreja da Lagoa, no Rio de Janeiro. Ele tinha, à época, 45 anos. O casal foi morar no Sítio Refúgio, em Guararema. Em 23 de agosto de 1972, nasceu Regina Coeli Bezerra de Melo, a única filha.

A universidade

Única instituição de ensino numa região de poucas faculdades, a UMC cresceu de forma avassaladora, numa época em que seus vestibulares atraíam verdadeiras multidões de estudantes para Mogi das Cruzes.

Melo administrou com mão de ferro a UMC, chegando a criar o Hospital Luzia de Pinho Melo, mais tarde assumido pelo Governo do Estado, até que após uma série de tentativas frustradas de profissionalização de sua administração, acabou transferindo para a filha, Regina, o cargo de reitora.

Quando isso aconteceu, Melo já havia cumprido três mandatos de deputado federal por Mogi e outro, como constituinte, pelo Ceará. Foi então, que articulou sua candidatura como vice-prefeito mogiano, nas eleições municipais de 1992, ao lado do candidato a prefeito, Francisco Ribeiro Nogueira.

A “dobradinha da esperança” venceu as eleições e, perto de dois anos depois da posse, Melo se tornaria prefeito de Mogi, após Chico Nogueira falecer, vítima de um ataque cardíaco, no interior de um avião que o levaria para Brasília. Na cidade, Melo colocou seu espírito empreendedor a toda prova, dando início a duas obras importantes, a atual Passagem Subterrânea Osvaldo Crespo de Abreu (concluída na administração seguinte, de Waldemar Costa Filho) e o Ginásio de Municipal de Esportes Hugo Ramos.

Terminado o mandato, Melo passou a ficar cada vez mais tempo no Ceará, algo que se tornou praticamente permanente após o falecimento da esposa, Maria Coeli, em maio de 2014.

Com a morte de Padre Melo, encerra-se também um ciclo de políticos que marcaram época na cidade e do qual, ele era o único remanescente. Junto com Melo, fizeram parte dessa época Waldemar Costa Filho, Jacob Cardoso Lopes, Maurício Najar, Rubens Nogueira Magalhães, entre outros. Todos já falecidos.

A CARREIRA POLÍTICA

1966 – Eleito deputado federal pela Arena paulista, com 15.192 votos.

1970 – Reeleito deputado federal pela Arena paulista, com 41.959 votos.

1974 – Não se reelegeu, mesmo tendo obtido 35.598 votos. Ficou como 3º suplente da Arena

1978 – Elegeu-se novamente deputado federal pel Arena paulsita, com 91.078 votos

1985 – Elegeu-se deputado federal constituinte pelo Ceará, pelo PMDB, com 58 mil votos

1992 – Disputou a eleição municipal em Mogi como vice de Chico Nogueira, sendo eleito

Fala o amigo

“Manoel Bezerra de Melo, o Padre Melo, cumpriu sua bela e admirável missão aqui na Terra. Um ser humano extraordinário, dotado de excelsas virtudes cristãs e cidadãs. Um ícone. Um visionário. Um estadista.

Como sacerdote, teve uma atuação apostólica ímpar. Com educador, inigualável. E como político, um exemplo a ser seguido.

Deus me deu o privilégio e a honra de com ele conviver por mais de meio século, desde a nossa querida Crateús. Fui seu médico e amigo ao longo desse tempo todo. Em confiança à minha pessoa, me designou para atuar na UMC como decano, como diretor da Faculdade de Medicina e como professor. Por ele e por Waldemar Costa Filho, fui indicado para ser vice-prefeito de Mogi.

Mogi das Cruzes registrará nos anais de sua história um “antes” e “depois” de Padre Melo em terras mogianas.

Tenho certeza de que Deus recebeu de braços abertos o meu amado, querido e inesquecível Padre Melo. Saudades eternas.”

Melquíades Machado Portela, conterrâneo, amigo e médico particular de Melo é o atual coordenador a Policlínica da UMC em Mogi

Lideranças destacam projeção na saúde

“Homem inteligentíssimo, devotado ao bem-estar coletivo e de atuação acertada no poder público, ele deixa um legado de trabalho nas diferentes áreas do conhecimento humano, que enriquece Mogi das Cruzes e todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele. A educação, em especial, teve atenção especial do Padre Melo que emprestou seu talento e dedicação para tantos avanços em prol dos mogianos e também dos estudantes da renomada Universidade de Mogi das Cruzes.
Registro meu sentimento de eterna gratidão pelo tanto que fez pela Cidade! Aos familiares e amigos, apresento as condolências”.

Marcos Melo, prefeito de Mogi das Cruzes

Aos 94 anos, Padre Melo nos deixou, após uma vida dedicada ao sacerdócio e a educação, passando pela vida pública. Como reitor da UMC, deputado federal por vários mandatos, vice-prefeito e prefeito de Mogi das Cruzes, Padre Melo nos deixa um grande legado de coragem, determinação e muito trabalho. Eu, especialmente, tenho uma gratidão imensa pelo Padre Melo, pois foi ele que, como prefeito de Mogi das Cruzes, me convidou para exercer o cargo de secretário Municipal de Indústria e Comércio, a minha primeira função na vida pública. Meus sinceros e mais profundos sentimentos a sua filha Regina e aos netos Fernando, Raphael, Matheus e Manoela”.

Marco Bertaiolli, deputado federal (PSD-SP)

Mogi das Cruzes tem uma fase pré e pós-universidades. Com o Padre melo, a Universidade de Mogi das Cruzes responde pelo progresso da cidade nas áreas do ensino e saúde. Além da construção e manutenção da UMC, Padre Melo foi o responsável pela conquista do Hospital das Clínica Luzia de Pinho Melo. Ele construiu o esqueleto do hospital universitário e, depois, com a intervençaõ do Chico (ex-prefeito Francisco Nogueira), concordou com a desapropriação proposta pelo ex-governador Orestes Quércia. Teve papel importante, durante décadas, no corpo diretivo da Santa Casa de Misericórdia. Como prefeito, ao suceder o meu irmão, entregou obras como a passagem subterrânea, apelidada como “Buraco do Padre”. Foi um homem que fez muito pela cidade, na educação, saúde e política.

Olavo Ribeiro Rodrigues, médico, professor e funcionário da UMC desde 1977

“Nós, do Hospital e Maternidade Mogi-Mater, lamentamos muito o falecimento do fundador e chanceler da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Manoel Bezerra de Melo, pessoa que tínhamos em alta estima. Quando iniciamos nossa jornada em Mogi, o Padre Melo nos ajudou demais e nos fez sentir como se a cidade estivesse de braços abertos para nós”.

Said Majzoub, diretor-presidente e Dr. Abdul Kader El Hayek, diretor vice-presidente do Hospital e Maternidade Mogi-Mater

“A Associação Paulista de Medicina – Regional Mogi das Cruzes estima votos de profundo pesar pelo falecimento do chanceler Manoel Bezerra de Melo. Ele foi uma pessoa importantíssima para Mogi das Cruzes, tanto na política, como na educação, tendo implantado a Faculdade de Medicina na UMC e a Policlínica”.

Alex Sander José Miguel, presidente da APM Mogi.


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