ECONOMIA

Venda de ovo de chocolate durante a pandemia exige inovação

Lela ficou sem a clientela fixa e decidiu apostar no sistema delivery com a ajuda da filha
Lela ficou sem a clientela fixa e decidiu apostar no sistema delivery com a ajuda da filha. (Foto: Arquivo)

A quarentena para evitar maior disseminação do novo coronavírus, causador da Covid-19, mudou a rotina de todos. E com os comerciantes de ovos e produtos de chocolate para venda na Páscoa não é diferente. A uma semana da data festiva, muitos deles precisaram inovar e criar novas formas de vendas, apostando principalmente no delivery ou retirada das encomendas com hora marcada – que caíram cerca de 80% para a maioria -, para conseguir sobreviver a esta crise mundial.

Valéria Prudente Nahum, a Lela, 45 anos, que há uma década se dedica aos ovos de Páscoa, produz geralmente cerca de 100 quilos de chocolate, mas neste 2020, até o momento, chegou a 30 quilos. “Houve grande queda no movimento, principalmente porque os pedidos maiores eram para as escolas, que encomendavam 800 ovos para entregar aos alunos nesta época, mas como as aulas estão suspensas, elas cancelaram”, conta.

Para aumentar as encomendas de clientes particulares, Lela, com a ajuda da filha mais nova, Maria Luísa, reforçou 80% a divulgação na internet e o resultado foi positivo. “Já tinha minhas clientes de todos os anos, mas agora as encomendas ampliaram e em vez das pessoas virem buscar os chocolates na minha casa, contratei uma amiga como motogirl para fazer as entregas”, conta, acrescentando que já trabalhava com luvas, máscaras e touca em ambiente devidamente higienizado, mas por causa da preocupação com o coronavírus reforçou os cuidados passando pano com água sanitária várias vezes pela casa toda.

Segundo ela, a quarentena favoreceu o hábito de compras no sistema delivery. “Muita gente não quer sair de casa nem para ir ao mercado, então, prefere fazer encomendas. Estou atendendo até o pessoal de São Miguel Paulista e da Capital. E há netos que encomendam chocolate e pedem para entregar aos avós e filhos que presenteiam os pais que estão no isolamento, em casa, para se prevenir do coronavírus. É um agrado para que não se sintam tão distantes e sozinhos”, conta Lela.

A mogiana Ana Lúcia Almeida, 49, também apostou no sistema delivery para compensar o fechamento de suas lojas de redes de franquias de chocolate na cidade durante a quarentena. Ela faz as encomendas com oito meses de antecedência. “Com o comércio fechado, tivemos que tomar atitudes rápidas, porque apenas a franqueadora tinha o delivery e as lojas trabalhavam só nos pontos de vendas. Mas com o Shopping fechado, esta foi a alternativa, a franqueadora nos apoiou e permitiu que entrássemos no IFood e Rappi. Porém, como tudo aconteceu três semanas antes da Páscoa, ainda não conseguimos nos cadastrar nestas plataformas, que estão com grande demanda, mas a previsão é conseguir isso no início desta semana”, explica.

Ana conta que improvisou uma central de atendimento no local ocupado pelo estoque, onde três funcionários por dia fazem o atendimento via telefone e WhatsApp e separam os produtos, que são entregues por motoboy ou carro equipado com ar condicionado. “Quando fizemos as encomendas, não imaginávamos um vírus que virasse o mundo de cabeça para baixo. Estimávamos crescimento de 10% em relação às vendas da Páscoa do ano passado, acreditando que a economia estava ganhando força com as mudanças econômicas, mas isso não acontecerá porque o delivery é um canal novo, que veio para ficar, mas deixamos de atender um percentual alto de clientes. Agora, as vendas devem ficar 50% abaixo do que em 2019 e teremos muita sobra de produtos porque as pessoas estão preocupadas em gastar. As lojas de chocolate serão as mais prejudicadas neste período, já que a quarentena coincidiu com a Páscoa, época em que o estoque e o faturamento são maiores, muito mais do que no Natal. Se conseguirmos vender 75% do estoque já estará ótimo”, destaca.

A crise mundial também levou uma das franquias, que não trabalha com descontos, a permitir 30% de abatimento nos valores dos chocolates e oferecer bônus de 50% nas vendas superiores a R$ 250,00 para uso entre 13 de abril e 12 de maio. Na outra, quem compra três ovos paga por dois.

Cecília aponta 80% de queda nas vendas 

Como atende encomendas de empresas, inclusive da região do Vale do Paraíba, Cecília Cristina de Oliveira Santana, 55 anos, moradora de Braz Cubas, chega a produzir até mil quilos de chocolate por ano, mas até agora, não passou dos 20 quilos nesta Páscoa. “Em tempos normais, este volume corresponde a apenas um dia de trabalho. Tudo parou por causa do coronavírus e os eventos foram todos cancelados. Então, as vendas caíram cerca de 80% neste ano. Além disso, costumo participar de eventos, como várias feiras e exposições, que também não estão ocorrendo para evitar aglomeração de pessoas e prevenir a doença”, revela.

Cecília Cristina, que produz anualmente
mil quilos de chocolate, por enquanto totaliza 20 quilos. (foto: Divulgação)

Ela também reforçou a divulgação na internet e com isso tem garantido encomendas das clientes da cidade. “Graças a Deus que fui reduzindo a compra de materiais quando vi que a situação estava ficando complicada. Agora, só compro o necessário para atender as pessoas que encomendam e vêm buscar em casa com dia e hora marcados. Mas como trabalho com chocolates o ano todo, fazendo trufas, barras, bombos e doces finos para festas, que também estão sendo canceladas, ainda tenho bastante material”, diz.

Por causa do movimento reduzido, ela precisou dispensar, temporariamente, o trabalho das duas auxiliares. “Está difícil para todo mundo e a clientela também tem medo de gastar porque ninguém sabe como a situação vai ficar”, avalia Cecília.

Ela estava acostumada a vender cerca de 60 quilos de produtos de chocolate semanalmente em uma feira realizada no setor de oncologia de um hospital de Jacareí, com parte da renda destinada à unidade de saúde. “Até eles deixaram de ganhar este recurso neste momento, porque a feira que atende principalmente aos familiares dos pacientes, está suspensa. Mas se é para o bem da população, o governo já deveria ter feito esta paralisação antes, porque muita gente que trabalha com chocolate investe desde janeiro em materiais e embalagens. Agora, a maioria está com tudo isso parado em casa, sem saber se vai vender para compensar o investimento”, lamenta.

Saída foi criar produtos com novos formatos

Produzir chocolates no formato de ovos fritos e de controles de videogames, além de personagens como unicórnios, galinha pintadinha, entre outros, foi a opção encontrada por Liviane Jane Marcelino dos Santos, 32 anos, para alavancar as vendas da Páscoa neste ano diante das dificuldades enfrentadas pelos empreendedores devido à pandemia da Covid-19, que coincidiu com o período da data festiva.

Expectativa de Liviane Jane é ampliar vendas nesta semana com itens atrativos para todas as idades. (Foto:Divulgação)

Moradora de César de Souza, ela também faz ovos de chocolate em diversos outros formatos, incluindo os trufados, que sempre tiveram boa procura, mas conta que estes em formatos diferenciados e em menores tamanhos, que consequentemente têm preços mais em conta, vêm ganhando a preferência dos clientes, principalmente nesta época em que as pessoas estão preocupadas em reduzir gastos por causa do cenário de incerteza financeira gerada pela crise mundial.

“Houve uma redução do movimento de forma geral. Além dos chocolates para esta época da Páscoa, durante o ano costumo trabalhar com encomendas de doces e bolos decorados com pasta americana para festas, mas elas também estão sendo todas canceladas por causa do coronavírus. Este mercado de eventos ficou parado mesmo”, diz.

Liviane vendeu 100 ovos de chocolate, incluindo os produtos em formatos menores, até o momento, mas intensificou as postagens nas redes sociais, principalmente nos grupos de vendas no WhatsApp e Instagram para alavancar as encomendas. “Espero que as vendas aumentem nesta semana, que são os últimos dias antes da Páscoa, principalmente porque apesar do momento que vivemos, sabemos que os brasileiros costumam deixar tudo mesmo para a última hora. Por isso, tenho feito produtos para ficarem disponíveis a pronta-entrega e quem faz contato, marco horário para retirada, assim não há contato com outras pessoas”, lembra ela, que trocou a cidade de Mineiros do Tietê, na região de Bauru, no Interior do Estado de São Paulo, por Mogi por causa do trabalho do marido e apostando no mercado da cidade para ampliar as vendas de seus produtos artesanais.


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