CHICO ORNELLAS

Visitando Maurício de Souza

Em novembro de 1989, nos jardins da Salles de Publicidade, os 20 anos de Jotalhão como garoto propaganda do extrato de tomate Elefante. (Foto: arquivo pessoal)
Em novembro de 1989, nos jardins da Salles de Publicidade, os 20 anos de Jotalhão como garoto propaganda do extrato de tomate Elefante. (Foto: arquivo pessoal)

Não somos amigos, desses que se frequentam e se tornam compadres. Mas, ao longo de mais de 50 anos, eu e Maurício de Sousa tivemos passagens comuns. Que ajudam a fortalecer a empatia.

Começou em meados da década de 1960 quando eu, aluno do curso Clássico (o antigo segundo grau voltado para Humanas), me tornei amigo de Horácio da Silveira, professor de História no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz. Horácio tinha uma relação consolidada com Maurício, o bastante para que o desenhista desse seu nome para o personagem mostrado como um dinossauro. E Horácio, como professor, era um frenético empreendedor. Não se contentava com a sala de aula, trazia gente como Ulpiano Bezerra de Menezes, Eurípedes Simões de Paula e Sérgio Buarque de Holanda para palestras na escola. E promovia festivais de música, convocando gente como o Maestro Gaó, o colunista Mutso Yoshizawa e eu próprio, para compor o júri. No qual Maurício de Sousa era personagem constante.

Ainda em 1969, ele topou ir ao programa Cidade X Cidade, de Sílvio Santos, no qual Mogi venceu Campinas.

Não me lembro de tê-lo encontrado ao longo dos anos ‘70. Mas, na década de 1980, víamo-nos muito no clube que frequentávamos com nossas famílias, o Paineiras do Morumbi. E tivemos, em 1989, um encontro memorável.

Por dois anos, entre 88 e 90, deixei as redações e fui-me aventurar em publicidade, dirigindo o Departamento de Comunicação Social da agência Salles, então uma das maiorias do País. A agência operava a partir de um prédio de arquitetura incrível, obra de Sérgio Pileggi, na Rua Borges Lagoa (Vila Mariana), da qual se separava com um gramado bem cuidado.

Esses dois anos de convivência com os irmãos Mauro e Luiz Salles foram incríveis, enriquecedores. Teve de tudo, incluindo o sequestro de Luiz, então presidente da agência e libertado, após 65 dias de cativeiro, mediante um resgate de US$ 2,5 milhões. Nos 65 dias eu fui o responsável pelos contatos da família com a imprensa. Período que merece um texto à parte.

Mas, voltemos a Maurício de Sousa: adorei trabalhar com Mauro Salles por seu estilo. Comigo ele jogava por desafios. Foi assim quando me disse: “Estamos comemorando 20 anos do Jotalhão com a Cica, veja lá o que pensa em fazer”.

Jotalhão era o elefante personagem de Maurício de Sousa, eleito garoto propaganda do extrato de tomate produzido pela Cica, indústria alimentícia da qual a Salles detinha a conta publicitária.

“Dê-me dois dias”, disse a Mauro Salles. Voltei no prazo, com uma sugestão:

Novembro de 2019, no MSP, a visita de Lucca e Pietro. (Foto: arquivo pessoal)

“Aniversário de elefante garoto propaganda não é notícia. Mas, acho que teremos algum resultado se, com a convocação para a entrevista com Maurício de Sousa, montarmos um pequeno circo no gramado. Enquanto corre a entrevista, a Turma da Mônica diverte filhos e sobrinhos dos repórteres, que também serão convidados para o evento”.

Lembro-me ainda hoje como Mauro arregalou os olhos, quase gargalhou. Quinze dias depois, em novembro de 1989, circo montado, até os passantes pela Rua Borges Lagoa aderiram ao happening, enquanto corria a entrevista.

Lembrei-me disso há alguns dias quando, em missão de avô em São Paulo, vi meus netos Lucca (8 anos) e Pietro (4 anos) divertindo-se com um álbum de figurinhas com os personagens de Maurício. Liguei de pronto para a Maurício de Sousa Produções e agendei uma visita aos estúdios da Lapa.

Foram duas horas de absoluto enternecimento, atenção, gentilezas. Também pelo fato de cruzar, ali, com um amigo, mogiano e muito querido, Wagner Silva. E ver Monica, a original, abraçar Lucca com um sorriso. Tudo valeu, sobretudo, pelas reações das crianças. Do que é prova a resposta de Lucca à pergunta que lhe fez a avó: “Do que você mais gostou”. Ele disse:

“De ter conhecido Maurício de Sousa”.

Serviço: Visitas ao estúdio de Maurício de Souza

podem ser agendadas no endereço:

https://www.visitamauriciodesousa.com.br/

Carta a um amigo

PADRE LANDELL – Sacerdote, cientista, exorcista e bom de briga. (Foto: arquivo pessoal)

Um exorcista em Mogi

Caro leitor

Não há que acreditar em bruxas, mas que elas existem, existem. Na minha infância, “homem do saco” era o apelido do capeta. Imagino que, por conta da formação católica, o nome do imperador do Inferno era proibido nas casas que frequentei e, a cada estripulia, vinha a reprimenda: “Se fizer isso de novo o homem do saco vem e leva você”. Da mesma forma, o respeito aos dogmas: o que a ciência não explica, a fé justifica. Por consequência, a religião antepunha-se à ciência.

Nada mais lógico, então, que Roberto Landell de Moura (1861-1928) enfrentasse tantos problemas quando chegou a Mogi das Cruzes em 1892. Ele era Padre Landell, o sacerdote-cientista, gaúcho de Porto Alegre e costumes exóticos. Era esquisito, estranho, mas não chegava a ser extravagante. Veio pároco da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, o templo setecentista da Praça João Pessoa que convivia em harmonia com uma clausura de congregação de freiras.

Há quem defenda, hoje, a primazia de Padre Landell no desenvolvimento dos primeiros transmissores e receptores de rádio. Antes de Marconi. E suas experiências iniciais foram feitas nos poucos meses que permaneceu por aqui; prosseguidas em Campinas (1893) e, enfim, concretizadas em São Paulo (1894). Cobriu, desde a Avenida Paulista até os Altos de Santana, a distância de oito quilômetros com a transmissão de voz. Isso era coisa de bruxo, diriam os fiéis mogianos que não chegaram, como os de Campinas, a invadir e depredar o laboratório do sacerdote-cientista.

Mas que ele era estranho, isso era. O jornalista Hamilton Almeida, por exemplo, publicou há tempos uma biografia de Padre Landell com várias passagens situadas em Mogi das Cruzes. Uma delas diz que, ao redor da Igreja do Rosário, havia um meretrício. Algumas tardes, sempre às quintas-feiras, Landell reunia as prostitutas para catequizá-las.

O autor encontrou também um ex-coroinha de Landell. Benedicto Olegário Berti, contou que, nas missas, o padre sempre “levava uma caixinha para o altar e a colocava próxima ao cálice. A um sinal vindo de dentro dela, ele parava a missa e começava a falar em italiano com aquele objeto estranho, que respondia bem baixo. Quando terminava, perguntava onde havia parado e recomeçava. Se ninguém sabia responder, ele iniciava a missa de novo. Por isso, poucos na Cidade gostavam de assistir suas missas”.

Nem pelas prostitutas tampouco pela estranha e inseparável caixinha Landell deixou Mogi. Também não causou sua remoção a briga que teve com dois rapazes, à frente da igreja; arrancou a batina e partiu para cima. Foi pela fuga de fiéis às suas pregações, principalmente depois que, por aqui, circulou a história de que o padre havia conduzido uma sessão de exorcismo para afugentar o capeta que atormentava a vida de uma criança.

Abraços do

Chico

FLAGRANTE DO SÉXCULO XX

EPOPÉIA – Foi um momento épico, a maior notícia positiva dentre todas que a cidade recebeu na década de 1960: no dia 10 de junho de 1966 foi inaugurada a usina da Aços Anhanguera, hoje Gerdau. Na foto, entre outros, o governador Laudo Natel; o prefeito de Mogi, Carlos Alberto Lopes; o prefeito de São Paulo, José Vicente Faria Lima e o bispo de Mogi, dom Paulo Rolim Loureiro.

GENTE DE MOGI

Gilvan Rudge. (Foto: arquivo pessoal)

AZOUGUE – Poucos mogianos viveram tão intensamente quanto nosso personagem de hoje. Adolescente, foi parte da juventude dourada da década de 1960; jovem adulto, incursionou pela política (vereador de 1973 a 1977); mais tarde teve experiência cinematográfica e, em seguida, foi viver nos Estados Unidos. Gilvan Rudge morreu em abril de 2005.

O melhor de Mogi

A estrada Salesópolis-Pitas. Num domingo pela manhã, siga até Salesópolis e continue por ela até o alto da serra na Rodovia dos Tamoios, que liga São José dos Campos e Caraguatatuba. Vale o passeio, desde que com alguns cuidados: abasteça antes e leve uma garrafa de água. Não há nenhum posto no trajeto. E não se atreva a percorrê-la à noite.

O pior de Mogi

E as mudanças de trânsito no entorno do bairro Nova Mogilar e campus do Centro Universitário Braz Cubas? Melhor não comentar…

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter lido a coletânea de crônicas à qual, editada, o mogiano Manoel Mello Freire deu o título “Crepúsculo”. Esta absoluta novidade para mim, que tinha Manecão Mello Freire apenas como poeta, foi-me contada por Marquinhos de Souza Leite

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