CHICO ORNELLAS

Vitrine de cachorro

PETRÓPOLIS, 1965 – Colegiais do Washington Luiz na excursão “Roteiro do Ouro”, organizada pelo professor Horácio da Silveira.
PETRÓPOLIS, 1965 – Colegiais do Washington Luiz na excursão “Roteiro do Ouro”, organizada pelo professor Horácio da Silveira.

A picanha vem embalada a vácuo, com o rótulo atestando que é “maturada”. O frango, congelado, nem sempre está inteiro e boa parte da criançada de hoje nunca viu galinha ciscar em terreiro. A linguiça, que hoje está disponível em qualquer balcão frigorífico de supermercado, tinha de ser cheia em casa, em tripa de boi que se encomendava por antecipação. E a gelatina com gosto de isopor é apenas um arremedo das boas geleias de mocotó que nossas avós coavam em guardanapos de linho, presos aos pés de uma cadeira virada ao contrário. Comida de cachorro não era ração, mas coração de boi que se comprava por trocados.

Nem melhores, nem piores. O tempo em que não havia supermercado – e isso tem cerca de 50 anos – era apenas diferente. Era o tempo em que manteiga era manteiga. Não margarina, que chegou custando muito menos e hoje custa bem mais.

Foi o tempo em que, pela primeira vez, chegou a Mogi uma “vitrine de cachorro”. Essas máquinas de lata, com duas portas de vidro que mostram frangos sendo assados. Naquela época em brasa, hoje em fogo de gás. Os frangos ficavam virando, virando. O freguês chegava, escolhia um e o empregado o tirava com cuidado, cortava e o embalava num saco de papel. Hoje é de plástico.

A primeira “vitrine de cachorro” que chegou à Cidade, pelo que me lembre, foi na Padaria Americana, na esquina das ruas Senador Dantas e Deodato Wertheimer. Fazia fila ao meio dia de domingo e tirou parte do movimento do Restaurante Esquisito, ali perto, na José Bonifácio, quase esquina com a Praça Firmina Santana. No Esquisito, para se levar para casa o prato único do restaurante mais antigo ainda existente na Cidade, tinha-se de ir equipado com uma vasilha. Pirex era o máximo, então. Nenhum dos dois era caro.

As lembranças veio há algumas semanas. E, de pronto, voltei a 1965. Lá por março ou abril, o professor Horácio da Silveira resolveu acalentar suas aulas de História do Instituto de Educação Dr. Washington Luís com uma excursão às cidades históricas de Minas Gerais. O “Roteiro do Ouro”, como denominou a excursão, incluía Belo Horizonte, Sabará, Congonhas do Campo, Mariana e Ouro Preto. Na volta, uma passada por Petrópolis, já em território fluminense.

A viagem começou no Largo do Rosário, ponto de encontro de 32 jovens na faixa dos 15 anos. À meia noite partiu o ônibus da Eroles dirigido por um motorista de nome incomum: Herval. Conheci três na vida: o próprio motorista, padre Herval Brasil e Herval Antônio Baptista Vianna, colega de muitos anos e muitas histórias, falecido há pouco

Durou quatro ou cinco dias o “Roteiro do Ouro”. Coisa de estudante. Alojamento em Belo Horizonte foi no Mineirão, à custa de uma sobrinha do então governador de Minas que integrava o grupo. Em Ouro Preto, mancaram os donos das repúblicas que nos cederiam lugar. Rapazes e moças, então, se dividiram: os homens foram para um convento, as moças para o Grande Hotel desenhado por Niemeyer. Em Petrópolis, não havia dinheiro para mais nada e a solução foi reabrir um hotel que, findo aquele sábado e domingo, seria demolido. Custou quase nada e ainda rendeu recordações. Está em casa, ainda hoje, um penico de porcelana inglesa que o dono me presenteou. Chega a ser rosado.

Mas foi em Petrópolis, na última refeição antes da viagem de retorno, que todos se decidiram por enfrentar uma “vitrine de cachorro”. Sem dinheiro para nada, sentaram-se às mesas e pediram ao garçom que lhes servisse alguns dos frangos que giravam na máquina de porta de vidro. Esperavam pagar, pelo prato, o preço da “vitrine de cachorro”. Comeram só frango com farofa. E tubaína, guaraná aguado que há tempos não vejo. Na hora da conta, bem que o garçom tentou cobrar pelo serviço. Não havia como. Contentou-se com o preço da “vitrine” e uma gorjeta de tostão.

Carta a um amigo

Padre Adriano, o barbudo de Moçambique

Meu caro Chico

Tive que entrevistar pela Internet, para o jornal da Diocese, nosso ex-pároco de Itu, que se tornou missionário voluntário em Metoro, Moçambique. Como os fatos que contou me pegaram e como adoramos a África, onde passamos alguns dos melhores momentos de nossa vida, quero compartilhar com você. Coleta com a missa cheia em Moçambique soma R$ 0,40 e duas espigas de milho

As estradas são tão ruins na região de Metoro, no norte de Moçambique, que 15 dias depois do ciclone que afetou a região, ainda não dá para avaliar todos os estragos nas igrejinhas das comunidades da paróquia. De uma delas, que o missionário brasileiro padre Adriano Ferreira Rodrigues já visitou, restou em pé apenas a porta, ainda presa aos batentes, no meio do entulho dos tijolos assentados com barro. E na região, sujeita a ciclones e tufões, uma das maiores igrejas, verdadeira obra de arquitetura, as paredes são de lona, esticada sobre armação de ferro.

Para seus antigos paroquianos da São João Batista, de Itu, padre Adriano conta que “o ciclone destruiu as machambas, o nome que dão às roças”, mas apesar da fome que se anuncia, a população participa da coleta da missa que, com a igreja cheia, rendeu o correspondente a R$ 0,40, no último domingo, “além de duas espigas de milho”. É que um paroquiano achou que, como “o padre não tem sua família para ajudar aqui, o milho pode ser importante na comida”.

As espigas não foram a oferta mais curiosa nas coletas. Nos 16 meses que já passou em Moçambique – padre Adriano é missionário voluntário por quatro anos -, ele recebeu abóboras, frutas e até um galo vivo, como oferta. 

Não é de espantar”, diz o missionário. A região é tão pobre que na primeira vez em que esteve numa feira, quis saber por que os biscoitos eram vendidos em pacotes abertos. A resposta foi que “ninguém tem dinheiro para comprar um pacote, as pessoas compram por unidade, dois ou três biscoitos, cada vez”. E os biscoitos são oferecidos ao lado de roupas de segunda ou terceira mão, sapatos velhos, bem usados, disputados pelo povo, descalço.

A pobreza também marcou o almoço de Páscoa, que além de ‘matapa’ – cozido de folhas de mandioca e abóbora, misturada com amendoim, teve arroz e feijão por ser um dia especial. Todo mundo comeu sentado no chão, conta ele e como eu era visita, em vez de comer com a mão, tive o privilégio de receber uma colher. 

A paróquia de Metoro fica na província de Cabo Delgado e o bispo da Capital, que é Pemba, é carioca, D. Luís Fernando Lisboa, motivo pelo qual muitos missionários brasileiros vão para sua região. Embora Pemba seja cidade turística, o Interior é paupérrimo, apesar das reservas de gás encontradas recentemente no Norte de Moçambique, mas ainda não exploradas, mas que já motivaram vários ataques terroristas, felizmente longe da paróquia do padre Adriano.

E essa paróquia é imensa, como tudo na África, tanto que o missionário demorou para conhecer todas as comunidades sob sua jurisdição, porque na época das chuvas várias estradas não dão passagem. E quando chega o tempo da seca, quem não conseguiu guardar alimento – a última safra foi muito ruim -, passa fome e chega a haver mortes por desnutrição. 

Para um brasileiro, Metoro é um lugar estranho, maioria muçulmana, mas muito amigos do missionário católico, principalmente as crianças. Ele só sente não ter um violão, que ajudaria muito na evangelização, pois a música está na alma dos africanos. “E eles falam um pouco de português de Portugal”, conta, tanto que gostariam de ter estrada ‘de alcatrão’, isto é, de asfalto.

MISSIONÁRIO – Padre Adriano Ferreira Rodrigues com bombeiros de Minas Gerais, esta semana em Pemba (capital de Ponta Delgada/Moçambique). Os bombeiros, que atuaram em Brumadinho quando do rompimento da barragem da Vale, cuidam de atender à população atingida pelo ciclone e de vacinação em massa contra a cólera.

A língua mais comum, entretanto, é o Macua, tão complicado que no início a missa tinha que ser rezada com intérprete. Agora, porém, padre Adriano, ou melhor, padre Narore, que quer dizer barbudo, já fala com sotaque frases como “tharwany mwakele ehapary yorrera”, isto é, “convertam-se e acreditem no Evangelho”. Isso não impede que seja alvo de piadas, pois “o padre fala feito criança, gaguejando e colocando o acento errado nas palavras”, dizem os paroquianos. Mas ele vai aprendendo ‘vakani, vakani’, isto é, bem devagarinho. 

Que a missão está abençoada, o missionário não tem dúvida. Afinal, no Seminário Propedêutico não faltam vocações de africanos, que aprendem Doutrina, Espiritualidade, Vicência em Comunicação e Oração.

Foi ele quem consolidou minha tímida volta à Igreja, Chico, e ontem mesmo um seminarista amigo comentou que, se ele conhece um santo na terra, é esse padre. Mas não vamos fazer proselitismo apenas dos católicos. Um advogado de pouco mais de 20 anos, amigo nosso, evangélico, esteve numa missão em Moçambique e viu uma garotinha chorando desesperada porque a faixa da sandália havaiana dela tinha se soltado, era um presente ganho há mais de dois anos e ela teria que voltar a andar descalça, como todo mundo. Meu amigo consertou mal e mal a sandália e, na volta, os evangélicos fizeram uma vaquinha, compraram uma máquina, rejeito de borracha e estão fazendo milhares de sandálias, que levarão a Moçambique em agosto.

Padre Adriano é o diretor espiritual do Seminário e de lá envia seu pedido: “Ottakattifiheni, Nluku, Oworya Jothene Athumwane, Amem”, isto é, “que Deus os abençoe em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Abraços do

Bebeto”

(Luiz Roberto de Souza Queiroz é jornalista)

GENTE DE MOGI
MOGIANO – Professor por vocação, foi o primeiro colunista social deste jornal, assinando sob o pseudônimo Teddy Rodrigues. Participou, por décadas, do Coral 1º de Setembro e viveu, a vida toda, na casa que pertenceu aos seus avós, na Rua José Bonifácio. Benedicto José Queiroga tinha 86 anos quando morreu, em dezembro de 2017.

O melhor de Mogi

Associação Pró-Festa do Divino Espírito Santo, que este ano celebra seu Jubileu de Prata. Fundada em 1994, por sugestão dos festeiros do ano, Sylvania e Saul Grinberg, é responsável direta pela perenização da nossa mais importante festa religiosa.

O pior de Mogi

Então caiu parte do muro do Cemitério da Saudade, onde havia nichos desocupados? Melhor não comentar…

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… se perguntar que fim levaram as pessoas que chegaram a esta Cidade, aqui fizeram a vida e depois partiram sem se despedir. Não merecem saudade.