CHICO ORNELLAS

Vocês precisam conhecer Rosalie

A Casa Textor, em Santa Cruz do Sul

Que falta nos faz uma Rosalie. Nasceu e foi criada em Taubaté; casou-se com executivo norte-americano que fez a vida no Brasil dirigindo multinacionais e, por 20 anos, presidiu empresa em Santa Cruz do Sul, a 160 quilômetros de Porto Alegre. Conheci Rosalie há 10 anos. Foi durante a viagem anual que fazia à cidade conhecida como capital nacional do tabaco. É nas vizinhanças de Santa Cruz que se juntam produtores de fumo que abastecem as processadoras e as linhas de produção de indústrias, como a Philip Morris e Souza Cruz.

Santa Cruz do Sul é uma típica cidade gaúcha de colonização alemã (60% de sua população descende de germânicos). Tem na produção e industrialização do fumo sua principal fonte de renda, suficiente para alimentar o comércio vivo do “Túnel Verde”, como a gente dali chama a sua principal rua, encoberta por frondosas árvores que fazem jus ao apelido. São pouco mais de 100 mil habitantes (densidade de 172 habitantes por km2). A primeira pessoa de Santa Cruz que conheci foi André Luís, diretor da Gazeta do Sul, o jornal local. Conhecemo-nos na cidade do México durante seminário da Sociedade Interamericana de Imprensa.

Mas, há 10 anos, a visita ao Sul que tinha tudo para ser repetitiva, guardava uma surpresa: o programa na mesa do apartamento do Hotel Águas Claras incluía uma visita à Casa Textor, no final da tarde do segundo dia. Pensei comigo: o que será Casa Textor? E lá fomos nós.

Um muro baixo separa a rua de uma construção clara. Obra simples, encimada por uma data: 1870. Veio-nos recepcionar uma moça vestida em trajes típicos do século 19. E atrás dela uma senhora de olhos brilhantes. Era Rosalie. Durante a peregrinação pelo interior da casa – a mais antiga construção da cidade – Rosalie foi-nos contando que se apaixonara pela propriedade logo nos primeiros dias em que passou a viver em Santa Cruz. Com o marido e os filhos, moravam em um apartamento de São Conrado, no Rio de Janeiro.

A Casa Textor, em Santa Cruz do Sul

Não suportava mais ouvir barulho de tiros quando ia levar as crianças para a escola”, recordava-se ela ao final do jantar que nos ofereceu na Casa de Hóspedes da empresa. “Foi então que meu marido, ainda no Rio, um dia me mostrou perfil que lhe entregara um headhunter e me perguntou se eu conhecia alguém para sugerir; disse-lhe de pronto que aquele perfil era o dele e mudamo-nos para Santa Cruz do Sul”.

Pelo interior da Casa Textor Rosalie circulava como se ali tivessem nascidos seus bisavós. Mostrava a cozinha e os apetrechos da época; o quarto com um colchão de crina sobre a cama de madeira maciça. O berço de balanço ficava ao lado. Na sala, um gramofone arranhava um disco 78 rotações com músicas alemãs. No quintal, onde recepcionou o grupo com um coquetel que precedeu ao jantar na Casa de Hóspedes, Rosalie detalhou sua paixão:

Foi realmente paixão à primeira vista; mas levei um tempo para convencer os proprietários a vender o imóvel e meu marido a adquirir a Casa Textor pela empresa. A missão seguinte era cuidar da restauração, que seguiu os parâmetros estabelecidos pela Unesco em sua Carta de Veneza. Mas o resultado compensa. Hoje, Santa Cruz do Sul tem uma parte de sua memória preservada”.

CASA DUQUE – A construção colonial no bairro do Mogi Moderno, em Mogi, tem tudo para repetir a história da Casa Textor. Só falta uma Rosalie (Foto Arquivo Municipal).

Fiquei a pensar, por vários dias, como nos faz falta alguém como Rosalie. Não nasceu em Santa Cruz, tampouco seu marido. A empresa que ele dirigia não tem incentivos fiscais, é uma das maiores empregadoras da região e coleciona diversos prêmios como organização socialmente responsável.

Tudo isto me veio à mente ao passar, dia destes, pela Casa Duque na Rua Deodato Wertheimer, no trecho em que ela corta o bairro do Mogi Moderno. É uma construção histórica, remanescente do período colonial. Fica do lado esquerdo de quem segue para Bertioga, logo depois do posto de gasolina. Tem um longo muro de pedra e a construção escondida por vegetação. Pouco se divisa da rua, mas seu estado de conservação ainda permite que seja preservada. Para isso, entretanto, seria preciso garimpar por aqui alguém como Rosalie, gente que tem a consciência de que o importante não é amealhar, o importante é legar.

CARTA A UM AMIGO
Entre famílias e… famílias

Meu caro leitor

A antiga imagem de famílias que tinham sua estrutura determinada pelo matriarcado e com funções e responsabilidades muito bem definidas, pertence hoje à sombra do passado. Prover o sustento, de há muito, deixou de ser incumbência exclusiva do cônjuge varão. Sem ingressar na discussão maniqueísta do bem e do mal, Anne F. Grizzie, terapeuta norte-americana, elenca em seu livro “Mãe – uma relação de amor e ódio” (editora Rosa dos Tempos), um alentado estudo sobre as relações familiares, os tipos básicos dessa célula social.

Na essência, o que Anne descobriu em suas pesquisas nos Estados Unidos vale, integralmente, para o que ocorre também em terras brasileiras. A seguir transcreve-se parte da abertura do livro. Serve para cada um descobrir em qual tipo de família se insere:

QUAL? – Qual o perfil de sua família? A foto é da família do tabelião Leôncio Arouche de Toledo em 1934.

Família relaxada – É aquela com poucas regras, onde os pais não se envolvem muito com o estabelecimento de limites para os filhos. Pode ser, por exemplo, que não haja horários para comer ou dormir. É propensa a crises, pois a falta de estrutura e ordem tende a deixar seus integrantes sem senso de estabilidade e segurança. Mas há casos de indivíduos de famílias desse tipo que acabam demonstrando alto grau de independência.

Família disciplinada – Tem normas rígidas, hierarquia bem definida e pouco flexibilidade. Pode proporcionar segurança aos filhos, porque o papel do pai e os limites do comportamento estão bem delineados. A desvantagem é que a estrutura rígida pode causar medo ou dependência nos filhos. Por acharem que estão sempre sob domínio dos pais, os filhos, às vezes, separam-se deles dramaticamente. Podem, por exemplo, fugir ou engravidar.

Família deprimida – Neste grupo familiar, caracterizado por uma constante tristeza, há pouca brincadeira e camaradagem. A comunicação é escassa. Quem sai dessa família pode ser capaz de lidar com a morte ou outras tragédias com menos repercussão emocional do que pessoas de outros grupos. A desvantagem é que o isolamento pode levar a vários problemas emocionais individuais, como depressão e falta de realização. Sobreviver também pode ser visto como algo extremamente difícil.

Família devotada – A principal característica é o relacionamento entre os familiares. Passam muito tempo juntos e os papéis de cada um nem sempre são muito bem definidos. Há muito carinho e assistência entre os familiares, bem como espírito de lealdade. Mas o relacionamento íntimo excessivo pode deixar pouco espaço para o desenvolvimento da individualidade e o exercício da responsabilidade.

Abraços do

Chico

GENTE DE MOGI
LONZINHO – Daqueles personagens que só Mogi tem: nasceu aqui e aqui estudou até ingressar no curso de Direito da PUC de São Paulo. Graduado, montou banca na Cidade e sempre exerceu a advocacia na casa da Rua Dr. Correa onde foi criado. Elegeu-se vereador e cumpriu mandato de 1964 a 1969, também foi secretário de Governo da Prefeitura. O advogado João Affonso Neto, que levou sempre consigo o apelido de infância Lonzinho, era impagável com os trotes que aplicava a amigos. E deles recebia o troco, com o mesmo humor. Morreu em janeiro de 1992.

O melhor de Mogi

A Estrada do Nagao pavimentada. Caminho que vai do Botujuru às cercanias de Taiaçupeba, é uma bela alternativa para fugir dos congestionamentos no início da Mogi-Bertioga. E um agradável passeio.

O pior de Mogi

Começa a cheirar mal a atual discussão em torno de mudanças no Plano Diretor e Zoneamento da Cidade. Pode vir efeito de purgante por aí.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter comprado sua primeira televisão em “A Triunfante”, na Praça Firmina Santana