ENTREVISTA DE DOMINGO

Walter Ujvari, novo festeiro de Santana, e sua ligação com Mogi

O FESTEIRO Walter Ujvari: grato pela oportunidade de viver a festa, de ouvir relatos sobre a fé e conquistas. (Foto: Eisner Soares)
O FESTEIRO Walter Ujvari: grato pela oportunidade de viver a festa, de ouvir relatos sobre a fé e conquistas. (Foto: Eisner Soares)

O festeiro de Santana deste ano foi batizado na Paróquia de San Gennaro, em São Paulo, onde nasceu e viveu na comunidade conhecida pela tradicional festa paulistana, até mudar-se para Mogi das Cruzes, na década de 1990. Mas a ligação de Walter Zago Ujvari com a cidade começa na infância. Criança, ele brincava no Clube Náutico, margeado por um Tietê ainda limpo, porque vinha visitar o pai, o engenheiro civil Stefan Ujvari, de 15 em 15 dias. Em 1959, o pai participou da construção das pioneiras fábricas Pianos Schwartzmann e Valtra, em Braz Cubas. Estudante da Faculdade de Engenharia Civil na Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo, visitava, aos finais de semana, os amigos universitários mogianos, moradores de uma república no bairro do Cocuera. Quando iniciou a vida profissional, contratado de uma multinacional americana em Itaquaquecetuba, ele passou a celebrar laços e conhecimentos em Mogi. Tempos depois, entre 1980 e 1990, ele conheceu a mogiana Mariany Vicco, com quem é casado. Mogi passou a ser sua residência fixa. Foi duas vezes secretário municipal de Obras (2009-2012 e 20117-2019) e, antes disso, como conselheiro, participou da criação da rede de assistência à criança, baseada no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O festeiro de Santana tem 63 anos, estudou em colégios católicos. Gosta de cantar e de festas. Na do Divino Espírito Santo de Mogi está há duas décadas. Em uma sala envidraçada, com o estandarte da padroeira e a imagem de São Francisco, na Catedral, algumas horas antes do início da Festa de Santana, comparada por ele com uma empresa, mas sem funcionários, Walter compartilhou a própria história e falou da cidade, “extremamente gentil” com os que chegam de fora. Confira:

Como começa a ligação com Mogi?

Há dois momentos. Primeiro com o meu pai, Stefan, que trabalhou na construção da Pianos Schwartzmann e da Valtra, em Braz Cubas. Eu era pequeno e vinha, com minha mãe, em carro de aluguel, de 15 em 15 dias para visitá-lo, porque ele permanecia aqui e nós morávamos no Cambuci, em São Paulo. Meu pai nos levava ao Clube Náutico. Vi o Rio Tietê limpo, e também o Tamanduateí, em São Paulo, sem poluição. Também íamos para chácaras de amigos dele, em Guararema e Jacareí. Ele era engenheiro civil, com um currículo que poucos possuem porque atuou na instalação de grandes obras, Cosipa, em Cubatão, onde também passei parte da infância, a Usiminas, o prédio da IBM na Capital. Eu nasci dentro da obra. Em São Paulo, tínhamos uma grande oficina na casa do meu avô, Stevão, que veio da Hungria após a Primeira Guerra, e foi casado com Ana Huss Ujvari. Lá, nós fazíamos a funilaria dos nossos próprios carros, as nossas ferramentas. Por parte de minha mãe, Zenaíde Turra Zago, a família era italiana. Meu avô, Antonio Zago, veio para o Brasil e cuidou de 11 irmãos, trabalhou para o famoso aviador, o comandante João Ribeiro de Barro, em Jaú. Ele plantava café, e foi adquirindo terra em troca do trabalho. Depois atuou na Companhia Antártica, cuidava da tropa de burros nas fazendas da empresa, usados para a entrega da cerveja. Meu avô viveu 103 anos. A minha mãe tem 84, e é superativa.

Na juventude, você voltou a Mogi?

Sim, tinha amigos que faziam universidade aqui, e eles montaram uma república em uma chácara em Cocuera. Nos finais de semana me convidavam para todas as festas, da Medicina, da Odonto.

O Tietê mudou muito?

Vi o Tietê limpo, e também o Tamanduateí, em São Paulo, onde era possível nadar. O que aconteceu em São Paulo, se repetiu em Mogi e em outras cidades que não foram planejadas. O governo não tem pernas e braços para acompanhar o boom imobiliário, que injeta investimentos privados numa velocidade muito maior do que a do Estado. O que o poder público faz, é o emergencial – saúde e educação são a prioridade, porque o orçamento é fechado, por lei. Já o restante do orçamento é solto. São 200, 400 pessoas e grupos investindo em expansão urbana, e o Estado com recursos engessados. Então, as prefeituras vivem de aplicar recursos no emergencial, no paliativo, e a infraestrutura não deveria ser tratada como emergencial.

Com os construtores à sua volta, foi um caminho natural ser engenheiro civil?

A minha família só não trabalhou com química, mas construção, mecânica, pintura, funilaria, usinagem, marcenaria, fazíamos tudo. A minha vocação aconteceu por esses estímulos. Quando o meu avô materno trabalhava com as tropas de burro e os cavalos de raça dos donos da Antártica, ele e a minha avó Luzia, plantavam de tudo. E eu pegava as frutas, colocava em um carrinho, descia da propriedade, no Horto Florestal, em São Paulo, para vender. Já gostava de ter o meu dinheiro. Estudei nos colégios Marista Nossa Senhora da Glória, e Salesiano Dom Bosco. Com 15, 16 anos, trabalhei como boy, só na época da faculdade que não, porque tinha aula de amanhã e à noite. Mas, no terceiro ano da faculdade, com um amigo, comecei a fazer projetos, também dei aula de desenho industrial por algum período. Quando me formei, comecei a construir laboratórios e hospitais entre Minas, como o Hospital da Açominas, em Ouro Branco, e Rio.

E quando você chegou à Região?

Na década de 1980, quando fui trabalhar na montagem da fábrica da multinacional Gang Nail, uma das primeiras empresas de Itaquaquecetuba, e Mogi já era a sede regional, com escritórios, como o da Cetesb (Companhia de Saneamento Ambiental). Com matriz nos Estados Unidos, ela fabricava conectores metálicos para a construção civil, ferroviária e eletrificação rural. Depois, além de ser funcionário, fui viver o outro lado e, com amigos, abrimos a Roofftec, que contratava mão de obra para prestar serviços na construção civil, e a Canteiro, em Santa Isabel. Trabalhei também na francesa Stup Unicret, de pré-moldados e propensão. Como empresário, vivi os planos Collor, Sarney, então chegou o FHC, e eu estava saturado das viagens. Temeroso com a economia, desfiz as sociedades e abri a minha construtora em Mogi, a Zago Ltda, e que depois, por causa do nome, se transformou na WZU.

Tem filhos?

Dois, Walter e Renata (da primeira esposa, Silvia). Hoje sou casado com a Mariany. Tenho um neto, o Pedro, de 7 anos, e dois irmãos, Stefan (médico) e Sérgio (empresário).

Em Mogi, que obras você fez?

Construções e reformas, prédios, comércios, clínicas. É o que faço desde os 45 anos, quando estava cansado de trabalhar de cidade em cidade e optei pela qualidade de vida.

E como surgiu a atuação no poder público?

Primeiro, no governo do prefeito Junji Abe. Eu era voluntário na distribuição de sopa e fui convidado pelo José Luis (Freire de Almeida, então secretário de Assistência Social) para fazer parte do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente. De 2005 a 2008, trabalhamos na implantação do ECA, criamos o Fundo Municipal para a Criança e o Adolescente. Sou ligado à Irmandade da Santa Casa, Clube de Campo, o Lions, Rotary, a Maçonaria. Nessa época, Mogi conquistou o primeiro diagnóstico sobre a situação da criança, feito pela Telefônica, que apontou onde estavam os maiores problemas.

E como chegou à Secretaria de Obras?

A convite do (prefeito Marco) Bertaiolli, quando tocamos a conclusão da passagem subterrânea. Ali trabalhei com o Marcus Melo, que estava na chefia de gabinete e depois no Semae, e é muito amigo da família da Mariany. Quando ele foi eleito, me fez um convite, e não tive como recusar.

Mas, ficou apenas um ano e meio?

A Prefeitura não permite conciliar a atuação com o trabalho profissional, te exige muito. Ela exige dedicação integral.

E como foi a negociação para a saída do cargo?

O prefeito Marcus Melo tem um ritmo forte, e atuar na Prefeitura exige muito e foi difícil conciliar com a construtora.

O que o futuro reserva para Mogi?

Um crescimento fabuloso. Mogi cresceu nos últimos quatro governos. O governo Waldemar (Costa Filho) trouxe a GM, mais indústrias; a administração de Junji conquistou a duplicação da Mogi-Dutra, abriu a cidade para a expansão comercial e industrial. Bertaiolli colocou o dedo em feridas graves, como o transporte coletivo (antes, um monopólio), expandiu creches, no governo dele foram entregues 42 creches, é um número muito forte, hospital, UPA, pacto da saúde. O sistema de saúde de Mogi é como se fosse um plano de saúde e, muitas vezes, resolve mais do que este. Já o Marcus Melo chegou com uma estrutura montada, a mantém, e projeta respostas para o crescimento, com o Eco+Tietê, a entrega da Avenida das Orquídeas. Ele está tocando a cidade num momento muito diferente dos anteriores.

É a nossa pior fase econômica?

Sim, é uma fase muito ruim, e eu costumo dizer que ninguém faz nada sozinho, Junji deixou muita coisa projetada, o Bertaiolli deu velocidade na execução das obras, e o Marquinho está dando continuidade. Administrar a cidade esbarra na grandiosidade dos problemas, e na restrição das verbas públicas.

O que falta em Mogi?

Falta algo radical, e eu não tenho solução para isso: um modelo para resolver as necessidades do cidadão na mobilidade urbana, uma solução para o centro expandido, também para regiões como Jundiapeba, Volta Fria, falta a duplicação da Estrada do Pavan. Mogi fez muito, fala-se da falta de asfalto, mas a cidade asfaltou muitos locais, e tem pontos que não podem ser asfaltados, porque estão praticamente dentro dos rios. Mogi precisa ser mais radical, a via perimetral, por exemplo, não existe, está no papel, parou no meio da cidade. E na questão do transporte, há demandas novas, que vão deslanchar, bicicleta, patinete, carros elétricos (uma realidade em outros países), usar um veículo de combustão para andar dois, três quilômetros é um desperdício.

Mogi chegará a quantos habitantes?

600 mil, a cidade caminha para isso.

Como começou o voluntariado nas festas?

Com o Airton Nogueira, o João Braga, o André Marcondes, quando tinha apenas o “afogadão” do povo, há 20 anos. Eles me convidaram e eu nunca mais saí. Desde 1998 estou metido nisso. Eu gosto de festa, de cantar, já fiz muitos shows em Mogi.

Shows?

Sempre estive metido com shows, já tive discoteca, restaurante, no passado, o problema é que esse mundo é muito instável.

Quais shows trouxe para Mogi?

Muitos, Ney Matogrosso, Manolo Otero, Ana Carolina… Sempre fui festeiro, desde quando fiz parte do Diretório Acadêmico na faculdade.

Mogi acolhe bem?

Mogi é uma cidade extremamente gentil. A primeira casa que eu montei aqui, eu comprei tudo no comércio do centro, sem desembolsar um tostão na hora. Até hoje, comprar em Mogi é muito bom. E Mogi tem outras facilidades, o próprio trânsito, ainda não é uma loucura. Você fica um pouco parado, 20 minutos, e só.

Como é ser festeiro?

É como estar em uma empresa, sem funcionários, só com voluntários. E Mogi difere de outras festas, que contratam mão de obra. Aqui, isso é o mínimo. Então, você tem uma linha de produção diferenciada, que precisa dar certo, mas depende da boa vontade das pessoas. Vale o trabalho em equipe, e os problemas que vão surgindo, precisam ser solucionados como se você tivesse em uma empresa.

Fez algum pedido a Santana?

Nenhum, só agradeço a oportunidade de viver a Festa, de encontrar pessoas que fazem os relatos sobre as lembranças antigas, sobre a fé, a conquista de algo, um pedido atendido, um problema ultrapassado.

Por falar em desafios, você atua em um segmento duramente exposto no Brasil, pelas investigações da corrupção em contratos entre o poder público e a construção civil. O que virá, a partir de agora?

As empresas de grande porte estavam envolvidas e, graças a Deus, esse problema foi exposto. Mas essas empresas, as grandes, não vão acabar, elas fizeram acordos de leniência e voltarão a operar no Brasil. Na minha maneira de entender, a lei sempre existiu, o que faltou foi fiscalizar a lei. E eu vejo também que os políticos ainda não estão ouvindo o povo, não estão acreditando na aspiração das pessoas que estão embaixo, e a corrupção se mostrou um inibidor do crescimento.

Em quem votou?

Eu fui obrigado a votar no (Jair) Bolsonaro (PSL), no segundo turno. No primeiro, votei no (Henrique) Meireles (MDB). E acredito no Paulo Guedes. O fato é: o dinheiro não sumiu, não acabou, ele existe, mas quem investe precisa ter mais confiança.