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RELIGIÃO

CNBB pede providências contra ataques de deputado à Igreja e aos bispos

Bispo de Mogi, dom Pedro Luiz Stringhini, foi o interlocutor da CNBB junto ao comando da Assembleia Legislativa de São Paulo

Darwin ValentePublicado em 18/10/2021 às 12:39Atualizado há 3 meses

O bispo diocesano de Mogi das Cruzes e presidente da Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Pedro Luiz Stringhini, foi encarregado de encaminhar à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo  um documento assinado pelo presidente da entidade, rejeitando e pedindo providências para as declarações do deputado bolsonarista Frederico D’Ávila, que fez duros ataques à Igreja, aos bispos e à CNBB,  durante discurso em plenário.

Endereçada ao presidente da Assembleia, deputado Carlão Pignatari (PSDB), a carta aberta de dom Walmor Oliveira de Azevedo e demais integrantes da direção da CNBB rejeita “fortemente as abomináveis agressões” proferidas no último dia 14 de outubro, dia de seu aniversário de 69 anos de presença e serviços ao Brasil, pelo parlamentar.

O político, afirma a carta, agiu “com ódio descontrolado e desferiu ataques ao Santo Padre o Papa Francisco, à própria CNBB e ao arcebispo de Aparecida (SP), dom Orlando Brandes. A CNBB defende que, com esta atitude, o deputado “feriu e comprometeu a missão parlamentar, o que requer imediata e exemplar correção pelas instâncias competentes” e vai buscar uma reparação jurídica a ser corrigida “pelo bem da democracia brasileira”.

O pronunciamento do deputado aconteceu logo após o arcebispo de Aparecida haver dito, durante um sermão em missa do Dia de Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro) que “para ser pátria amada, não pode ser pátria armada; para ser pátria amada, é preciso ser uma república sem mentira e sem fake news; pátria amada sem corrupção e pátria amada com fraternidade”.

Numa reação despropositada, o deputado dirigiu-se aos bispos usando termos como “pedófilos e safados”, dizendo ainda que “a CNBB é um câncer a ser extirpado do Brasil”. Também referiu-se a dom Orlando e à CNBB como “gente nojenta e imunda” e ao encerrar seu discurso ainda usou o qualificativo “canalhas, canalhas”.

No último final de semana, o bispo dom Pedro Stringhini divulgou uma nota que foi lida pelos padres da Diocese de Mogi das Cruzes  questionando a agressividade do parlamentar e respondendo à suas declarações. 

A nota oficial de dom Pedro Stringhini começou lembrando um episódio bíblico:

 “Cabe aqui ressaltar a reação de Jesus Cristo diante de Pilatos, ao ser esbofeteado por um soldado: ‘Se falei mal, mostra em que; ma se falei bem, por que me bates?’ (Jo 18,23)”. 

E, em seguida, questiona:

“Cabe perguntar: há algum erro quando dom Orlando propõe que a Pátria se paute pela não-violência, verdade e fraternidade? Qual, então, o motivo de tanto ódio e agressividade emanados da boca do deputado Frederico contra o arcebispo e a CNBB? Seria em razão da solicitude e solidariedade da Igreja, dos cristãos e pessoas de boa vontade para com os pobres?”

E conclui a nota, afirmando:

“Sim, a Igreja não deixará de explicitar sua preocupação com os atuais rumos do País e de se solidarizar com os que sofrem a dor causada pelos 600 mil mortos na pandemia, os 14 milhões de desempregados, os 19 milhões passando fome, a crescente inflação e os preços abusivos. Não deixará de anunciar o sonho de uma sociedade de fraternidade e de paz.”

Postada em redes sociais de alguns padres, durante o último domingo, a nota provocou reações de apoio da comunidade católica que aprovou as afirmações do bispo mogiano e também saiu em defesa da Igreja, da CNBB e do arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brantes.

Confira a íntegra da carta-aberta

É a seguinte a íntegra da carta-aberta divulgada pela CNBB e que deveria ser entregue pelo bispo diocesano de Mogi, dom Pedro Stringhini, ao deputado Carlão Pignatari, presidente da Assembleia:

“Exmo. Sr.

Deputado Estadual Carlão Pignatari

Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Cidadãos e cidadãs brasileiros

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, nesta casa legislativa e diante do Povo Brasileiro, rejeita fortemente as abomináveis agressões proferidas pelo deputado estadual Frederico D’Avila, no último dia 14 de outubro, da Tribuna da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Com ódio descontrolado, o parlamentar atacou o Santo Padre o Papa Francisco, a CNBB, e particularmente o Exmo. e Revmo. Sr. Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida. Feriu e comprometeu a missão parlamentar, o que requer imediata e exemplar correção pelas instâncias competentes.

Ao longo de toda a sua história de 69 anos, celebrada no dia em que ocorreu este deplorável fato, a CNBB jamais se acovardou diante das mais difíceis situações, sempre cumpriu sua missão merecedora de respeito pela relevância religiosa, moral e social na sociedade brasileira. Também jamais compactuou com atitudes violentas de quem quer que seja. Nunca se deixou intimidar. Agora, diante de um discurso medíocre e odioso, carente de lucidez, modelo de postura política abominável que precisa ser extirpada e judicialmente corrigida pelo bem da democracia brasileira, a CNBB, mais uma vez, levanta sua voz.

A CNBB se ancora, profeticamente, sem medo de perseguições, no seguinte princípio: a Igreja reivindica sempre a liberdade a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76).

Defensora e comprometida com o Estado Democrático de Direito, a CNBB, respeitosamente, espera dessa egrégia casa legislativa, confiando na sua credibilidade, medidas internas eficazes, legais e regimentais, para que esse ultrajante desrespeito seja reparado em proporção à sua gravidade – sinal de compromisso inarredável com a construção de uma sociedade democrática e civilizada.

A CNBB, prontamente, comprometida com a verdade e o bem do povo de Deus, a quem serve, tratará esse assunto grave nos parâmetros judiciais cabíveis. As ofensas e acusações, proferidas pelo parlamentar – protagonista desse lastimável espetáculo – serão objeto de sua interpelação para que sejam esclarecidas e provadas nas instâncias que salvaguardam a verdade e o bem – de modo exigente nos termos da Lei.

Nesta oportunidade, registramos e reafirmamos o nosso incondicional respeito e o nosso afeto ao Santo Padre, o Papa Francisco, bem como a solidariedade a todos os bispos do Brasil. A CNBB aguarda uma resposta rápida de Vossa Excelência – postura exemplar e inspiradora para todas as casas legislativas, instâncias judiciárias e demais segmentos para que a sociedade brasileira não seja sacrificada e nem prisioneira de mentes medíocres.

Em Cristo Jesus, “Caminho, Verdade e Vida”, fraternalmente,

Brasília-DF, 16 de outubro de 2021”

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