ARTIGO

Carta aberta ao senhor Paulo Guedes

Perseu Gentil Negrão

Senhor ministro, escrevo-lhe de forma simples, pois o Senhor, embora servidor público, ao que parece, não conhece muito a administração pública.

Li que o senhor falou: O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, tem estabilidade de emprego, tem aposentadoria generosa, tem tudo. O hospedeiro está morrendo. O cara (funcionário público) virou um parasita e o dinheiro não está chegando no povo”.

Conto-lhe minha história. Cursei o Grupo, o Ginásio e o Colegial, em escolas públicas. Fui um bom aluno, porque mamãe cuidava da minha educação. Aos 18 anos, ingressei na Faculdade de Direito (fui um dos melhores alunos) e me formei com 21. Por meses, estudei 12 horas por dia. Prestei o concurso do Ministério Público, sendo o 16º colocado (havia mais de 3.000 candidatos).

Durante anos fui, também, professor universitário. Casei-me com uma cirurgiã-dentista do estado (concursada), que também fazia jornada dupla. Eu e minha esposa, por mais de 30 anos pagamos a previdência, que o senhor praticamente acabou.

Procurei seguir o ensinamento de um sábio promotor (Dr. Sebastião Cascardo): “Nunca feche as portas da Promotoria, pois para muitos pode ser a última”. Perdi muitas noites de sono, por ver as mazelas do Brasil, causadas por péssimos governantes (o que não é o seu caso). Como promotor, vi injustiças, tive vitórias e derrotas. Fui muito fiscalizado: sociedade, juízes, advogados, Corregedoria. Assim, ao contrário do que disse, nada de vida parasitária.

Senhor ministro: os bombeiros que arriscam suas vidas, para salvarem os outros são parasitas? Os abnegados professores da rede pública são parasitas? E as enfermeiras e médicos dos hospitais da rede pública (muito bem equipados) são parasitas? A equipe brasileira que foi à China, correndo risco de graves infecções, foi composta por parasitas?

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo


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