A construção de uma praça de pedágio no km 45 da Mogi-Dutra, como quer a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), vai muito além do que deixar uma viagem mais cara. A começar pela distância: apenas 5 minutos da entrada da principal cidade do Alto Tietê, e de encarecer acessos importantes, como para a Capital do Estado ou ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Sem contar o absurdo de imaginar moradores de Aruã, por exemplo, pagarem pelo menos R$ 8 para dirigirem pouco mais de 7 quilômetros.

É, também, mais do que isso.

Os motivos justificam qualquer movimento contrário à decisão que o Governo do Estado está prestes a tomar. E O Diário não entra nessa luta à toa. O jornal sempre levantou sua bandeira para assuntos que realmente impactam a vida de Mogi das Cruzes e do Alto Tietê.  A própria construção da Mogi-Dutra é um exemplo. Aliás, construção que não contou com um centavo do Estado, mas com o dinheiro dos mogianos. Melhorias vieram, nada mais do que a obrigação de governantes que precisam governar. E governar é cuidar.

É este cuidar que movimentos contrários ao pedágio pedem ao atual Governo do Estado. Afinal, como dito, a possível cobrança na Mogi-Dutra não vai mexer apenas com os bolsos de motoristas e moradores da região. Mas é uma afronta ao desenvolvimento regional e um comprometimento ao crescimento econômico e social.

Significa, também, aumentar o custo de vida na região. Sobe o frete, sobe a produção agrícola, sobe o transporte e o bolso até de quem nem usa a rodovia também será afetado.

Significa dividir Mogi das Cruzes e isolar moradores, separar trabalhadores da indústria (lembrando que a praça de pedágio ficaria no caminho de um dos principais polos industriais da cidade).

Significa afetar emprego e turismo.

Nesta publicação, O Diário traz 10 motivos para não aceitarmos a praça de pedágio. São justificativas alicerçadas em análises de especialistas e de representantes dos principais segmentos da sociedade.

Na edição impressa e também nesta versão digital ainda pedimos licença aos nossos leitores para enviar uma mensagem a um leitor exclusivo: o governador João Doria. Começamos uma série de “ofícios” endereçadas ao Governo do Estado, assinados por lideranças políticas e institucionais da região. Hoje, a palavra é do prefeito de Mogi, Caio Cunha.

Não se trata de pressionar. Mas, sim, conscientizar o governo sobre os prejuízos que uma praça de pedágio pode trazer para uma região tão importante do Estado.

1 - Desenvolvimento

O pedágio iria comprometer o crescimento econômico e social da região, na avaliação de lideranças políticas, que alertam para riscos de isolamento do município, como era antes da Mogi-Dutra, rodovia construída na década de 1970, entre Mogi e Arujá, com recursos da Prefeitura, justamente para que a cidade não ficasse apartada do seu desenvolvimento que, na época, acabou sendo compartilhado pelos municípios atendidos pela rodovia Presidente Dutra. Mogi das Cruzes, cidade universitária, tem uma localização estratégica a 60Km de São Paulo, fica a 40 km do Aeroporto Internacional de Guarulhos e faz ligação com os portos de Santos e São Sebastião. Toda essa logística preparada para receber investimentos ficará comprometida se houver um pedágio no caminho. Isso vai encarecer o transporte e estimular uma mudança nessa rota.  O Conselho de Prefeitos do Alto Tietê alega que tal medida inviabilizará atividades econômicas essenciais, como a agricultura, indústria, comércio.

2 - Custo da tarifa

O programa do Governo do Estado para a região envolve 67 quilômetros de estrada, entre pistas simples e duplicadas. O Movimento ‘Pedágio Não’ explica que estes dados são utilizados como base de cálculo para a cobrança da tarifa, resultando num valor próximo a R$ 8,60 nos dois sentidos da rodovia Mogi Dutra, onde a Artesp planeja construir o equipamento. O preço vai onerar o orçamento doméstico de milhares de pessoas que trafegam pela estrada. Aqueles que fazem o caminho entre Mogi e São Paulo e vice-versa já pagam o pedágio na Rodovia Ayrton Senna. Ou seja, vão ter que pagar duas tarifas para ir e duas para voltar da Capital.

3 - Divisão da cidade e isolamento

A praça de pedágio no km 45 da Mogi Dutra vai ilhar os bairros próximos à Serra do Itapeti. A situação preocupa o ‘Movimento Pedágio Não’, representado por moradores daquela região que abriga condomínios e bairros com grande número de famílias em situação de vulnerabilidade. O valor do pedágio será elevado e não poderá existir tarifa diferenciada para moradores da cidade. A cobrança de tarifas vai onerar esses habitantes nos deslocamentos entre bairros de uma mesma cidade, em situações rotineiras e essenciais, como o acesso a hospitais, escolas, serviços e compras. A medida poderá separar pessoas da periferia e a região central, onde estão as ferramentas públicas, o que resultaria em processo trágico de empobrecimento e miséria naquela área. 

4- Custo de vida

Um pedágio, na Mogi- Dutra, como pretende a Artesp, vai contribuir para promover um aumento de frete e o encarecimento de todos os produtos que entram e saem de Mogi das Cruzes, provocando um impacto no custo de vida da população, que vai sentir os reflexos na hora das compras de alimentos, produtos industrializados e nos preços de serviços e transportes. O aumento nos custos dos fornecedores e nos fretes sempre são repassados ao consumidor, que é quem sempre paga a conta.

5 - Indústria e emprego

O pedágio causará impacto na geração de emprego, renda e na economia local, como prevê a diretoria do Ciesp do Alto Tietê, que reafirma os prejuízos para o setor com aumento no custo da produção, até porque a Mogi-Dutra é uma das principais vias de acesso para as pessoas e de escoamento de mercadorias da região.  A Agência Gestora do Taboão (Agestab) classifica as pretensões da Artesp como um retrocesso, por encarecer o processo produtivo e desestimular os empreendimentos. A matéria-prima passará a ter um custo mais elevado. A contratação da mão obra será ainda mais difícil. A prioridade da Artesp e do governo estadual, de acordo com a Agestab, não deveria ser o pedágio na Mogi-Dutra, mas a construção do acesso da rodovia Ayrton Senna ao Taboão.

6 - Mercado de trabalho

Mogi das Cruzes conta com um polo industrial no bairro do Taboão, próximo ao trevo da Mogi-Dutra com Ayrton Senna, um dos maiores espaços em toda a região com zoneamento que permite a instalação de indústria. Um pedágio no trajeto vai separar as indústrias da força de trabalho da cidade na avaliação do setor. Elevará os custos com transportes, encarecerá o preço da mão de obra, entre outras questões. Esse processe resultaria, em médio prazo, num esvaziamento de profissionais da cidade em seu próprio complexo industrial, já que as empresas vão acabar dando preferência a profissionais de cidades vizinhas. Lembrando com o pedágio a R$ 8,60, cerca de um terço de trabalhadores da cidade que se deslocam à São Paulo, vão ter que pagar R$ 378,40 a mais, considerando 22 dias viagens por mês.

7 - Produtos agrícolas

A cobrança de tarifas elevará os custos para os produtores rurais de toda a região e prejudicará os investimentos nesta área de peso para a economia local. Além de pagar mais pelos insumos de fornecedores que normalmente repassam as tarifas, os agricultores teriam que gastar mais para escoar e levar os produtos à mesa das famílias. Mesmo sendo um importante centro de produção de hortaliças e frutas, a força do setor vem de pequenos produtores, que fornecem para comerciantes também pequenos de toda a Grande São Paulo. Um pedágio na principal rodovia da cidade, poderá, entre outros impactos, levar os compradores para outros centros de produção. A elevação no custo da produção tornará a cidade menos atrativa e isso fatalmente refletirá ainda no cultivo de flores, setor que vem crescendo muito no  município. 

8 - Setor comercial

Mogi das Cruzes perderá a competitividade no Alto Tietê.  A Associação Comercial de Mogi, desde o surgimento da proposta, manifesta sua contrariedade ao pedágio e alerta sobre os prejuízos que essa iniciativa desencadeará na cidade e municípios vizinhos, atingindo a arrecadação de impostos e o custo de vida dos moradores. Na avaliação dos representantes do comércio, em especial, a proposta deverá elevar os custos de transportes, os quais inevitavelmente serão repassados para os produtos e comprometer o consumo final, ainda mais num período difícil como o atual.  Além disso, a segmentação da cidade deverá limitar o acesso de consumidores ao centro de Mogi e contribuir para a migração de negócios para municípios vizinhos.

9 - Rodovia da cidade

A avaliação de lideranças políticas, deputados prefeitos e vereadores é de que não seria justo o Governo querer cobrar pedágio por melhorias em uma estrada que não contou com recursos do Estado. A construção da Mogi-Dutra foi paga Prefeitura, com dinheiro dos próprios mogianos. A rodovia recebeu, posteriormente, outros investimentos públicos para a sua duplicação ocorrida há mais de uma década. Passou por melhorias após uma longa batalha de lideranças da cidade e do Alto Tietê, com ajuda de uma campanha promovida na época por O Diário.  

10 - Malha viária

Representantes do Movimento ‘Pedágio Não’ estudaram o projeto de obras e melhorias apresentado pela Artes e concluíram que não haverá qualquer investimento em duplicação nas rodovias de acesso à Mogi. O trecho da Estrada do Evangelho Pleno (Pavan) é a única área com previsão de duplicação. Conforme o projeto original, seriam apenas estes 1.400 metros de duplicação em todo o trajeto, denominado trecho P4, onde a única que necessita de duplicação, rodovia Mogi-Bertioga, não faz parte do projeto.

Ofício ao Governo 1

A partir deste sábado (1°), O Diário de Mogi pede licença a seus leitores para enviar mensagens a um único destinatário: o Governo do Estado.

Em forma de ofício, o texto contará com argumentos contra a instalação da praça de pedágio na Mogi-Dutra. A cada dia, um liderança política, uma autoridade, um representante da sociedade civil estará argumentando sobre os prejuízos que o pedágio poderá trazer para a região do Alto Tietê.

Abaixo, o primeiro “ofício” ao governador João Doria é assinado pelo prefeito de Mogi das Cruzes, Caio Cunha. O texto não tem interferência editorial de O Diário e vai trazer os argumentos e as defesas do próprio convidado que estará utilizando este espaço. Ao jornal cabe apenas ser o “entregador” da mensagem, do ofício.

Ao Governo do Estado

Venho por meio desta reiterar minha posição.

Sou absolutamente contra a instalação de uma praça de pedágio na rodovia Mogi-Dutra. Meu posicionamento não é apenas como prefeito, mas como cidadão e mogiano - vivo aqui desde que nasci.

A implantação desse pedágio seria um desastre, um retrocesso e um verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento de Mogi e de toda a região do Alto Tietê.

Senhor Governador, o impacto desta medida afetaria negativamente centenas de milhares de mogianos! São pessoas que vivem em bairros ao longo da rodovia e transitam todos os dias por ela. Também usam a via aqueles que precisam do acesso para ir à capital ou ao Vale do Paraíba para trabalhar ou estudar. Imagine ter de pagar pedágio para ir trabalhar, para estudar, ir ao mercado ou ao médico? Pagar para circular na sua própria cidade! Este retrocesso também iria restringir a circulação de mercadorias, o que sempre reflete em aumento de custos na cadeia produtiva. Outra consequência seria o potencial para afugentar novos investimentos na cidade. 

Imagine, senhor Governador, quantos novos empregos a cidade perderia por causa disso? O setor industrial usa caminhões e carretas para o deslocamento da sua produção e seria profundamente impactado por este pedágio.

Não preciso lembrar o senhor que Mogi das Cruzes é polo regional do Alto Tietê e a maior cidade do Cinturão Verde do Estado de São Paulo. Diariamente, centenas de produtores rurais passam pela rodovia Mogi-Dutra para levar hortaliças, frutas e flores para abastecer a Ceagesp e, portanto, todo o território paulista e até mesmo outros estados brasileiros. 

Também não se faz necessário recordar que o trecho da SP-88 entre Mogi e a rodovia Ayrton Senna já tem a estrutura consolidada desde 2005, quando a pista foi duplicada. A população de Mogi se pergunta: qual a necessidade de implantar um pedágio ali neste momento? Não é justo que os mogianos paguem esta conta.

Em resumo, Senhor Governador: todos perdem com esta medida - não só Mogi das Cruzes e o Alto Tietê, mas também o estado de São Paulo e, porque não dizer, o próprio Brasil. 

Já me posicionei contra este absurdo diversas vezes e continuo inflexível. Com todo o respeito e a mais alta estima, certo de que o senhor entenderá os argumentos expostos, reafirmo que, enquanto prefeito desta cidade, lutarei visceralmente contra a implantação deste pedágio em Mogi das Cruzes.

Caio Cunha