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ARTE NA RUA

Com 'Escadas', Mauricio Chaer presta homenagem às vítimas da Covid-19

Em terreno alagadiço, obra do artista pretende inspirar reflexão sobre a pandemia e a efemeridade das coisas e da vida

Eliane JoséPublicado em 10/01/2021 às 13:05Atualizado em 11/01/2021 às 14:27
Divulgação
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Signo de tantas interpretações – utilidade, superação, trabalho, construção, arquitetura, além do poético 'caminho para o céu', uma escada instalada em um ponto inusitado, o “alagado”, um terreno movediço entre prédio e o Rio Tietê, entre o Nova Mogilar e César de Souza, é a mais recente peça do artista plástico Mauricio Chaer. A obra está no cenário público de Mogi das Cruzes com objetivo nobre: homenagear as mais de 202 mil vítimas de Covid-19 que o Brasil dramaticamente soma.

Com 10 metros, feita de bambu, mamona e tinta, a escada não estará só. Nos próximos meses, serão dez obras, de diferentes medidas, assinadas pelo artista conhecido por levar para o ar livre instalações coloridas. Em praças, parques e prédios, como o da TV Diário, esse acervo integra o conjunto de obras de arte que o mogiano topa pelas ruas, quando sai de casa.

A ideia de usar “a tela em branco” que se vê neste lugar a caminho do Botujuru, onde reside, começou quando ele “plantou” uma árvore multicolorida no mesmo “alagado” para homenagear o pintor chinês Chang daí-chien (1899-1983), que viveu em Mogi das Cruzes.

“Ali, tem uma beleza única, é uma tela em branco, por assim dizer”, conta, afirmando que o desejo era criar uma série para falar sobre o artista que concebeu o Jardim das Oito Virtudes, na casa onde residia, no Distrito de Taiaçupeba, antes de a represa deixar esse patrimônio debaixo d'água e desconhecido pela maioria dos munícipes.

Porém, outra urgência surgiu com a pandemia: a de falar sobre as vítimas, a maneira como o homem está lidando com a imposição criada por um virus na saúde pessoal e pública.

Ao invés de um "cemitério de cruzes”, ele oferta ao passante a visão das escadas, de “um mundo que mudou tanto, em pouco tempo” e dos “cuidados que todos precisam ter” para proteger a si e aos outros.

Em uma conversa na manhã deste domingo, dia 10, com a reportagem de O Diário, Mauricio Chaer disse que o uso do material surgido da união entre o bambu e a mamona deu ao artista muitas possibilidades de criação.

“Tenho um alfabeto inteiro para escrever e criar com essa mistura”, apresenta. Fora isso, essa matéria-prima confere à arte dele os sinais da sustentabilidade, da ecologia e da simplicidade dos elementos naturais.

“Muitas pessoas dizem que esse material é efêmero, precário, mas nada dura para sempre, e a degradação vale para falar sobre esse momento tão conturbado que todos nós estamos vivendo”, aproveita ele.

Depois das primeiras experiências, com a série “Galhinhos” e a primeira árvore instalada no terreno alagadiço, o artista encontrou tintas mais potentes para dar às criações uma durabilidade maior.

Porém, artista como é, Chaer atenta para o fato de que o efêmero é característica da vida. “Quando pensei em instalar a árvore, o próprio Mateus (Sartori, ex-secretário municipal de Cultura) me disse: ‘mas, você quer instalar uma peça, ali, na água?’, e eu respondi que sim, porque desde os 22 anos, eu acredito nessa arte do grafite, feito mesmo para durar pouco tempo, uma determinada época. O street art (arte urbana) é isso e leva a arte para as pessoas verem, também conhecerem a arte moderna”, defende.

De alagado à rua

Outra simbologia sobre impermanência das coisas – e da vida -, está no fato da área de instalação, que permite a visão da fauna e flora ribeirinha do Rio Tietê e de um bom recorte da Serra do Itapeti, ao fundo, estar com os dias contados para mudar.

Esse trecho do Nova Mogilar sofrerá fortes alterações com a construção de avenidas e dos parques previstos inicialmente no projeto + Mogi Ecotietê, com recursos financeiros já liberados para execução.

Onde está esse pântano visitado por pássaros e aves será uma rua. “Um conhecido da Prefeitura comentou sobre isso, que as escadas logo sairão dali, porque o alagado vai virar rua. Então, mais um motivo para a arte estar ali porque, assim, ela servirá como uma despedida desse local”.

Chaer conta que as pessoas que circulam pela rotatória (que possui uma obra de Rodrigo Bittencourt, 'Divino Espírito Santo')  têm a visão da árvore (ainda resistente, mesmo com as cores iniciais se esvaindo –,  da primeira escada e de uma belíssima área verde. Outros pontos de Mogi também poderão receber essa homenagem.

Fotografias que começam a circular mostram a beleza da conexão entre a escada que vai dar em lugar algum, e as tonalidades de nuvens e do sol (confira, por exemplo, em https://www.facebook.com/mauricio.chaer).

“Nas fotos, elas (as obras) meio que somem. Fica mesmo o convite para ver ao vivo”, acrescenta.

Led Zeppelin

Nesse novo trabalho, 'Escada', Chaer tem curtido as reações dos amigos que comentam a propriedade da homenagem aos mortos e doentes com a Covid-19 e fazem ligações com o tema explorado por artistas, como músicos e escritores. A escada tem um traço “poético” e inspira superação, sonho, mudança e até o trabalho.

“Um amigo falou, nas redes sociais, sobre a música do Led Zeppelin, 'Stairway to Heaven', e outras citações estão sendo comentadas. A ideia é essa falar de esperança, um caminho para todos nós, que estamos reféns desse ‘corona’, à mercê desse presidente (Jair Bolsonaro), que precisa encontrar uma solução, uma vacina... Essa obra fala sobre resistência”, configura ele.

Pandemia

Mauricio Chaer conta que tem enfrentado a pandemia com tristeza, mas sem paralisar as atividades e criações. “O ano passado foi muito, muito pesado, que ninguém podia prever, mas eu continuei seguindo, tive de fazer uma demolição, na casa que foi da minha mãe, continuei trabalhando, eu e outros artistas somos trabalhadores, precisamos batalhar..”, partilha.

Para concluir, Mogi das Cruzes perdeu mais de 560 vidas para a Covid-19. 

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