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BON CAMINO!

Conheça o Caminho de Santiago de Compostela pela experiência de quem já o percorreu

Há três anos a editora de O Diário, Eliane José, percorreu 360 dos 790 quilômetros da rota. Agora ela conta como foi a caminhada e dá dicas sobre a jornada

Eliane JoséPublicado em 17/09/2021 às 15:37Atualizado há 3 meses
Arquivo pessoal - Eliane José
Arquivo pessoal - Eliane José

Percorri 360 dos 790 quilômetros do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, a partir da cidade de Leon, há três anos. Três anos mesmo porque amanhã, 19, o Facebook deverá exibir como lembrança a fotografia de um brinde feito com duas companheiras da viagem, Silvana de Moraes e Joelma Silvestrini, tendo ao fundo, a famosa e suntuosa catedral, minutos após a chegada à praça-símbolo do fim da jornada para milhares de pessoas desde a Idade Média.

É a primeira vez que escrevo sobre a caminhada alojada na memória de maneira pouco mais exclusiva e subjetiva agora, por causa da pandemia.

 Ficou no passado um mundo dos sorrisos cúmplices trocados com estrangeiros e brasileiros e sonorizado pelo atrito dos passos nas pedras, entre cumprimentos de “bom caminho”. Ainda é ponto de passagem de gente que parece ter saído da torre de babel.

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Outra rotina impensável serão noites dormidas em camas e beliches a quase um palmo de distância uns dos outros, com pessoas que nunca se viu antes ressonando em diferentes decibéis, e da partilha sem temor dos cafés da manhã ou jantares em mesas de peregrinos.

Por um bom período, intuo eu, aquela intimidade criada entre os caminhantes não será recomposta. A máscara facial, álcool gel e o afastamento dos corpos são diferenças anotadas das redes sociais onde o planeta “caminho de compostela” se reencontra nos grupos de dicas, conselhos e fotografias.

Essa rota mística milenar de fé, religiosidade, turismo e cultura, considerada a terceira mais visitada pelos cristãos, depois de Jerusalém e Roma, se repopularizou a partir do final da década de 1980, após o escritor carioca Paulo Coelho, compositor parceiro de alguns dos maiores sucessos de Raul Seixas (1945-1989) como Sociedade Alternativa, lançar O Diário de Um Mago (1987- Editora Paralela) e esparramar mais de 65 milhões de cópias vendidas.

Muitos, daquela época, costumam agora esconder isso do currículo literário. Pois bem, cada tempo e cada um têm o seu caminhar. Fale bem ou mal, até duvide ou questione se a viagem foi mesmo feita pelo autor, como os raros espanhóis que esticam um pouco mais de conversa o fazem, o percurso em alta e com recorde com 344.352 “compostelas” em 2019, deve ao brasileiro parte desse vigor.

A compostela é o certificado do peregrino, nome da credencial de viagem obtida após a apresentação do passaporte carimbado a cada ponto de pouso ou da passagem oficial, emitida quando o caminhante comprova ao menos 100 quilômetros de passos dados (ou 200, caso dos ciclistas) no sempre lotado Centro Internacional de Acolhimento ao Peregrino, mantido pela “Xunta da Galícia”, a poucos metros da catedral.

Esse recorde turístico recuou em 2020, quando o coronavírus contrapôs o “faz o que tu queres, pois é tudo da lei, da lei”, de Paulo Coelho e Raul Seixas, e a maioria das fronteiras foi fechada. Acontece, agora, uma retomada gradual destas viagens. Um aceno da normalidade tão esperada.

Com a abertura da Espanha aos brasileiros, muitos estão desembrulhando os planos, convertendo real em euro (que vale assustadores R$ 6,17) e preparando as mochilas, cajado e botas.

Se esse for o seu caso, vá em frente. Saiba que o ritmo das passadas depende do tempo que o caminhante dispõe. Esse percurso pode ser repartido em quilometragens menores, 5,7 mil metros por dia.

Havia uma facilidade para isso, no pré-Covid, porque a alta demanda pelos alojamentos municipais ou hotéis fornecia muitas opções de repouso, a preços a partir de 10 euros a noite (reportagens recentes mostram que parte dessa estrutura permanece fechada).

Pesquise, treine caminhadas longas, retire o peso da mala o máximo, o máximo mesmo que puder.

Em qualquer período do ano escolhido, o roteiro será facilmente identificado, mesmo nas madrugadas escuras, pelas conchas de vieiras e setas amarelas, com o fundo azul, enfileiradas.

A região da Galícia é um recorte de estradinhas e vales verdes perfilados entre povoados milenares, com igrejas e construções tão antigas que a transforma em um museu a céu aberto. E, é verdade mesmo, há maçãs, uvas e framboesas doces em trechos salvadores para quem está muito cansado e tem fome. Árvores milenares, também. E até religiosas enclausuradas que, do nada, te chamarão para um pequeno terço, onde elas cantam lindamente, e você não dará um pio.

São os mistérios do caminho que guarda as pegadas dos templários, os integrantes das cruzadas tocadas pela ordem de monges militares que viveram na Espanha.

Uma hora, o peregrino pode chegar a um lugar em dia de festa, que reúne nas ruas e praças comunidades e grupos de música e dança (inclusive, vindos de Portugal, que fica ali ao lado). É bonito, interessante e cultural.

Uma boa refeição com taça ou garrafa de vinho, conforme o lugar, sai 10 euros.

Perrengues foram poucos, naqueles dias. Uma dor no joelho contida com talas e analgésicos até a volta ao Brasil e uma pequena cirurgia a que não escapa quem nasceu em meados do século passado.

Pesquisar, ver filmes, guias e livros, espiar grupos brasileiros que reúnem dicas e conselhos, valem para incursionar com segurança e tranquilidade pelo roteiro para pedestres ou ciclistas (que não cumprem algumas das antigas rotas por motivos óbvios: o grande trânsito de gente a pé).

O caminho cansa, mas descansa ao mesmo tempo. Oferta espaço e muitas horas para o reconhecimento de si mesmo e das limitações do corpo enquanto se observa mais sobre história oficial e oral a respeito dos apóstolos, ‘jornalistas’ daqueles tempos que espalharam a filosofia e as mudanças dos tempos em que viveram Jesus e os Tiagos Maior (que é o de Santiago de Compostela) e Menor.

Uma sensação daquele período seria a de pertencer à mesma aldeia ocupada por gente que gosta de peregrinar enquanto ouve, vê e conhece outras pessoas e ritos.

Algo, aliás, que em Mogi das Cruzes está à mão de todos - as rotas da Luz e do Sal não me deixam mentir. 

Bon Camino!

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