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Doente, acumuladora de pets é resgatada em meio a cães e gatos famintos (veja vídeo)

Cuidadora de animais foi encontrada desnutrida entre fezes e sujeira no Jardim Piatã; filho da idosa faleceu em situação semelhante há dois meses

Eliane JoséPublicado em 25/10/2021 às 14:58Atualizado há 3 meses

Uma idosa de 77 anos, que terá o nome preservado nesta reportagem, foi encontrada debilitada e em meio a sujeira e fezes de cães e gatos na casa onde residia, no Jardim Piatã, segundo conta a  vereadora Fernanda Moreno. A mulher foi levada para o Hospital das Clinicas Luzia de Pinho Melo, onde permanece internada, e alguns dos animais socorridos foram encaminhados a clinicas veterinárias com problemas de saúde.

Foram encontrados 8 gatos mortos, que estavam servindo de alimento para os demais animais.

Essa história dramática começa dois meses atrás, quando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado para retirar o corpo do filho da moradora, de 51 anos, que pode ter morrido em condições similares às do encontro da mãe, segundo relata a parlamentar.

Em conversas com famílias da região, Fernanda foi reunindo as informações, confirmadas por conhecidos da família, como Andressa Aparecida da Silva.

Após a morte do filho, a idosa que resistiu à chamada do socorro para a retirada do corpo, permaneceu na casa, onde não havia comida nos armários, nem energia elétrica, e as condições de higiene eram as piores possíveis.

"Já vi muitas situações difíceis, de idosos, de acumuladores de animais vivendo em situação insalubre, mas, esse é o caso mais precário de todos, pela sujeira, fezes, a falta de alimento e a fome dos animais e dela própria", lamenta a vereadora.

Alguns dos animais foram levados para clínicas veterinárias pela ONG Fera. Agora, terá início uma nova etapa do atendimento, que será a busca de auxílio para a adoção ou encaminhando dos pets para alguma entidade.

Um deles, em estado mais precário, recebeu uma transfusão de sangue.Os demais foram medicados e alimentados, e moradores, como Andressa, vão cuidar de repor a alimentação até que se finalize o atendimento e se encontre um destino para os cães.

Segundo Andressa, a moradora tinha resistência a deixar as pessoas entrarem na casa onde vivia com o filho e os animais. 

Na quarta-feira da semana passada, após uma chamado ao Samu, a moradora não foi levada para o hospital porque não havia quem a acompanhasse no resgate. Agora já se sabe que ela possui familiares, que poderão assisti-la, após alta médica.

Vizinhos contam que foram procuradas outras pessoas, até se chegar à vereadora Fernanda. Segundo a Prefeitura, a Polícia Militar foi acionada na sexta-feira, quando houve o resgate da paciente que sequer conseguia se levantar da cama.

Segundo vizinhos, ainda, servidores do programa Saúde da Família, teriam tentado entrar na casa da idosa, mas ela não teria deixado.

Os vizinhos sabiam que ela gostava de animais, mas não tinham conhecimento das condições em que eles viviam. A resistência de deixar outras pessoas entrarem dentro da casa de acumuladores é um dos sintonas da Síndrome de Diógenes (veja abaixo)

Segundo a vereadora Fernanda, foi constatada a presença dos cães e gatos desnutridos e doentes, além de oito gatos mortos, muito provavelmente por fome e sede. 

Acumuladores

Fernanda Moreno, que atua em defesa da causa animal, admite que os detalhes desse caso ultrapassam aos de outros acompanhados por ela e sua equipe pela drama pessoal da idosa, que perdeu o filho, em meio à pandemia. 

"Ali, havia uma idosa que não deveria ter permanecido sozinha e poderia ter morrido, como o filho, se não fosse resgatada", aventa. A moradora recebia uma pensão por aposentadoria, segundo os primeiros relatos.

A vereadora acredita que a família tenha registro no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e no programa Saúde da Família, e está questionando o poder público sobre os atendimentos. "Sei que as condições de atendimento são restritas, inclusive, pelo número enxuto de funcionários e até por estarmos em uma pandemia, essa situação é uma colcha de retalhos", afirma, lembrando que a cidade possui um decreto municipal estabelecendo meios para o tratamento dos acumuladores de maneira integrada, com a participação das pastas de Saúde, Assistência Social, Zoonozes, Serviços Urbanos, e outros.

Nesse caso, segundo a vereadora, apesar das inadequadas condições sanitárias da casa, não havia o acúmulo de materiais e outros objetos, mas o número de cães e gatos sugere a possibiidade de a moradora ter um diagnóstico de algum transtorno, que poderia ter sido identificado e tratado.

A vereadora deu início a uma campanha para resgatar dos animais, e publicou vídeos em suas redes sociais com imagens do local (veja aqui).

Síndrome de Diógenes

Fernanda acredita que a idosa possa ter o diagnóstico de síndrome de Diógenes, que se identifica pelo  descuido extremo com a higiene pessoal, negligência com o asseio da própria moradia, isolamento social, suspeição e comportamento paranoico, sendo frequente a ocorrência de colecionar e acumular coisas e animais.

Alguns estudos indicam que a incidência anual é de 5/10.000 entre aqueles acima de 60 anos, e pelo menos a metade é portadora de demência ou algum outro transtorno psiquiátrico.

Desde 2018, quando encontros promovidos por Fernanda e o poder público, a cidade acabou por conquistar um decreto municipal, com políticas que tratem os acumuladores de forma integrada. Fernanda admite, no entanto, que a pandemia acabou por recuar os encontros e acredita que esse caso dê o início a uma nova série de medidas que vise integrar serviços para identificar casos e sofrimentos como o vivido por essa família, no Jardim Piatã.

Ajuda

Pessoas interessadas em adotar os cães e gatos encontrados, ou ajuda com a doação de alimento ou a manutenção de um hotel para pets, podem entrar em contrado com a ONG Fera, no whatsApp 9-7273-2537 ou ainda com a vereadora, no gabinete da Câmara: 4798-9515.

O que fiz a Prefeitura

A Prefeitura explicou, por meio de nota, que o "Centro de Controle de Zoonoses foi acionado pela Polícia Militar por volta das 11h50 de sexta-feira (22) sobre ocorrência de uma mulher que estaria morta com seus animais dentro de casa, no Jardim Piatã. Quando a equipe chegou ao local, a moradora havia sido resgatada e removida pelo Samu ao Hospital Luzia de Pinho Melo".

A equipe, afirma a gestão municipal, encontrou a residência em situação bem crítica de higiene, com 11 cães e alguns gatos, oito deles mortos, "que estavam sendo comidos pelos cães".

Por conta da situação, os animais estavam bastante alterados. A equipe do CCZ conseguiu resgatar um filhote de cão e dois gatos. 

A vereadora Fernanda Moreno recolheu alguns animais e se prontificou a levar ração para que os vizinhos atendessem os animais que ficaram na residência até que haja um destino para eles.

"Casos de acumuladores de animais exigem atendimento conjunto, envolvendo equipes especializadas em Assistência Social, Saúde Mental e Zoonoses. Tão logo receba alta e retorne à sua residência, essa senhora deverá receber acompanhamento multidisciplinar", afirma a Prefeitura.

O serviço de Saúde da Família não teria obtido, até então, autorização para entrar na casa da idosa e realizar qualquer tipo de atendimento.

(Reportagem foi atualizada em 26 de outubro)

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