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LUTO

Ex-comerciante Benedicto Máximo morre aos 90 anos

Conhecido em César de Souza, ele também era ex-industriário e morreu nesta terça-feira (2) na emergência do Hospital Luzia de Pinho Melo

CARLA OLIVOPublicado em 03/03/2021 às 11:00Atualizado há 3 meses
Divulgação
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Mogi das Cruzes perde o ex-industriário e comerciante Benedicto Máximo, 90 anos, conhecido de muitos mogianos, especialmente em César de Souza, onde trabalhou e morava. O corpo foi sepultado na tarde desta quarta-feira (3), no Cemitério São Salvador, no Parque Monte Líbano, após as últimas homenagens de familiares e amigos no Velório Municipal Cristo Redentor.

Ele morreu na terça-feira (2), na emergência do Hospital Luzia de Pinho Melo, para onde foi levado após passar mal em um posto de saúde de César de Souza onde tinha exame de imagem agendado.

Máximo atuou na Cerâmica Rio Acima, teve açougue na avenida Ricieri José Marcatto, em César de Souza, vendeu frios e cereais no Varejão, no Mogilar, e por 22 anos comandou padaria na rua Zeferino Vaisset, também no distrito. 

"Deixa muitas saudades para uma multidão de amigos que desfrutavam de seus almoços com a alegria que ele sabia espalhar. Meu abraço solidário aos seus filhos e familiares. Ele soube aproveitar a vida. E dele só guardaremos boas lembranças", comentou a amiga Vanice Assaz nas redes sociais.

Máximo deixa três filhos - outros três já faleceram -, 9 netos e 3 bisnetos. 

Em 8 de dezembro de 2013, Benedito participou da 'Entrevista de Domingo' de O Diário. Relembre a matéria na íntegra:

Dono de uma memória invejável, o mogiano Benedito Máximo, 83 anos, relata lembranças que ajudam a recontar a história de sua família, uma das pioneiras no Distrito de César de Souza, e da própria Cidade. Bom de prosa, traz na mente as recordações do tempo em que o pai, o comerciante Antônio Máximo, sofreu com a requisição de todos os produtos do seu armazém de secos e molhados, na Rua Dr. Ricardo Vilela, 51, durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

Com isso, a família deixou a casa onde Benedito nasceu – nos fundos do estabelecimento comercial – e se mudou para o sítio do avô materno, João Camilo de Miranda, em César de Souza, na área anos mais tarde denominada Granja Anita e hoje ocupada pela construção de um condomínio residencial.

Ali passou a infância trabalhando na plantação de feijão, arroz, milho e mandioca, e também na produção de rapadura e pamonha para venda no Mercado Municipal. Ele também ajudava o tio, João Camilo de Mello, na comercialização de feixes de madeira – popularmente conhecidos como “mucuta” – às famílias da Cidade, que na época contavam apenas com fogão à lenha.

Durante o primário, morou com a tia Escolástica, na Rua Dr. Paulo Frontin, para estudar no Grupo Escolar Coronel Almeida, mas após dois anos voltou para César, onde completou o curso com uma professora que passava a semana no sítio para dar aulas às crianças de lá. Envolvido com o trabalho, não pode dar continuidade aos estudos.

O primeiro emprego foi na Peixaria Mepesca, na Flaviano de Melo, mas Máximo também atuou na Cerâmica Rio Acima, teve açougue na Ricieri José Marcatto, vendeu frios e cereais no Varejão, no Mogilar, e por 22 anos comandou a padaria na Rua Zeferino Vaisset, sob o comando do filho Jair há 10 anos.

Máximo, que sempre teve habilidade para a culinária, faz parte da Confraria da Panela, que se reúne todas as segundas-feiras em um sítio de Sabaúna. Na entrevista a O Diário, o ex-industriário e comerciante aposentado compartilha suas histórias com os leitores:

Em qual região da Cidade o senhor nasceu?

Meu pai (Antônio Máximo) era português e minha mãe (Bertolina Martins de Mello) nasceu em Mogi. Quando se casaram, ela tinha apenas 14 anos e, na época do meu nascimento, eles moravam no imóvel dos fundos da Rua Dr. Ricardo Vilela, 51, onde na frente ficava o armazém de secos e molhados dele. Na época da Revolução de 1932 (Revolução Constitucionalista), ele teve todos os produtos requisitados pelo governo e perdeu tudo, até o carro. Por conta disso, nos mudamos para o sítio do meu avô materno (João Camilo de Miranda), em César de Souza, onde depois foi a Granja Anita e hoje está sendo construído um condomínio residencial. Ali tínhamos de tudo, várias árvores frutíferas, três nascentes e muita mata virgem. Minha família foi uma das pioneiras em César, juntamente com os Marcatto, Romeiro, Vidal, Cancian, Gerevini, Villar, Stoppa, Gil, Pintos, Nolasco, Vaisset, Fossen, Correa e Meninos.

Há mais lembranças dos tempos no sítio?

Ali passei a infância, ao lado dos meus irmãos (Camilo, Antonio Filho, Luiz, Ângelo, Florisbela, Terezinha e João Máximo - todos já falecidos). Nós ajudávamos na lavoura, plantando mandioca, milho, feijão e arroz e na produção de rapadura e pamonha. Tudo era vendido no Mercado Municipal. Passávamos o dia todo trabalhando, acordávamos às 6 horas, tomávamos café da manhã e já íamos para a roça, de onde só voltávamos quando escurecia e tomávamos banho na bica d’água da nascente, que era bem gelada. Fazíamos isso inclusive no frio, porque não havia energia elétrica. Como criávamos frango e porco, no final do ano, minha mãe os mandava para as irmãs que moravam na Cidade. No Natal, a família toda se reunia no sítio, onde os pratos eram preparados no fogão à lenha, com a carne de porco e a linguiça penduradas no fumeiro. Até hoje guardo uma foto da família, com meus tios, avós e pais, tirada lá no sítio em 1907. Meus amigos de infância eram Nene Vidal, Chiquito e Zair Marcatto, Nene e Nelson Hypólito, Nardo dos Santos, Roberto Valiengo, Primo Villar e Mesquita.

Como era César de Souza na época?

Por lá só havia mato e sítios. Eram pouquíssimas casas, mas a movimentação ficava por conta das fábricas Cerâmica Rio Acima, no Jardim São Pedro, que antes trabalhava com corte de lenha, e da Cerâmica Marcatto, na Vila Suíssa. Na área hoje ocupada pela Elgin existia um grande campo de futebol, com um belo gramado. Lembro que todos os anos, o seu Pedro Romeiro, da Rio Acima, fazia uma grande festa de São Pedro com chope e carne à vontade e de graça para a população. Cada espeto, feito de taquara, tinha 2 quilos de carne. Isso era tradicional e acontecia todo dia 29 de junho, quando era feriado para os funcionários da fábrica. Uma diversão da garotada era nadar ou pescar no Córrego dos Corvos, que era tão limpo que dava até para beber a água.

Onde o senhor estudou?

Aos 7 anos fiquei órfão de pai e vim morar na região central da Cidade, com minha tia Escolástica, na Rua Dr Paulo Frontin. Primeiramente estudei na escolinha particular da dona Narcisa, na Professor Flaviano de Melo, e depois no Grupo Escolar Coronel Almeida, onde tive colegas de classe como Maurilinho e Jacob Lopes. Como morava em frente à Matriz (Catedral de Santana), sempre acompanhava minha tia às missas. Ela queria que eu fosse padre, então me colocava como coroinha e para participar das procissões da Igreja. Por conta disso, meus amigos Tonico e Ery Brasil me apelidaram de Dito Rezinha. Nesta época, eu também ajudava meu tio (João Camilo de Mello), que trazia mucutas, que eram feixes de madeira, às famílias da Cidade, já que naquela época não havia gás e a comida era preparada no fogão à lenha. Nós os vendíamos nas ruas. Estudei no Coronel até o segundo ano, quando voltei para o sítio, onde a professora dona Maria, mãe do Cuco (José Antônio Cuco Pereira, vice-prefeito), passava a semana, voltando para a Cidade somente aos sábados e domingos. Mas mesmo assim completei apenas o primário.

Qual foi seu primeiro emprego?

Sempre ajudei na roça, assim como meus irmãos, mas meu primeiro emprego na Cidade foi na Peixaria Mepesca, do Melinho, que ficava na Flaviano de Melo. Primeiramente atendia no balcão e depois passei a gerente, mas depois de algum tempo fui para a Cerâmica Rio Acima, em César, onde trabalhava em uma máquina de fabricação de telhas. Ali havia mais de 400 empregados de todas as regiões da Cidade e uma espécie de trenzinho que antes era usado para buscar e enviar lenha à Central (Estrada de Ferro Central do Brasil) e abastecer a Maria Fumaça. Depois que o seu Pedro Romeiro deixou de trabalhar com lenha e montou a fábrica de cerâmica, este trenzinho foi bastante utilizado no transporte dos empregados quando iam fazer compras no armazém da minha mãe, que ficava no local hoje ocupado pela portaria da fábrica Elgin. Ali, ela vendia alimentos para os funcionários da Cerâmica, que pagavam com o vale da empresa, e também dava pensão a eles, porque cozinhava muito bem.

E depois da Cerâmica Rio Acima?

Decidi montar um açougue na Ricieri José Marcatto, 521, que fornecia carnes para as refeições dos funcionários da Huber Warco e Howa. Com a ajuda do Juviano, Juca, Modesto, Lara e Manezão, saía de madrugada para trazer as boiadas das fazendas de Guararema, Sabaúna e Salesópolis para o Matadouro de Braz Cubas. Na época, havia os açougues do Mário de Almeida, Targino, Nelson Duque, Lavico, José Borges, Miroca, Olavo Secomandi e Toninho Godói. Nós comprávamos a boiada e dividíamos a carne. Meus sobrinhos até brigavam para trabalhar no meu açougue. O Janjão, Sérgio, Eduardo, Zezé e Lu me ajudaram lá, assim como o Maurinho, que hoje é gerente do Supermercado Rimar.

Como era o trabalho no açougue?

Era o tempo em que podíamos vender fiado ou com a caderneta onde as compras eram anotadas e pagas na época do recebimento dos salários. Havia também os fregueses que levavam os papéis com os valores anotados para casa e os traziam no final do mês para o acerto de contas. Todo mundo era honesto e ninguém ficava devendo. Também trabalhei no Varejão, onde tive banca de frios e cereais durante 15 anos, até que montei a Padaria Máximo, na Rua Zeferino Vaisset. Atendia no balcão, preparava os pães e outras miudezas. Foram 22 anos de trabalho lá e há 10 ela está com meu filho Jair (o Jajá).

O senhor teve envolvimento com o futebol mogiano?

Fui presidente do Vila Suíssa Futebol Clube, que jogava no campo que havia onde hoje está construída a escola Sebastião de Castro, na Ricieri José Marcatto, ou na área atualmente ocupada pela Elgin. Na época, Teco, Nene, Cicia, Zé Reis e vários jogadores de Jacareí faziam parte do time. Lembro que quando as partidas eram contra o Sabaúna, só saía briga. O mesmo acontecia nos jogos entre União e Vila Santista, que viviam uma grande rivalidade. Na Cidade havia outras equipes fortes como o Comercial, Tietê e São João. Outra recordação é do XI da Saudade, que trazia veteranos famosos do futebol para o campo do União nas tardes de sábado. Torço pelo São Paulo, mas fui pouco a estádios; hoje acompanho apenas pela televisão. Sou do tempo em que se jogava futebol para pagar recibo, não para receber salário. Hoje quem manda é o dinheiro.

Ficaram saudades da Mogi das Cruzes de antigamente?

Sinto falta da tranquilidade que tínhamos no passado. Como não havia ônibus e nem violência, andávamos a pé pelas ruas, de César de Souza até o Centro, para ir ao cinema, sem qualquer perigo. Existia maior respeito entre as pessoas e muito menos maldade. Na Cidade, era costume alugarmos bicicleta com o Zé Macarrão, Zaú ou o Manequinho, para dar voltas à tarde, mesmo porque ninguém tinha carro. Também nos divertíamos no Cine Parque, na Ricardo Vilela, onde hoje está o Supermercado Esperança, no Avenida e Odeon. Neste último, gostava de assistir aos filmes seriados, principalmente do Tarzan. Outra lembrança é dos bailes de Carnaval nos tempos em que fui presidente do Vila Suíssa, realizados no nosso salão, em frente ao posto de saúde.

O senhor mora em César de Souza desde criança. Era possível imaginar que o Distrito cresceria tanto?

Jamais. Eu tinha 48 lotes desde a área hoje ocupada pelo Banco do Brasil até o Gol de Placa, em César, que foram vendidos a preço de banana porque as terras ali não tinham valor. Ninguém imaginava que ficaria desse jeito e que hoje estes terrenos valeriam uma foturna. O próprio sítio dos meus pais, com 20 alqueires, foi vendido por apenas 200 contos de réis, em 1954, para uma família alemã, que ali montou a Granja Anita. Para se ter uma ideia, em 1972 cheguei a abrir um supermercado em César, no mesmo local onde hoje está o Shibata e na época em que na Cidade só havia o Mogiano, na Rua José Bonifácio. Mas não deu certo porque a população de lá era mínima. Hoje, não se consegue nem sair de carro, de tanta gente pelas ruas. E César de Souza não para de crescer.

E a habilidade para a culinária?

Minha mãe cozinhava muito bem e acho que herdei este dom. Quando meu filho Jair fazia parte do time formado por um pessoal do Clube de Campo, que jogava no Café Solúvel às segundas-feiras à noite, era eu quem preparava o jantar com churrasco, frango à cabidela, pernil, leitoa, entre outros. Nesta equipe estavam Bisnaga, Porcelli, Protássio, Zanetta, Gondim, Chico Bezerra, Roberto Ragaini, Ricardão, Julinho Cardoso, Mazzola, Naum e Ronaldão. Além disso, há 20 anos faço parte da Confraria da Panela, que se reúne todas as segundas-feiras, a partir das 15 horas, no sítio do João Figueira, em Sabaúna. Nós batemos papo e a cada semana uma pessoa prepara a comida. Fazem parte deste grupo, Naim, Gondim, Odair, Catito, Elcio, Robertinho, Nakai, Jajá, Pedrão, Silvio, Preto, Vicente, Chu, Érico, Robinho, entre outros.

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