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INVESTIGAÇÃO

Troca de corpo revolta família de empresária de Suzano

Ana Paula de Souza morreu por Covid-19 no Hospital Municipal de Mogi e deveria ter sido sepultada em Suzano, mas teve o corpo trocado com o de Hélio do Carmo Silva

Heitor HerrusoPublicado em 04/06/2021 às 17:37Atualizado há 11 dias
Reprodução - Facebook Lana Camargo
Reprodução - Facebook Lana Camargo

Como se não bastasse a dor de perder um ente querido para a Covid-19, uma família de Suzano está enfrentando também outra dor. Quando chegou o momento de enterrar Ana Paula de Souza, que estava internada no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, na manhã desta sexta-feira (4), veio a surpresa de que não era ela, a empresária e mãe de três filhos quem estava no caixão, e sim um homem, Hélio do Carmo Silva.

Dona de um estúdio de tatuagem em Suzano, Ana Paula teria contraído o novo coronavírus no último dia 26 de maio. Na época, foi atendida e chegou a receber alta médica, retornando para casa. Mas nesta quinta-feira (3), após piorar, foi internada no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, em Braz Cubas. Segundo a família, durante tentativa de intubação, ela sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.

A mãe da vítima, Enaura Aparecida Abranches, de 60 anos, diz que, no hospital, o filho mais velho de Ana Paula, Diogo da Silva Gregório dos Santos, 23, reconheceu o corpo da mãe. Segundo ela, a certidão de óbito foi emitida sem complicações, e os problemas começaram quando a funerária contratada pela família, Colina dos Ipês, de Suzano, foi retirar o corpo.

“Na hora (da retirada), o homem resolveu olhar para ver se era o corpo dela. E não era, tinha um senhor no lugar”, lamenta Enaura, indignada. “Sem palavras” para descrever a “tristeza e a angústia” que sente, ela não consegue se conformar com o fato de que “já era para ter enterrado” a filha. “Além do sofrimento de ter perdido uma menina nova, de 42 anos, tem essa confusão toda e a gente não sabe se vai enterrar hoje (4)”.

Para confirmar a história narrada por Enaura, a reportagem de O Diário procurou a funerária Colina dos Ipês, que apresentou a mesma versão.

Por telefone, a agente funerária Valéria Aparecida Catarina diz que “quando o agente funerário foi lá, a Ana Paula não se encontrava”. De acordo com o relato, “ele foi até o necrotério e viu o corpo de um homem, que não trouxe, já que o atendimento era para Ana Paula”.

A família da suzanense foi avisada do ocorrido ainda pela manhã. Contudo, não se sabe se a família de Hélio tem conhecimento que ele foi enterrado no local errado. E também ficou a dúvida: o que aconteceu com o corpo de Ana Paula?

De acordo com a prima da vítima, Daniela Messias, a troca teria sido cometida por outra funerária, a Assibraff, de Mogi das Cruzes. Quando deveria retirar o corpo de um homem, esta empresa teria levado, por engano, o da empresária.

Mais do que isso, Ana Paula teria sido enterrada no lugar deste homem, às 9 horas desta manhã, no Cemitério São Salvador, em Mogi.

O enterro de Ana Paula estava marcado para as 11h30 desta sexta-feira, em outro endereço, 21 quilômetros distante: o Cemitério Municipal São João Batista, conhecido como Raffo, em Suzano. Com a troca, o enterro não aconteceu, e a família diz não ter recebido qualquer tipo de previsão para que aconteça.

Inconformado, o filho mais velho de Ana Paula, Diogo, foi até o Cemitério São Salvador, na tentativa de encontrar o corpo da mãe. Encontrou apenas portas fechadas, o que foi confirmado pelo administrador da unidade, Osmar Paulino de Lima. “O cemitério está fechado para visitação e só abre para sepultamento. O filho esteve no portão, mas foi embora”.

Dúvidas

A reportagem de O Diário entrou em contato com a Assibraff de Mogi das Cruzes para entender o caso, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Também entrou em contato com a Fundação do ABC, entidade que administra o Hospital Municipal de Braz Cubas, para quem pediu detalhes sobre o procedimento de entrega de corpos à funerárias. Embora estes detalhes não tenham sido fornecidos, a nota por eles enviada segue abaixo, na íntegra:

"Em resposta aos questionamentos, o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes lamenta que as famílias dos pacientes que vieram a óbito na unidade estejam passando por essa situação desgastante em um momento de tanta dor e tristeza.

Esclarecemos que não houve troca de corpos dentro do Hospital Municipal de Mogi das Cruzes e que o protocolo utilizado foi seguido com rigor. As próprias famílias realizaram o reconhecimento e confirmaram as identificações, que são presas tanto no corpo quanto no saco funerário.

A falha que ocasionou todo esse desgaste aos familiares ocorreu quando a funerária contratada por uma das famílias retirou o corpo errado. Apesar das identificações claras e da orientação pelo funcionário do Hospital que abriu o Morgue para a remoção do corpo, o erro foi cometido, sob a justificativa posterior de que se tratava de um funcionário novo da funerária, ainda inexperiente.

Independentemente dos culpados, o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes lamenta profundamente o ocorrido e o sofrimento causado aos familiares. A unidade hospitalar informa que implantará sistema de conferência adicional, a fim de garantir que as funerárias contratadas pelas famílias não cometam esse tipo de erro novamente.

O Hospital já está registrando Boletim de Ocorrência e será aberta sindicância para averiguar todos os processos e ouvir as pessoas envolvidas no caso".

Mais dúvidas

Também se manifestou em nota a Prefeitura de Mogi, mas sem confirmar quem está enterrado em qual cemitério.

“A Prefeitura de Mogi das Cruzes foi comunicada sobre a situação e aguarda o relatório final da Fundação do ABC com os detalhes acerca do procedimento adotado, inclusive da empresa funerária. Mesmo assim, diante da gravidade dos fatos, uma sindicância será instaurada para a apurar as responsabilidades, para que as medidas cabíveis possam ser adotadas. A Prefeitura lamenta profundamente o ocorrido com as famílias neste momento de dor e vai exigir da entidade gestora protocolos mais rígidos, assim como das empresas funerárias que prestam serviço no município. As famílias já foram acolhidas pela entidade gestora, mas as administração municipal também está à disposição dos parentes”, trouxe o texto encaminhado a este jornal.

No final da tarde foi divulgado que também é vítima da Covid-19 Hélio do Carmo Silva, homem cujo corpo teria sido trocado pelo corpo de Ana Paula de Souza. Aliás, a família da suzanense disse que ainda não teve tempo de abrir o boletim de ocorrência, já que aguarda definições sobre o enterro.

Quem aguarda também é a funerária Colina dos Ipês, que diz que o agente funerário que identificou a situação precisou ficar dentro do Hospital Municipal desde o início da manhã até o final desta tarde. “A gente está aguardando liberação para fazer exumação, aguardando o juiz”, disse a O Diário Valéria Aparecida Catarina.

História

Ana Paula de Souza deixa três filhos (Diogo da Silva Gregório dos Santos, 23 anos; Henrique da Silva, 20 anos; e Felipe Caleb, 10 anos, este último diagnosticado com Covid-19, com sintomas leves e em tratamento em casa).

Além deles, deixa a mãe, Enaura, triste por ter perdido a única filha mulher, e inconformada por não saber onde está o corpo dessa mesma filha.

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