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PASSADO

Uma história de sucesso que começa no fundo de um poço

Conheça um pouco da vida de Fumio Horii, empresário que soube, como poucos, aproveitar as oportunidades que a vida lhe proporcionou

Darwin ValentePublicado em 17/05/2021 às 16:18Atualizado em 17/05/2021 às 18:35
Reprodução - redes sociais
Reprodução - redes sociais

Fumio Horii tinha 18 anos, em abril de 1952, quando sua família decidiu trocar a cidade de Santo André, no ABC, por uma fazenda na região de Varinhas, em Mogi das Cruzes, para se dedicar ao que os japoneses sabiam fazer com maestria: plantar verduras e legumes. Antes disso, a família que havia chegado ao Brasil, em fevereiro de 1937, quando o navio Montevideo-Maru aportou em Santos, já morara em Ribeirão Preto, até decidir se instalar próximo de São Paulo.

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“Visionário” e “caridoso”; Veja o que dizem sobre Horii

Em Mogi, o local conhecido como Colônia Daruma, despertaria os sonhos de dona Yoshimi, mãe de Horii, que ao observar um morro existente no interior da propriedade,  dizia: “Como eu gostaria de viver numa casa construída naquela colina, junto àquela árvore alta...”

O sonho da matriarca ainda não havia se realizado, quando ela, vítima de um câncer de mama, veio a falecer, quatro anos após a chegada, em 26 de fevereiro de 1956.

No ano seguinte após a morte da mãe, Horii casou-se com Selma (Fussako em japonês), de uma família residente em Perus, cidade localizada nas proximidades de São Paulo. E algum tempo depois, decidiu que estava na hora de trocar a antiga casa, feita de adobe, por uma outra maior e mais confortável. 

Foi então que ele se lembrou do sonho de sua mãe e concluiu: por que não construir a casa justamente onde ela tanto queria? 

Feita a terraplenagem no local, chegou a hora de construir um poço para fornecer a água necessária para a obra. E foi então que veio a grande surpresa: ao perfurar um espaço de 1m50 de diâmetro, após 2 metros de profundidade, os responsáveis pela obra registraram o aparecimento de uma terra branca. A água só seria encontrada após 13 metros de perfuração.

Horii desconfiou que aquela terra branca poderia ser algo muito mais interessante do que ele supunha.

Lembrou-se das mineradoras que  vira operando com a terra branca em Perus, cidade de sua esposa;

Também recordou que havia notado aquela terra branca saindo de formigueiros existentes em abundância no bairro de Varinhas. 

“Isso pode ser caulim” – pensou ele. 

Ao mandar analisar uma amostra da terra, veio a confirmação: era mesmo caulim. 

O espírito empreendedor do jovem agricultor falou mais alto.

E foi então que ele, mesmo a contragosto do pai, Isamu, decidiu explorar e vender o caulim para uma cerâmica de Suzano.  Após algumas instabilidades, o negócio começou a fluir de maneira rápida e rentosa. 

A vida do jovem Horii começou a mudar, vertiginosamente. Tanto que, em 1970, durante a Exposição Internacional em Osaka, ele e a esposa puderam emendar uma viagem pelo resto do mundo.

Horii, a partir de então, tornou-se um empresário bem sucedido, graças à sua visão empreendedora, capaz de enxergar muito adiante; E foi então que, em novembro de 1966, precisou requerer a cidadania brasileira para que pudesse adquirir áreas minerais onde havia jazidas de caulim a serem exploradas. As empresas começaram a surgir.

A Empresa de Mineração Horii foi a primeira a ser fundada, em 1968, para explorar o caulim.  No ano seguinte, surgia a Horii Comércio e Empreendimentos Ltda, para gerir os negócios imobiliários do empresário, como a aquisição, em 1992, da área onde seria construído um hotel do tipo resort, de nome Paradise (paraíso) inaugurado em junho de 2001.

Horii também se tornou dono de prédios no centro da cidade, como o edifício comercial da rua Dr. Deodato, com lojas comerciais e também chegou a negociar, mais recentemente, uma enorme área entre Braz Cubas e Jundiapeba, que no passado pertenceu à família do playboy Baby Pignatari. Ali, Horii tinha planos ousados, como construir um grande shopping center, ao lado da via férrea e negociar espaços com grandes empresas não poluidoras e ainda realizar empreendimentos imobiliários. Coisa que já vinha fazendo em outra área de sua propriedade, no início da Mogi-Bertioga, na saída para a Vila Moraes.

 Família 

Fumio Horii foi casado com Selma Fussako. Eles foram pais de Hissao, engenheiro apaixonado por aviação, que pilota desde helicópteros até Boeing, hoje cuidando da Mineração Horii e da construção de um pequeno aeroporto nas proximidades do Paradise, em Jundiapeba; Miriam Yoshiko; Kazuto, o filho que foi para o Mato Grosso do Sul administrar uma mineração da família e acabou se tornando prefeito da cidade de Bodoquena, naquele estado, pelo PSDB; Mauro Yoshifumi foi quem acabou indo administrar o negócio no Mato Grosso do Sul; e Marly Fumie, moradora na capital, onde se casou com um empresário de origem italiana do ramo de tintas.

Com fama de centralizador e exigente ao extremo, Horii era conhecido como uma pessoa que não gostava de ser contrariado. Tinha amigos fiéis, entre eles o ex-prefeito Waldemar Costa Filho e seu filho, Valdemar Costa Neto, com quem chegou a fazer sociedade na exploração de minério no Amazonas, na fazenda Patauá, de propriedade dos políticos. Era tido como extremamente seletivo em suas amizades. Pouco afeito aos eventos sociais de Mogi das Cruzes, passava boa parte de seu tempo no Paradise, onde exercitava o seu esporte favorito, o golfe, ao lado do médico Nobolo Mori e de alguns outros jogadores da cidade.

Horii também deixou a fama de filantropo, embora nunca gostasse de alardear isso. 

Mas após sua morte, era lembrado por ter ajudado muito a Associação Cultura Nipo-Brasileira (Bunkyo) de Mogi, na conquista do terreno para sua sede; foi ele quem cedeu terreno para construção da Escola Ambiental durante o governo de Junji Abe; colaborou sempre com a Apae de Mogi e na construção de um templo budista nas proximidades do Paradise, onde seu corpo foi velado, durante esta segunda-feira (17), antes do sepultamento, no São Salvador. Ajudou no desenvolvimento da Colônia Pindorama e muitas instituições ligadas à comunidade japonesa, em São Paulo.

Pessoa de poucas palavras, seus amigos cunharam uma frase sobre ele, que ficou famosa, no livro “O Rei do Caulim”,escrito para comemorar seus 80 anos de vida:

“Fumio não fala, Fumio age”, diziam aqueles que o conheciam mais a fundo. E com toda a razão.

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