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ARTIGO

Trindade satânica

O DiárioPublicado em 07/01/2021 às 16:54Atualizado em 08/01/2021 às 08:21

Crivella, pastor evangélico que se dizia íntimo de Jesus, se tornou prefeito da mais bela cidade brasileira por conta disso. Agora está usando tornozeleira eletrônica. Não é estranho, em se tratando do Rio de Janeiro. Parece que os cariocas, ultimamente, só têm como opções de escolha o revólver ou a Bíblia. Nas aprazíveis terras fluminenses e principalmente na Cidade Maravilhosa, hoje quem manda é uma “satânica trindade” formada pelo tráfico, a milícia e os tais evangélicos neopentecostais. Essa trindade elege deputados, senadores, prefeitos e governadores. Há quem diga que até o presidente tem parte nisso. 

Exageros à parte, há evidências muito comprometedoras de que essa aliança espúria realmente exista e seja hoje a força que comanda, não só o Rio de Janeiro, mas que também já lançou ramificações profundas no país inteiro. 

Percebi isso tempos atrás quando fui fazer uma palestra em Itaguaí, na Baixada Fluminense. A pessoa que me convidou para a palestra me levou para um tour na cidade. Itaguaí, como todas as cidades brasileiras estava sofrendo com a crise econômica. Notei centenas de casas comerciais fechadas. Mas em cada esquina havia um templo evangélico com denominações esquisitas. Notei que a minha cicerone levava uma Bíblia no painel do carro. Perguntei se ela era evangélica. Ela disse que não, mas aquela Bíblia era o seu passaporte para entrar, sem problemas, em determinados bairros. Disse-me também que a associação entre o tráfico, a milícia e os “líderes evangélicos” era coisa visível e conhecida por todo mundo ali. E que todos sabiam que boa parte dos tais “templos” nada mais eram do que “pontos” de distribuição de drogas e lavagem de dinheiro. Quem comandava a política carioca eram os traficantes, os milicianos e os falsos evangélicos. 

O episódio Crivella colocou em evidência essa associação entre o revólver e a Bíblia ao apontar a chamada Igreja Universal do Reino de Deus como uma possível lavanderia do dinheiro sujo que circula nesse meio. É possível que o Ministério Público esteja cometendo uma injustiça ao generalizar o caso, apontando toda uma organização como associada à essa podridão que tomou conta da vida social, religiosa e política do Rio. Mas não é de hoje que algumas coincidências significativas estejam sinalizando que alguma coisa nesse sentido esteja acontecendo. 

Talvez seja o crime organizado que está se aproveitando da forma pouco ética que esse grupo religioso usa para pregar as suas mensagens. 

 Os fatos existem e precisam ser apurados. Crivela, Sérgio Cabral, Picciani, o casal Garotinho, Witzel, Eduardo Cunha... São evidências demais para serem ignoradas.  No cinema, ver um pastor pistoleiro impondo a ordem numa cidade sem lei pode ser uma comédia. Mas na vida real é pura tragédia.

João Anatalino Rodrigues é cronista e presidente da Apae de Mogi das Cruzes 

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