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RITO DE DESPEDIDA

Contadores de Mentira dão um passo para cada pessoa morta por Covid no Brasil

Entre Suzano e Salesópolis, a caminhada/rito ‘Passos Para Quem Partiu’ começou na última sexta e terminou nesta segunda-feira, totalizando 550 mil passos dados

Heitor HerrusoPublicado em 02/08/2021 às 18:06Atualizado há 4 meses

557 mil mortos por Covid-19 no Brasil. 557 mil passos dados em um ato simbólico, em solidariedade a tantas vidas que se foram. A ação é do Teatro Contadores de Mentira, de Suzano. Atores, atrizes, diretores, diretoras, artistas: eles saíram em caminhada na madrugada da última sexta-feira (30), tendo como ponto de partida a sede em fase final de construção, em solo suzanense. O destino final foi alcançado em Salesópolis, 90 quilômetros longe dali, quando a jornada chegou à nascente do Rio Tietê nesta segunda-feira (2).

Os Contadores foram a pé, é claro. O objetivo é promover uma reflexão, ou para ser mais exato, um rito denominado ‘Passos para Quem Partiu’, em homenagem a tantas vítimas do novo coronavírus.

O destino não é aleatório. A nascente do Rio Tietê foi selecionada a dedo, para que o ato pudesse ser finalizado “encontrando de novo a vida, o renascer, a pureza”. Até que atingissem este ponto, os participantes promoveram “momentos ritualísticos e performáticos que simbolizam a entrega” de todos. E lá chegando, houve celebração especial.

Ao longo da caminhada, os Contadores de Mentira enfrentaram frio próximo de 0ºC com direito a geada e outras adversidades. Mas não pararam. Seguiram em frente, em um processo registrado, filmado, fotografado e publicado nas redes sociais. Mas não deve sair daí um filme, um documentário ou mesmo uma série.

“A caminhada é o fim por si só. É o ato”, define a atriz e gestora Daniele Santana, que explica porque não foram convidadas muitas pessoas para além dela própria, do diretor Cleiton Pereira e poucas outras participar: “não podemos aglomerar, e é um grande percurso, que precisa de resistência”.

Apesar disso, ela – e também todo o grupo – deseja que as pessoas, principalmente aquelas que perderam seus familiares, saibam que “em algum lugar tem um grupo de pessoas que fez um ato em prol do rito de despedida que não foi permitido às pessoas que morreram”.

A ideia surgiu quando, à medida que o tempo passava, a pandemia continuava. Então, “no lugar de ser aglutinador de pessoas, comungar várias coisas e criar um ato performático que interfira naquele momento no ambiente”, o grupo decidiu fazer este ato simbólico, mas ainda assim bonito, sensível e importante.

Com esta ação, os Contadores de Mentira cumpriram a promessa de “fazer um rito para os corpos que estão ausentes” e deram “um passo para cada pessoa que morreu de Covid-19 no Brasil”. Mais do que isso, como define o ator e ativista K.iqui Calisto, “ofereceram como banquete o corpo, pele, carne e osso às mais de 550 mil vidas perdidas, vítimas também do negacionismo, ódio e desprezo”.

Antes de finalizar, ele, que também é ativista, lembra “de não esquecer a importância de cada vida, do outro, dos sentidos de afeto, daqueles e daquelas que já não podem mais sentir os passos...”

Festival

O rito ‘Passos para Quem Partiu’ pode ser considerado o primeiro movimento do festival ‘Estirpe – Encontro para Celebração e Rito’, que será realizado pelo Contadores de Mentira ente os próximos dias 14 e 29 deste mês de agosto, com quase 50 atividades e “vários países participando” de oficinas, palestras, performances, teatro, música e justamente “ritos”, que costuram os três atos principais.

Evento bienal não realizado em 2020 durante a pandemia, o ‘Estirpe’ volta agora, em uma versão online, mas que mantém a mesma característica das duas primeiras edições: a dramaturgia. “Todos os trabalhos têm curadoria bem pensada para que possam se completar dentro da temática proposta em cada edição. Como é um festival que se embasa na nossa pesquisa da antropologia teatral, ele também é permeado pelos ritos e banquetes”, diz Daniele.

É aí que entra a caminhada, fazendo a costura do tema deste 2021: ‘Ode Aos Profanos’. Este norte permite “fazer exaltação a todas as pessoas que estão resistindo no Brasil e no mundo, ainda criando, buscando liberdade, possibilidade de se expressas, manter suas tradições, ancestralidades vivas”.

O tema também traz uma provocação com a palavra “ódio”. “É o que a gente tem combatido, o ódio”.  Nesse sentido, o primeiro ato traz o “corpo ausente”, o segundo a “preservação dos sentidos”, e o terceiro finalmente a “ode aos profanos”.

Entretanto, tudo será diferente do que se costumava ver em outros anos. Afinal o mundo está distante do “contexto presencial”, quando havia banquetes, com direito a “epopeia e apoteose”. Mas a caminhada que se conclui nesta segunda (2) mostra que eles sabem como transportar os sentimentos certos para o ambiente online.

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