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Coração de poeta: um leitura sobre Henrique Abib

Ao som dos sambas “Diz que fui por aí”, “Folhas Secas” e muitos aplausos, o corpo do músico e compositor Henrique Abib Nepomuceno, deixou o Velório Cristo Redentor para ser sepultado no jazigo das famílias Abib e Andere, no Cemitério São Salvador, em Mogi, nesta quinta-feira (6). Terminava dessa forma, com amigos cantando músicas de […]

9 de julho de 2023

Reportagem de: O Diário

Ao som dos sambas “Diz que fui por aí”, “Folhas Secas” e muitos aplausos, o corpo do músico e compositor Henrique Abib Nepomuceno, deixou o Velório Cristo Redentor para ser sepultado no jazigo das famílias Abib e Andere, no Cemitério São Salvador, em Mogi, nesta quinta-feira (6).

Terminava dessa forma, com amigos cantando músicas de Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, alguns de seus compositores favoritos, a vida atribulada de alguém que soube conquistar e cultivar amizades.

Henrique Abib morreu aos 65 anos, vítima de um câncer fulminante que atingiu seu fígado e outros órgãos e que o levou a passar suas últimas semanas em um quarto do Hospital Luzia de Pinho Melo, que ele dividia com outros dois pacientes. Ali, ele recebeu o carinho de familiares e, ao mesmo tempo, doses frequentes de morfina para aliviar as fortes dores provocadas pela doença que, de tão agressiva, deixou aos médicos apenas a opção de ministrar cuidados paliativos, já que seu corpo, de tão frágil, não suportaria mais um tratamento à base de quimio ou radioterapia, como costuma acontecer em casos como o dele.

Abib deixou Mariana, Lívia e Arthur, filhos do primeiro casamento com Clícia, e a mulher Denise Benante, com quem dividiu os últimos tempos de sua vida. Deixou ainda órfãos uma legião de amigos, músicos e a cultura local, como foi ressaltado na homenagem que a Câmara Municipal de Mogi lhe fez, no mesmo dia de sua morte.

Abib foi, ao longo de toda a vida, um colecionador de amigos, os quais lhe eram fiéis a ponto de se mobilizarem para gravar, num único final de semana, um disco com músicas de sua autoria que ele pretendia fazer, mas que acabou sendo feito por um grupo formado por alguns dos melhores artistas mogianos que movimentou o Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam) para a gravação de suas 11 canções.
A iniciativa, liderada pelo músico Mateus Sartori, iria concretizar o projeto de seu amigo de infância.

Além de artistas locais, amigos de Abib, como Paulo Henrique (PH), Waldir Vera, Gui Cardoso, Lívia Barros, Aline Chiaradia, e o próprio Mateus Sartori, entre outros, o CD “Meu Quintal”, teve ainda as participações especiais do violonista santista Bruno Conde e do cantor, violonista e percussionista paulistano, Renato Braz, uma das vozes mais privilegiadas da MPB. Toda a parte instrumental foi produzida e gravada pelos músicos Danilo Silva e Evandro Reis.

Lembranças

A história do CD começou no ano passado, quando Abib decidiu colocar em prática um antigo sonho de gravar um disco só com músicas autorais. 

Com a ajuda de Sartori, se inscreveu num projeto cultural da Prefeitura de Mogi e foi contemplado com a gravação no Emam. Ele aguardava a finalização do processo, enquanto cuidava do repertório, selecionando as músicas de maior significado dentro sua carreira.
Mas com  a internação, a produção do CD caminhou para que músicos, amigos de longa data, o substituíssem nos vocais.
Coube a Sartori arregimentar os companheiros para que a gravação ocorresse em quatro dias. A operação exigiu apoio da tecnologia. Bruno Conde, por exemplo, que mora em Santos, gravou e enviou a base instrumental, com seu violão, para a canção “Tons” que o ex-secretário de Cultura de Mogi interpreta no CD.

Pedrão Abib gravou em Salvador (BA), onde reside, a música “Na Gafieira” e Renato Braz, afônico, só colocou sua voz nos arranjos de “Cambaio”, dias depois, em São Paulo. 

A internet se encarregou de trazer tudo isso até a cidade, onde os demais artistas gravaram no Emam, entre sábado (1º) e terça (4).
“Meu Quintal” é o quarto álbum de Henrique Abib, que também cantou duas canções gravadas num CD do músico Paulo Henrique: “Serra do Itapety” e “Um Pé”.

Nas plataformas digitais, como Deezer e Spotify, podem ser encontrados o primeiro disco de Abib, “O Filho do Quilombo”, um EP com quatro músicas, além dos álbuns “O Que Minh’Alma Velha Guarda” e “Teu Nome”.

“A ideia é subir ‘No Meu Quintal’ para as plataformas musicais, logo que o disco estiver finalizado, para que as pessoas tenham acesso fácil às músicas”, afirmou Sartori.

O novo disco

Coube Renato Braz interpretar “Cambaio”, sinônimo de trôpego, onde o autor mostra sua fé na vida e na capacidade de encarar as suas dificuldades (Apesar do peso/Sigo pela pirambeira/Ladeira abaixo, diacho/Quer saber o que eu acho/Dessa lamaceira/Coisa alguma).

Gui Cardoso cantou “Contrapartida”, em que Abib volta a mostrar-se corajoso diante das intempéries (Na contrapartida/O fio dos punhais/O mundo das coisas banais/Sangro, resisto, insisto e me volto/Pra onde tem o olhar/Vou indo). 

Aline Chiaradia, cantora sempre elogiada pelo compositor, interpretou “Manhãs na Aldeia”. Na letra ocorre a mistura de ecologia com as raízes indígenas dos brasileiros (Vim para evocar o Xamã/Vim para me encontrar/Na chuva, no vento que é para defender/As terras, a mata/Os rios, os entes/Os gentis, os quilombolas/A fauna e a flora deste lugar).

Outra cantora, Valéria Custódio, apresentou “Maria do Luar”, em que Abib evoca sua alma de boêmio, capaz de se extasiar, com poesia, diante do inevitável nascer do dia (Que bom que a lua não me esqueceu/Olha que o dia amanheceu/E ela insistiu em permanecer no céu/Me acompanhando/Maria não). 

Para Waldir Vera ficou a responsabilidade de cantar as memórias de infância de Abib, retratadas na letra de “Meu Quintal”, música que dá nome ao CD, na qual o autor relembra o passado e as brincadeiras nos fundos da antiga casa onde morava (No meu quintal/Havia um poço profundo/Um pé de limão/Um caramanchão/Tinha varal/E as roupas de um vasto mundo/Que vestiam sonhos/Naqueles meninos).

Pedrão Abib interpretou “Na Gafieira”. Nela, Abib prefere contar vantagem. (Sou homem sem eira e nem beira/É o seguinte: é pegar ou largar/Mas só se você for solteira/Mas só se for na gafieira/ Meu coração quer sambar). Junto com Pedrão cantaram também os demais participantes do disco.

Paulo Henrique, o PH, interpreta “Navegador”, onde, o autor volta a falar da vida (Na calmaria, consulto as cartas/E os astros na imensidão/O rastro dos dias/A estrela guia/Meu coração/Que é para merecer/Que me abracem no cais/Do bom tempo).

Mais lembranças de infância vêm com “O Maquinista”. Lívia Barros interpreta a história do menino apaixonado por trens, que virou maquinista da antiga Central do Brasil (Levando vagão da vida/E vidas em cada vagão/Chegadas e partidas/ Vidas a cada estação).

Guilherme Bandeira canta Sambaqui (Manda rodar/Esse f  filme tantas vezes vi/A história é o xis da questão), música que acabou abrindo o disco, com críticas à situação do País no governo do capitão Bolsonaro; enquanto Evandro dos Reis interpretou Temporal (Temporal vem lá/Melhor correr/O meu coração tá no varal/Há dias que não faz sol/O meu peito encharcou/Eu vou recolher/Tem que secar).

Coube a Mateus Sartori, grande amigo de Abib, acompanhado pelo violão de Bruno Conde, cantar a canção “Tons”. Nela, o autor mistura os tons da música, lembrando que os acordes em menor soam tristes demais, os tons das cores, que ele prefere os pastéis, para amenizar o calor; mas, por fim, sucumbe diante de um tom mais importante (Prefiro o tom contido/Ao desmedido ou sem pudor/Contudo o meu preferido/O que me faz mais sentido/ É o tom do amor).

“É isso! Tá feito!”

Pouco tempo antes de falecer, o músico e compositor Henrique Abib ainda pôde ouvir atentamente e até comentar o CD “Meu Quintal”, com músicas de sua autoria, gravado pelo grupo de artistas mogianos, numa derradeira homenagem ao amigo. 

Mateus Sartori, responsável pela produção e arregimentação dos músicos, além de ter participado do disco, levou o produto final, na quarta-feira (5), pela manhã, até o quarto do Hospital Luzia de Pinho Melo, onde Abib passou as últimas semanas. Foi emoção de ambos os lados.

Sartori chegou por volta de 8h30, quando lá estavam médicos e um grupo de estudantes de Medicina, avaliando outros dois pacientes que estavam ao lado. Abib estava sentado sobre a cama, quando os médicos, sabedores de seu estado muito grave, priorizaram a oportunidade para que ele pudesse ouvir suas músicas. 

“Cheguei e ele estava mal, agitado”, contou Sartori, num relato enviado a todos os participantes do projeto do CD.

Para tentar contornar aquela situação, o ex-secretário de Cultura de Mogi passou a conversar com Abib sobre o disco, relatou detalhes do processo de gravação. Por fim, com a ajuda de Isabel, sempre presente ao lado do irmão, ajeitou a máscara, colocou um fone “bem confortável” sobre os ouvidos do amigo e apertou o play do aparelho celular, que iria reproduzir as músicas.

“Começar com ‘Sambaqui’ foi ótimo. Primeiro, porque ele curte pacas essa música que faz referências ao ‘inelegível’ (Jair Bolsonaro)  e, segundo, que o Gui (Guilherme) Bandeira é o queridinho dele (rsrsrs)”, relatou Sartori.

Quando acabou a música, Abib sorriu e disse, satisfeito:

“É isso! Que lindo!”

À medida que as músicas iam sendo ouvidas, Abib ficava mais calmo. 

“A cada cantor que entrava, ele sorria. E assim foi, música a música”, disse Sartori, que ouviu o amigo tentar cantarolar algumas delas e elogiar a voz de Valéria Custódio, ao interpretar “Maria do Luar”. O músico já conhecia Valéria, mas não teve oportunidade de vê-la no palco, cantando.

Sartori também justificou para Abib a ausência de Renato Braz, a quem caberia a interpretação de “Cambaio”. Resfriado e totalmente afônico, Braz não conseguiu gravar, mas se comprometeu enviar a voz para ser colocada no disco ainda esta semana. 

Sartori interpretou a música provisoriamente para que o amigo pudesse acompanhar. E Abib fez elogios aos arranjos, assim como à música “Tons”, que o próprio Sartori cantou no disco.

Mas nem tudo foram flores. Ao chegar à música “Temporal”, Abib mostrou que os ouvidos continuavam apurados e questionou:

“O que é essa lata que está tocando? (rsrsrsrs) Acho que é o aro do surdo”, disse ele, comentando a imperfeição que seria corrigida durante a finalização do disco. Abib ainda completou, bem-humorado: “Esse não é o surdo de primeira da Mangueira (rsrsrsrs), mas tá bonito”, garantiu.

Nas faixas finais do CD, o autor bem que tentou cantarolar junto com os intérpretes, mas as forças já lhe faltavam. 
Abib se mostrou feliz ao ouvir todos os participantes do disco cantando, juntos, a música “Na Gafieira”.
Quando terminou a última música, fez o balanço final. 

Disse que gostou de tudo. 

Avaliou o disco dizendo que, em alguns momentos era “jobiniano”, numa referência às bossas e sambas nele contidos; em outros, o disco era mais “Minas”, citando canções que lembravam mais o som das Gerais. 

Ele e Sartori ainda conversaram sobre a capa do disco que, por conta de suas correções, não trará uma foto do compositor, mas uma ilustração com os principais referenciais do quintal de sua casa, citados na música “Meu Quintal”,  interpretada por Waldir Vera e que dá nome ao disco. 

Caberá ao ilustrador André Otani desenhar a capa, onde o terreiro terá o mastro de São João, limoeiro, caramanchão e varais com “as roupas de um vasto mundo, que vestiam sonhos naqueles meninos”, como mostra a poesia escrita pelo autor. 

Por fim, agradeceu, agradeceu, e agradeceu a todos pelo trabalho, emocionado.

Sartori ainda lhe perguntou se gostaria que deixasse as gravações, fones e tudo mais no hospital para ele continuar ouvindo o disco. Eram cerca de 10h30. E Abib lhe respondeu:

“Não precisa! Está feito! É isso!”.

Henrique Abib morreria alguns minutos depois. 
Por volta do meio-dia.

 

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