“Negro, branco, rico, pobre / O sangue é da mesma cor / Somos todos iguais / Sentimos calor, alegria e dor […] Pouco me importa sua etnia / Religião, crença, filosofia […] Seja o que quiser ser”. Estes são alguns dos versos da canção 'Bate a poeira', de Karol Conká, que foi o tema da 'Malhação: Viva a Diferença'. Na música, as mensagens são as melhores possíveis. Mas na “casa mais vigiada do Brasil”, a cantora tem sido apontada como o exato oposto. O Diário ouviu a opinião de dois rappers da cidade sobre as falas e atitudes vistas pelo público no 'Big Brother Brasil'.

Autora de dois discos de rap ('Batuk Freak', de 2013, e 'Ambulante', de 2018), Karol Conká é representante de diversas bandeiras. Mulher, artista, negra, mãe, trabalhadora. Hoje, porém, sua arte e história deram lugar a apontamentos: racista, xenofóbica, intolerante religiosa, contraditória. Em outras palavras, "cancelada", “vacilona”.

Rapper mogiano, Marcos Favela explica que as falas de Karol na casa “não compactuam com que existe dentro do rap”. Ele explica que o gênero musical “nasceu às margens da sociedade, nos Estados Unidos, como um movimento onde pessoas sem infraestrutura não tinham recursos para se expressar, e encontraram na voz um meio para fazer isso”.

Por ser um movimento “marginal", ele diz que seus representantes “não devem nunca” ultrapassar temas como “a falta de respeito com o próximo, xenofobia, racismo”. Para o rapper, que a exemplo do que fez no disco 'Veganize-se', enxerga no rap uma ferramenta de militância, é natural que seus praticantes “sejam contra qualquer tipo de preconceito e linguagem de ódio”.

Favela, que tem um home studio onde grava a música de pessoas dos mais diversos “gêneros, raças e religiões”, compara as atitudes de Karol à expressão “falso profeta”. Ou seja, aqueles que “tem discurso maravilhoso de desconstrução, mas na real são opressores”.

“Tenho por mim que a maioria que alcança o mainstream acaba sendo seduzido pelo meio opressor e usa a mesma linguagem que oprime”.

Embora concorde e enxergue falhas no que Karol Conká vem exibindo em rede nacional, Niw Rapper faz uma observação muito importante. “É como se fosse uma árvore com várias frutas podres. Se balançar, vai cair um monte. Ela é uma pessoa que não é boa, é falha. Mas fez uma obra muito bacana, muito interessante”.

Niw toma cuidado para tornar afiadas demais as palavras. “Não me coloco no lugar de julgar, porque eu separo muito a arte do artista”, diz ele, que se decepcionou também com o Projota, outro rapper que integra o elenco do 'BBB 21' e que vem sendo “cancelado” nas redes sociais”.

Para Niw, que tem canções com rimas antiracistas, esse movimento de apontar as falhas é resultado “de uma sociedade mais analítica”. Feliz por ver que assim como a Lava Jato movimentou interesse pela política, os reality shows fazem com que as pessoas “acordem e enxergem onde está a intolerância, o racismo e a xenofobia”, ele faz um alerta: é preciso prestar atenção no discurso.

“Dependendo de quem fala, existe muita incoerência no discurso. O problema é esse. Conseguir fazer uma mensagem bacana na obra e absorver isso para a vida”.

Quem completa o pensamento é Favela, enxergando nesse tipo de situação uma oportunidade para que as pessoas busquem mais proximidade com a realidade, “por meio dos artistas independentes, underground”.

Com a palavra mais uma vez, Niw finaliza. “Mainstream é uma parada que envolve dinheiro, muito dinheiro. E por dinheiro as pessoas fingem ser quem não são. É um lugar meio confuso para dizer o que é a cultura. Mas quem está no underground, segue por amor. Conversar com uma pessoa dessas é muito melhor para absorver o que é a cultura do rap”.

KAROL EM 5 POLÊMICAS

1) Assédio moral e tortura psicológica: contra o participante Lucas Penteado em diversas situações, mas principalmente quando, durante uma refeição, ordenou que ele não comesse na mesa com ela e os outros brothers.

2) Xenofobia: contra a sister Juliette, ao imitar o sotaque e se referir à ela, que é da Paraíba, como mal educada por ter nascido no estado do Nordeste.

3) Intolerância religiosa: ao zombar da umbanda, religião de Lucas Penteado, dizer que rezaria um “Pai Nosso” para ele e o questionaria “Onde está seu Deus para te ajudar neste momento de loucura?”

4) Ameaça de violência: ao dizer que tinha vontade de “dar uma voadora, soco e murro” em Lucas Penteado.

5) Assédio sexual: após diversas investidas, Karol Conká arrancou um beijo de Arcrebiano, o Bil, que parecia não estar confortável com a situação.

PROCESSOS

A rapper é alvo de mais de 20 comunicações ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Aliás, após sair da casa, Lucas Penteado já anunciou que a processará cível e criminalmente.

SHOWS CANCELADOS

Apesar de ter frisado na casa que tem “uma carreira” no mundo real, Karol Conká já teve a participação cancelada em dois festivais: Festival Rec-Beat e Rock The Mountain. A estimativa da agência Brunch é que a cantora tenha um prejuízo de até R$ 5 milhões, considerando também perdas publicitárias.