CIRCUITO

Débora Abdala: todos os dias, novos casos, desafios e histórias

(Foto: divulgação)

O Circuito de hoje é com a médica Débora de Barros Abdala, especialista em Clínica Médica, sobre a pandemia do novo coronavírus. Para ela, que já trabalhou no Sistema Único de Saúde (SUS) mas que hoje se dedica exclusivamente à rede particular da cidade, a situação, embora ainda seja assustadora, “já não parece estar fora de controle”, já que “o medo do desconhecido dá lugar ao trabalho técnico e seguro”. Neste espaço, ela lamenta as perdas provocadas pela Covid-19, faz um balanço sobre a evolução da doença e comenta como será o mundo quando esse vírus não for mais uma ameaça.

(Foto: divulgação)

No início de maio, em entrevista ao jornal O Diário, a senhora relatou que “nunca tinha imaginado viver uma pandemia”. Hoje, meses depois do início da quarentena, a situação ainda é assustadora?

Observando a situação dos hospitais, racionalmente assusta sim, quando pensamos que ainda há alas inteiras reservadas pra uma mesma doença. Todos os dias com novos casos. Novas histórias. Novas conquistas e algumas derrotas… Mas depois de mais de três meses vivendo diariamente a mesma situação, as mesmas angústias – sejam dos pacientes ou dos seus familiares – é como se a gente se acostumasse. Não que a gente se acostume com uma pandemia, mas quanto mais a gente está dentro dela, mais a gente aprende, e a razão vai tomando conta do medo inicial. E o medo do desconhecido dá lugar ao trabalho técnico e seguro.

Nesta mesma entrevista a senhora destacou a importância de olhar para o sistema público de saúde fora do raio Alto Tietê/São Paulo. O que tem a dizer sobre isso?

Eu sou formada em Mogi das Cruzes, pela UMC, então praticamente todo meu internato durante a faculdade de Medicina foi realizado no Hospital das Clínicas Luzia de Pinho Melo. Na sequência, fiz residência de Clínica Médica também no Luzia, onde ainda trabalhei por alguns anos na Sala de Emergências. Temos hospitais com infraestrutura adequada e capital humano técnico e dedicado. Estamos há menos de uma hora da capital, e temos como recorrer a esta “rede de apoio” em saúde. Mas quando olhamos regiões menos estruturadas, nos deparamos com estados e cidades que já vivem dificuldades importantes nos sistemas de saúde, em condições normais. Que é exatamente o que vimos acontecer em Manaus, em muitas cidades do Pará e em hospitais do Rio de Janeiro. Nesses locais, o que funcionava adequadamente antes se deparou com problemas. E o que já não funcionava, tornou-se um verdadeiro caos.

Algo que tem visto ou presenciado como médica durante a pandemia a surpreende positiva ou negativamente?

São tantas experiências que é difícil elencar. A primeira situação peculiar, e diria que surpreendente, foi observar que muitos colegas se sentiram inseguros de continuar na linha de frente. Não cito isso como crítica, porque entendo que cada indivíduo tem seu tempo de compreensão e aceitação. Mas sim como forma de mostrar a população em geral que não só o paciente mas o profissional de saúde também tem seus medos e angústias, e isso se tornou mais intenso neste momento. Positivamente vejo a valorização do profissional da saúde. Por conta do isolamento, o contato das famílias com a equipe médica é sempre e somente por telefone; e nos deparamos com pessoas muito gratas e compreensivas conosco. Sempre torcendo pelo nosso trabalho e nossa segurança. Isso nos traz uma energia muito boa pra seguir por todos esses dias.

Como descreveria a estrutura dos locais em que a senhora atua como médica? Há, por exemplo, capacidade para receber pacientes de cidades vizinhas?

Atualmente dedico 100% do meu tempo para a rede particular. Onde estou, montamos protocolos bem detalhados e reorganizamos toda a logística do hospital, antes mesmo dos primeiros casos. Isso tornou o trabalho, embora intenso, organizado e mais seguro. Diariamente nos deparamos com pacientes de todo o Alto Tietê, e não só de Mogi. Percebo que maio foi um mês mais complicado e com casos transferidos inclusive de São Paulo capital. Neste momento estamos numa situação, embora ainda muito movimentada, mais estabilizada em relação ao crescimento dos casos. Seguimos com capacidade de atendimento, não só pra Mogi das Cruzes, como para toda a região do Alto Tietê.

Como médica, como diria que a situação evoluiu desde o início da pandemia, de modo geral?

Como citei anteriormente, agora a situação já não parece estar fora de controle. Já entendemos a evolução da doença de forma mais detalhada, já temos estudos indicando estratégias direcionadas de tratamento, e tudo isso auxilia muito o dia a dia dentro dos hospitais. O fato dos primeiros casos oficiais terem chegado ao Brasil depois de muitos países já terem passado pelo problema permitiu que usássemos as experiências dos outros países pra traçarmos estratégias adequadas aqui.

Acredita que o novo coronavírus tenha trazido algum aprendizado para a sociedade?

Espero que sim! Além dos hábitos de higiene respiratória, tão falados atualmente, espero que novas rotinas sejam criadas. Mas, muito mais importante que isso, vejo que estamos aprendendo a dar real valor às pessoas. Em um tempo onde uma mensagem de WhatsApp substituía muita coisa, ficou claro como a presença física das pessoas nos faz falta! Uma mensagem já não é mais suficiente, uma ligação não substitui um abraço; a tecnologia não consegue acolher. Torço muito pra que, ao fim disso tudo, saiamos maiores e melhores.

E o que pode ser dito sobre as perdas provocadas pela pandemia?

Puxa vida… são tantas perdas, não é? Perdemos momentos, encontros, liberdades… Famílias afastadas, casamentos cancelados, empresas sendo fechadas, amigos distanciados. Mas nada é tão triste quanto a perda de vidas. Para aqueles que gerenciam este momento de crise, pode ser uma estatística complicada de ser resolvida. Porém, para quem perde um ente querido, é uma tristeza difícil de ser consolada. É um luto sem abraços, uma despedida solitária e repleta de incertezas.

Como deve ser a vida após a Covid-19?

Eu acredito que vai demorar a retomarmos a vida como era antes. As pessoas têm medo de um abraço ou de uma aproximação física. Falo por mim, como profissional diretamente envolvida nos atendimentos dos pacientes com Covid-19, que me sinto constantemente como um “campo minado”. A gente não sabe se está contaminado, se está transmitindo algo pra alguém… E este é um sentimento unânime. Por isso acho que vai demorar a abraçarmos um familiar sem receio, sair pra conhecer novos lugares com tranquilidade.

Notícias falsas seriam menos disseminadas se as pessoas acreditassem mais na medicina e na ciência. Como fazer com que isso aconteça?

Sem dúvida, se as pessoas acreditassem mais em orientações técnicas, e menos em “achismos”, seria menos pesado passar por tudo isso. Dia desses, um familiar de um paciente não aceitava o diagnóstico de coronavírus por simplesmente achar que não fosse possível acontecer. Ainda acredito que o maior problema destas questões é ver tantos representantes políticos usando a situação como palanque eleitoral. Isso tira o crédito de ações tecnicamente adequadas e gera dúvidas e questionamentos constantes.


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