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Imigração taiwanesa completa 56 anos em Mogi das Cruzes

REFERÊNCIA A Igreja Presbiteriana de Formosa, no bairro do Mogilar, é ponto de encontro e de orações da maioria dos taiwaneses que reside em Mogi e na região. (Foto: Elton Ishikawa)
REFERÊNCIA A Igreja Presbiteriana de Formosa, no bairro do Mogilar, é ponto de encontro e de orações da maioria dos taiwaneses que reside em Mogi e na região. (Foto: Elton Ishikawa)

“Farei a partir de você uma grande nação; eu o abençoarei e farei com que seu nome se torne grande”. Estas foram as palavras de Deus destinadas a Abraão quando ele peregrinou até Canaã. A história do personagem bíblico inspirou a vinda de seis famílias de Taiwan para Mogi das Cruzes, em 1963. Elas, de fato, deram início a uma grande comunidade, que hoje é representada por mais de 600 famílias na cidade.

O grupo saiu do distrito de Chiong-Hòa, na região central do país oriental. A exemplo de Abraão, os 32 imigrantes buscavam uma oportunidade de desenvolvimento, já que Taiwan não vivia uma boa fase política e econômica. Foram 49 dias de viagem: eles embarcaram no dia 20 de agosto e atracaram, no Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1963. Um dia depois, desembarcaram no porto de Santos.

PASSADO Primeiro templo fundado pelos taiwaneses ainda está de pé, no bairro do Botujuru. (Foto: Elton Ishikawa)

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Durante este tempo a bordo, os passageiros não deixavam de demonstrar a fé: celebravam cultos e serviam a Deus como a razão central da vida. Por isso, os taiwaneses fazem um paralelo entre a criação da Igreja Presbiteriana de Formosa de Mogi das Cruzes, que hoje funciona no Mogilar, com a chegada dos imigrantes à cidade.

As famílias que vieram para o município tinham baixo poder aquisitivo, pessoas da roça que não encontravam terras e oportunidades em seu local de origem. Em sua dissertação de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Silvia Maria Damasceno Ribeiro Natário explica que “através de cartas, que antecederam a viagem, trocadas com parentes e amigos que moravam no Brasil, as famílias se informaram a respeito de uma cidade inserida na região do Alto Tietê, onde poderiam adquirir terras a baixo custo para lavoura”.

Era de Mogi que eles falavam. Primeiramente, os taiwaneses se acomodaram no Pindorama. De lá, foram para um culto em São Paulo e para isso sofreram com a falta de conhecimento da região, tendo de andar por muito tempo e muitos quilômetros. A partir disso, decidiram que não iriam mais para a Capital e começaram a fazer a celebração no próprio bairro. Em uma oportunidade se uniram para comprar um terreno onde seria implantada a igreja. Compraram um espaço no Botujuru – que existe até hoje – e no dia 3 de novembro passaram a fazer os cultos ali.

Com a vinda dessas pessoas, outros imigrantes criaram coragem para fazer a viagem. É o caso da família de Paulo Chiang, que chegou à cidade com um ano de idade e hoje está com 44. Por aqui, se estabeleceu, inicialmente, na casa de um tio-avô. “Na época, meu irmão tinha 7 anos e minha irmã, 6. Viemos nós três, juntos com meu pai e minha mãe. Ficamos uns quatro meses morando de favor na casa desse tio, mas meu pai não se sentia muito à vontade, achava que podíamos estar atrapalhando. Então, ele procurou um sítio próximo, também no Botujuru, para alugar”, relembra Chiang.

Esses imigrantes foram fundamentais para que o cultivo de cogumelo se tornasse tradicional em Mogi, já que eles deram início a essas plantações por aqui. Era isso, inclusive, que o patriarca da família de Chiang fazia na cidade. Durante sete anos trabalhou somente para pagar dívidas: tanto as que fez com a viagem, quanto as do aluguel do espaço. Depois desse tempo, conseguiu comprar as terras e a situação financeira melhorou. Paulo, por exemplo, é formado em Engenharia Civil e Direito e, hoje, é funcionário público concursado.

Outros taiwaneses, ou até mesmo os descendentes, seguem esse exemplo. E, atualmente, além do cultivo do cogumelo, essas pessoas desempenham as mais diversas atividades na cidade, como médicos, dentistas, engenheiros, além de seguirem outras profissões.

País tem renda per capita bem maior que a do Brasil

Em Taiwan, a moeda corrente é o novo dólar taiwanês. Os moradores elegem seus parlamentares e também a presidência – que pela primeira vez está sendo ocupada por uma mulher, Tsai Ing-wen. O local conta com um passaporte próprio. Ainda assim, há uma ampla discussão em relação à soberania da ilha de 35.980 km², que em 1912 teve a República estabelecida. Por 212 anos a área pertenceu à China, que hoje a considera um “território rebelde”. Os taiwaneses, por sua vez, pensando em um Estado autônomo, a consideram um país.

AGITAÇÃO Principais cidades do País têm vida noturna intensa e um comércio bem movimentado. (Foto: reprodução)

Oficialmente, o lugar é nomeado de República da China (RC), um Estado insular localizado na Ásia Oriental, que conta com 23.577.271 habitantes, segundo levantamento de 2017. A densidade populacional está por volta dos 650 habitantes por km². O Produto Interno Bruto (PIB) total está estimado em US$ 603 bilhões, resultando em uma renda per capita de US$ 25.534. O Brasil, por exemplo, tem um total de US$ 2,141 trilhões, com apenas US$ 10.309 de rendimento per capita.

A última publicação do Índice de Desenvolvimento Humano publicada referente à Taiwan foi em 2017, com base no ano de 2015. Neste período, o IDH era de 0,885. Número que é considerado muito alto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da Organização das Nações Unidas (ONU). A Capital é Taipé. Situada no extremo norte da Ilha Formosa, a cidade é um enclave do município de Nova Taipé e tem, segundo dados de 2018, 2.674.063 habitantes.

Governo vai marcar a data com monumento

Mogi das Cruzes foi um importante abrigo para os taiwaneses que vieram para o Brasil de navio, há 56 anos. Por isso, a cidade será presenteada pelo governo taiwanês com um monumento em celebração à imigração. A peça será inaugurada no próximo domingo, no Botujuru, no espaço que abrigou a primeira Igreja Presbiteriana de Formosa no Município.

“O evento vai contar com a presença do cônsul de Taiwan no Brasil e também com representantes de toda a comunidade taiwanesa que estão espalhados pela América Latina. Então, estarão presentes pessoas da Argentina, Chile, Paraguai e de vários outros países”, revelou Paulo Chiang, que auxilia nos serviços gerais da igreja.

Inicialmente, os participantes serão levados para a unidade da igreja que fica na Avenida José Benedito Braga, 416, no Mogilar. Por lá, assistem um culto, às 10h30 e depois almoçam. Na sequência, eles irão para a Avenida Francisco Rodrigues Filho, 7.046, no Botujuru, onde acontece a cerimônia de entrega do monumento.


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