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FOLCLORE POLÍTICO (CLXXIX)

“Pindura” fora de hora no bar do Português

O mogiano Chico Torres e Jânio Quadros beberam tanto que nunca mais se lembraram de pagar a conta. A nota assinada por ambos virou troféu com Jânio na Presidência

Darwin ValentePublicado em 23/04/2021 às 11:58Atualizado há 2 meses

Francisco de Paulo Morais Torres, o Chico Torres, poderia ter passado boa parte de sua vida em Mogi das Cruzes, onde seu pai foi, por muito tempo, agente dos Correios, não fosse sua opção pela vida acadêmica. E que vida! Depois de completar os estudos no Colégio Arquidiocesano, em São Paulo, ele acabou indo parar na Universidade de São Paulo, onde se transformou naquilo que poderíamos chamar de “estudante profissional”. Ou seja, aquele aluno que jamais termina o curso e encontra sempre uma maneira de continuar convivendo com os amigos que vão se renovando, enquanto ele permanece frequentando as salas de aulas e alojamentos escolares. Além dos mesmos botecos, é claro. Chico Torres era, acima de tudo, um boêmio, que costumava varar as noites em saraus ou nos bares próximos da USP, onde se tornou conhecido por sua intimidade com uma cachacinha, não importando a marca. Foi ainda no Arquidiocesano que ele conheceria um aluno que, bem mais tarde, iria se inclinar, em definitivo, para os lados da política. Jânio da Silva Quadros tornou-se grande amigo de Chico Torres. E assim continuaram, quando ambos passaram a conviver sob as arcadas do prédio da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Uma noite, os dois universitários se encontraram no bar de um português, nas proximidades da USP, e decidiram tomar alguma coisa para se aquecerem. Uma, duas, três, quatro doses e muitas outras. Chico e Jânio já estavam literalmente “altos” quando decidiram deixar o boteco e, só então, descobriram que ambos estavam sem um mísero tostão nos respectivos bolsos. Mas como eram conhecidos do “Portuga”, assinaram a nota de débito e foram embora. O fogo, no entanto, havia sido tão forte que os dois se esqueceram por completo da dívida. O tempo passou, Chico continuou na escola e Jânio se enveredou pela política. Foi vereador, deputado e... finalmente, presidente da República. Foi quando o português do boteco mandou colocar a nota assinada por Jânio e Chico num quadro, que ganhou espaço nobre na parede de maior visibilidade de seu bar. A prova do “pindura” fora de hora permaneceu lá por um longo tempo e, a cada um que perguntava sua origem, o Português repetia a história. Para a coluna, quem contou o caso foi uma das grandes figuras de um passado nada distante aqui de Mogi: José Carlos Miller da Silveira, o nosso sempre festejado e querido Professor Tuta, que, infelizmente, nos deixou faz algum tempo. Durante toda sua vida, Tuta foi sempre um maravilhoso contador de histórias de Mogi e seus personagens, que ele revelava, em detalhes, graças à sua prodigiosa e privilegiada memória. O Professor Tuta nos deixou em 3 de junho de 2019, aos 88 anos. Uma enorme perda para os amigos e para a cidade.

Campanha em Mogi 

Fernando Collor de Mello, candidato a presidente da República em 2018, tinha como principal bandeira o combate à corrupção e ao empreguismo, o que lhe deu o título de “Caçador de Marajás”. Em campanha por São Paulo, tinha visita marcada para Mogi das Cruzes, quando, a caminho da cidade, soube que seu anfitrião seria o chefe político local e ex-deputado Jacob Lopes, cassado por envolvimento no episódio do Mogigate. Collor manteve a visita. Sua carreata percorreu toda a cidade, com o candidato acenando para o público da carroceria de um carro. E foi embora sem falar com ninguém. Foi eleito presidente. Mas acabou cassado. Por corrupção.

Um ilustre visitante

Tuta era presidente municipal do PMDB de Mogi e atuava ao lado de Padre Melo na UMC, quando foi instado a intermediar um encontro com o pré-candidato a governador Barros Munhoz, que foi marcado para um domingo. Tuta foi de carro buscar o visitante que desceu, com seu helicóptero particular, no Centro Esportivo do Mogilar. Na UMC deserta, Melo recebeu Munhoz na sala da reitoria e pediu que o assessor deixasse o local. Quase duas horas depois, Tuta foi chamado de volta e encontrou os dois sorridentes. Tinham se acertado politicamente. E Munhoz foi levado embora, mas voltaria para uma carreata pela cidade. Acabou em quarto lugar na eleição de 1994, vencida por Mário Covas (PSDB), num segundo turno disputado com Francisco Rossi (PDT). Tuta jamais soube o que se passou de verdade entre aquelas quatro paredes da UMC.

“Suruba” e o “espermatozóide Careca”

A recente história da “Suruba Poética” que apareceu na programação cultural da Prefeitura de Mogi, marcada para este sábado, como parte do Festival Cultura em Casa-Mogi, e acabou bombando nas redes sociais, fez lembrar uma história dos tempos de Waldemar Costa Filho. Ao ler neste jornal que o Teatro Municipal seria palco de uma peça chamada “O Espermatozóide Careca”, monólogo do escritor Carlos Eduardo Novaes, interpretado pelo ator Vicentini Gomes, o prefeito se escandalizou e determinou que a apresentação fosse imediatamente suspensa. A censura do prefeito à peça virou notícia nos jornais (naquela época ainda não havia internet) e foi tudo que seus idealizadores precisavam para alavancar o espetáculo em todo o País.

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