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FOLCLORE POLÍTICO (CLXXVIII)

Quem quer ser prefeito de Mogi?

Em uma longa conversa com o amigo, em seu gabinete, Waldemar Costa Filho lhe perguntou se tinha sonho de ser prefeito de Mogi. E ele acabou sendo

Darwin ValentePublicado em 16/04/2021 às 16:17Atualizado há 2 meses
Foto: arquivo
Foto: arquivo

As eleições municipais de 1992 já haviam consagrado a “Dobradinha da Esperança”, formada por Chico Nogueira e  Padre Melo, como os futuros  prefeito e vice de Mogi, sucedendo Waldemar Costa Filho, que encerrava seu terceiro mandato. Ainda na Prefeitura, Waldemar costumava receber, com certa frequência, em seu gabinete, para longas conversas, o então presidente da Câmara Municipal, vereador José Antonio Cuco Pereira. Os dois trocavam informações sobre os fatos da cidade e, principalmente, a respeito dos bastidores da política doméstica. 

Cuco não escondia de ninguém que tinha a intenção de, um dia, vir a ser prefeito de Mogi das Cruzes, mas as oportunidades ainda não haviam surgido para ele que, por um ou outro motivo, acabava ficando de fora da lista dos concorrentes à Prefeitura. 

Waldemar sabia disso e, naquela tarde de quinta-feira surpreendeu o amigo com uma pergunta cuja resposta, ele sabia qual seria:“Cuco, você quer ser prefeito de Mogi?”

O interlocutor tremeu nas bases:“Ora, Waldemar... você sabe que sempre quis ser prefeito de Mogi. Mas por que você me pergunta isso, logo após uma eleição, quando ainda teremos quatro anos de mandato pela frente?

“Mas você quer ser prefeito, não quer?”- insistiu o interlocutor.

“Claro, mas se você me der apoio... Aí eu sairei candidato...” - respondeu Cuco, enquanto a conversa mudava de rumo. Minutos depois, Cuco deixaria o gabinete, ainda buscando encontrar um sentido para aquela conversa. Não achou e se aquietou.

No dia seguinte, ao chegar à Câmara para o último dia de trabalho da semana, foi avisado  pelo funcionário responsável pelo expediente. Logo nas primeiras horas da manhã, havia chegado um documento com um pedido de licença por 10 dias do prefeito Waldemar e outro idêntico, assinado pelo seu vice, Nobolo Mori. 

Sem o seu prefeito e sem o vice, a cidade teria de ser governada pelo presidente da Câmara. E só então o vereador Cuco Pereira entendeu o real sentido da conversa mal explicada de Waldemar, no dia anterior. E se emocionou. Afinal, mesmo não tendo sido eleito para tal finalidade, ele iria sentir o gostinho do que era governar Mogi das Cruzes, mesmo que fosse por um período de pouco mais de uma semana. 

Cuco preparou o terno e assumiu com toda pompa e circunstância que o momento poderia exigir, não sem antes convidar os amigos mais próximos para tomar um café com ele, durante a próxima semana, no gabinete do novo prefeito.

O vereador, que até o ano passado era o decano da Câmara, nunca chegou a disputar a Prefeitura, embora tenha sido vice do prefeito Marco Bertaiolli por dois mandatos. Entre as vezes que substituiu Bertaiolli e outras em que voltou à Prefeitura como presidente da Câmara, Cuco acabou sendo prefeito de Mogi por 12 vezes, um recorde ainda não quebrado por outros políticos da cidade.

Jacob, o mago

O empresário Jacob Cardoso Lopes foi um dos mais aclamados caciques políticos da história recente de Mogi. Já foi contado, aqui neste espaço, sobre o dia da eleição de 1992, em que ele chegou a Braz Cubas e encontrou o local abarrotado de cabos eleitorais do adversário Chico Nogueira. Vendo-se em desvantagem, Jacob procurou o chefe do grupo e lhe disse que havia passado pelo comitê do candidato e visto a maior confusão, pois estava acabando o dinheiro para pagamento dos cabos eleitorais. Em questão de minutos, todos correram para o comitê, no outro lado da cidade, deixando o espaço livre para os adeptos de Jacob. Mas as “magias” de Jacob durante as campanhas iam ainda mais além...

Bombas de tinta

Nas estratégias de Jacob para vencer uma eleição valia de tudo, numa época em que a fiscalização não era tão intensa quanto nos dias de hoje. E foi assim que, reta final das eleições municipais daquele ano, em Mogi, os outdoors dos candidatos do grupo político de Jacob amanheceram todos pichados, com sacos de tinta que eram atirados  e explodiam ao tocar a estrutura, sujando os rostos dos concorrentes. No dia seguinte, logo cedo, um Jacob Lopes indignado  estava nas emissoras de rádio da cidade denunciando a “ação desesperada” de seus adversários , “vendo que a eleição estava perdida”. Ele próprio fez questão de ir à Delegacia denunciar o fato e pedir providências ao delegado. Tudo documentado pelos repórteres. Anos depois,  integrantes de seu grupo político contariam que o próprio Jacob fora quem  articulara os ataques com tintas aos outdoors.

Votos antecipados

Em décadas passadas, os caciques políticos dominavam a cena nas eleições, principalmente no Nordeste. Gaudêncio Torquato, o consultor, conta a história do coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi (RN). Numa eleição, ele enviou as urnas da cidade só depois de 15 dias das eleições e levou uma sonora bronca do juiz eleitoral da Comarca de Mossoró. Recebeu o puxão de orelhas e prometeu se emendar. No próximo pleito traria mais cedo. E realmente trouxe. Três dias antes das eleições, ele chegou com um comboio de burros carregando as urnas. 

“Taqui as urnas de Apodi, senhor juiz”- disse.

“Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias...”

E ele: “Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problemas”.

O decano cuco

Um dos fundadores do Diretório Municipal do PMDB de Mogi, o ex-funcionário da Previdência Social, José Antonio Cuco Pereira, fez uma longa carreira política na cidade, parte dela pelo PSDB. Foi vereador por oito mandatos, duas vezes vice-prefeito e presidiu a Câmara por sete mandatos, o que o levou à Prefeitura por 12 vezes. No próximo dia 14 de maio completa 80 anos.

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