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FOLCLORE POLÍTICO (CLXXX)

Waldemar e as meninas da Zona Azul

As fiscais do novo tipo de estacionamento foram até o gabinete do prefeito para reclamar que estavam sendo alvos de chacotas por trabalharem na Zona Azul

Darwin ValentePublicado em 30/04/2021 às 16:59Atualizado há 1 mês
Foto: arquivo / O Diário
Foto: arquivo / O Diário

Eleito no ano de 1976 para o seu segundo mandato como prefeito de Mogi das Cruzes, Waldemar Costa Filho - cujo falecimento completou 20 anos no último dia 26 de abril - tinha a ligação rodoviária Mogi-Bertioga como sua principal e mais importante promessa de campanha, onde as pesquisas apontavam a obra como a maior aspiração dos mogianos, à época. 

A construção da estrada pelo município não impediu que Waldemar - recebendo mais dois anos de governo por conta de uma prorrogação de mandato determinada pelos militares de plantão no período - também construísse os prédios da Câmara, Prefeitura e Justiça do Trabalho, levando ainda asfalto, creche e saneamento para Braz Cubas, por meio do Projeto Cura, um financiamento a fundo perdido do governo federal. No mesmo período, Waldemar ainda levou asfalto para diversas ruas da Vila Oliveira, por meio de um plano comunitário que dividia com os moradores os custos da obra realizada pela Prefeitura. 

Era um tempo de novidades e de outras realizações. Uma delas foi a implantação de Zona Azul para facilitar o estacionamento nas ruas centrais da cidade, cópia de um sistema semelhante, recentemente adotado, com grande sucesso, pela Prefeitura de São Paulo. 

O motorista estacionava seu veículo no espaço pré-determinado e logo aparecia uma simpática moça para lhe oferecer um cartão que, depois de adquirido, lhe dava o direito de permanecer na vaga por uma ou mais horas.. Eram várias as garotas que trabalhavam controlando o período de cada usuário da Zona Azul. 

Tudo parecia funcionar perfeitamente, até o dia em que as funcionárias, reunidas, foram  bater à porta do gabinete do prefeito Waldemar. Entre solícito e curioso, ele as recebeu  e ouviu a seguinte reclamação: elas estavam irritadas com o fato de estarem sendo chamadas de “meninas da zona”, numa referência aos seus respectivos locais de trabalho, que sequer lembravam o real motivo das tais brincadeiras de evidente mau gosto.

Embaladas, as meninas contaram ao prefeito histórias de constrangimento a que vinham sendo submetidas em função da denominação, à época pouco comum, de seus locais de trabalho.

Waldemar ouviu, deu razão às garotas e prometeu uma solução para o problema.

Pensou, pensou, e, por fim, enviou um projeto de lei à Câmara Municipal  alterando a denominação de Zona Azul para Área de Estacionamento Controlado. As antigas placas de identificação dos espaços destinados aos veículos foram todas substituídas por outras com a nova denominação.

E, pouco a pouco, a maneira pejorativa e politicamente incorreta (termo, por sinal, inexistente à época) de tratamento  dado às fiscais foi caindo no esquecimento.

Até desaparecer por completo.

 Uma casa fora da lei A Casa do Advogado, que hoje ostenta o pomposo nome de Casa da Advocacia e da Cidadania e é referência para a categoria, já foi motivo de grande polêmica na cidade. Em meio a substituições de projetos por diferentes dirigentes da 17ª Subseção da OAB, a construção acabou avançando   exatos 3m66 sobre o alinhamento da calçada da avenida Cândido Xavier de Almeida e Souza, em frente à UMC. Foi o que bastou para que Waldemar, encrenqueiro como poucos, não concedesse o “habite-se” para a obra, considerando sua ilegalidade (e também um certo ranço do prefeito com o presidente da época). A chiadeira foi geral, mas a Casa permaneceu embargada por um bom tempo, até que um acordo com um novo prefeito permitiu a sua utilização.  Voo Rasante Quem costuma contar essa  história é o mogiano Toninho Andari, que durante muito tempo, como assessor de gabinete, foi testemunha ocular de muitos fatos que marcaram as administrações de Waldemar Costa Filho em Mogi. Vencidas as eleições municipais de 1976, o mapa  dos votos bairro a bairro mostrou que o prefeito eleito só havia perdido para seus adversários em Jundiapeba, um dos pontos mais carentes da cidade, onde a oposição costumava   triunfar. Indagado sobre isso, numa entrevista, o prefeito exagerou na sinceridade: “Se pudesse, passava com um avião carregado de m**** e, jogava em cima de lá, num voo rasante”. Disse isso para provocar Nito Sona, o vereador oposicionista de lá. A repercussão foi a pior possível, mas o eleito não voltou atrás. E Jundiapeba continuou esquecida durante os seis anos do mandato do prefeito.  Asfalto caro demais Waldemar sempre cultivou um estilo muito próprio e direto de resolver problemas que surgiam durante sua administração. O arquiteto Paulo Pinhal foi testemunha disso. Ele estava no gabinete do prefeito quando o vereador Edson Camillo foi interceder em favor de uma senhora que não tinha dinheiro para pagar o asfalto comunitário colocado na rua de sua casa. Diante dos argumentos do vereador, Waldemar logo lhe perguntou por que ele próprio não pagava o asfalto da idosa de seu próprio bolso. “Eu não tenho esse dinheiro”, retrucou o vereador, embasbacado, o que Waldemar lhe disse: “Não se preocupe, vereador. Eu lhe empresto o dinheiro e depois  você me paga”. Pinhal, que contou a história, garante que até hoje não sabe quem pagou o asfalto da velha senhora. 

Uma época de ouro

Nesta última segunda-feira, completaram-se 20 anos da morte de Waldemar Costa Filho, o mineiro de Juiz de Fora que veio para Mogi trabalhar na Mineração Geral do Brasil e acabou prefeito da cidade por 18 anos, divididos em quatro mandatos.  A era Waldemar foi lembrada na Câmara. Ele morreu vítima de um câncer, decorrente de um enfisema pulmonar causado pelo cigarro 

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