RESISTÊNCIA

Mesmo com sede fechada, companhia teatral da região segue com atrações online durante a quarentena

ENERGIA Um dos fundadores da trupe, Antônio Nicodemo diz que além das interpretações de cenas que vêm sendo publicadas, novos projetos são estudados. (Fotos: divulgação)

Num país em que não há mais um Ministério da Cultura, a situação financeira de muitos coletivos culturais é incerta. Esse fato, porém, não é novidade, e sim uma realidade constante para grupos como o Teatro na Neura, cuja sede, o Espaço N de Arte e Cultura, em Suzano, foi fechada no início do mês, dados os impactos da pandemia do novo coronavírus. Mas fechar as portas não significa deixar de existir. A trupe segue ativa nas redes sociais, com ‘lives’ que funcionam como os debates que antes eram presenciais, e também com vídeos de atuações inéditas, feitas pelo elenco agora, isolado em casa.

Talvez não possa-se dizer que os 17 artistas que compõem a gestão do grupo tenham decidido encerrar as atividades do espaço localizado no Jardim Imperador da vizinha Suzano. É mais provável que eles tenham sido forçados a isso. Afinal, como um grupo de teatro, prática “que se faz ao vivo” e que “precisa de plateia” poderia continuar, sem a possibilidade de realizar encontros presenciais?

Antônio Nicodemo, um dos fundadores, diretores e também escritores do Neura, responde: “Automaticamente, o que já é uma pressão pela situação da falta de olhar para a cultura, acabou se antecipando. Conversamos muito e entregamos o espaço, porque não teríamos como mantê-lo”.

A “decisão” dói. Para eles, para Suzano, para o Alto Tietê. Mas é como Nicodemo tem dito a cada entrevista: “é apenas uma pausa, não o fim”. Em outras palavras, ainda que não haja mais sede, a união pelos espetáculos continua.

Mais do que isso: as atividades da trupe permanecem também no campo da pesquisa, e da produção audio visual para a internet. Um dos projetos –e uma das fontes de inspiração- são as lives (transmissões de vídeo em tempo real). As primeiras edições foram publicadas antes mesmo da quarentena, e desde então seguem semanalmente com duas principais funções: “conversar sobre o agora e especular como pode ser o futuro’.

Neste mês de maio, quando o Teatro da Neura comemora 16 anos de resistência e existência, “exepcionalmente” o assunto é a própria companhia. Sendo assim, os convidados -pessoas que permanecem ativas quando o assunto é teatro regional- protagonizam debates com foco em revisitar a história da trupe, mas sem deixar de lado “as possíveis formas de se manter fazendo arte, mesmo que seja de modo limitado”.

As redes sociais também abrem espaço para outros formatos de conteúdo, como os ‘Jogos Neurais’, interpretações “surpresa” feitas pelos atores do coletivo. “Fizemos um sorteio, e um escolheu um texto para o outro interpretar. Tivemos um prazo para nos organizar e gravar dentro das próprias casas, deixando o resultado como surpresa para o elenco e para o público”, explica Nicodemo, que vê a iniciativa como oportunidade de comemorar virtualmente o aniversário do Teatro da Neura.

Faltam políticas públicas voltadas à cultura”

Teatro da Neura. O nome vem da intenção de “traduzir minimamente a condição humana e a sociedade e suas implicações, como a sobrevivência nela e as neuroses e coisas que carregamos, silenciadas e escondidas”.

Com conceitos tão profundos como este, Antônio Nicodemo, um dos fundadores, enxerga de maneira diferenciada o fato de que muitos espaços da região, a exemplo não só do Neura, mas também do Galpão Arthur Netto e do Casarão da Mariquinha, tenham fechado as portas recentemente, e que novos endereços estejam abrindo.

“Acredito que isso seja cíclico, que há sempre um novo momento que gerou determinado movimento e vai ter o tempo que precisar durar. Mas isso me pega num canto muito mais poético e talvez muito mais utópico do ofício. Estamos vivendo, e não é de hoje, uma procissão caótica, perseguição aos artistas e aos espaços também, e esse cenário é reflexo dessa perseguição”.

Ele continua dizendo que enxerga a abertura de novos espaços de maneira esperançosa, mas com cuidado “para não trazer romance a uma situação extremamente dolorida, em que espaços e artistas estão deixando de existir”. No entanto, não deixa de reconhecer que quem começou algo novo agora certamente está “debaixo de muito suor e muita madeira nas costas”, mas alerta: “certamente também correm perigo de desaparecer, dada a falta de políticas públicas voltadas à cultura”.


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