ENTREVISTA

Milton Martins Coelho conta histórias vividas em nove décadas na cidade

Milton Martins Coelho: Amigos e alegria, a receita do bem-viver. (Foto: Elton Ishikawa)
Milton Martins Coelho: Amigos e alegria, a receita do bem-viver. (Foto: Elton Ishikawa)

Aos 90 anos, Milton Martins Coelho é exemplo de vitalidade. Dono de uma memória invejável, festeiro e pé de valsa, ele aposta na alegria de viver como fórmula para chegar à velhice com saúde e disposição. Filho único do comerciante português Joaquim Martins Coelho e de Elecantina dos Santos, nascida em Santa Branca, ele já viajou seis vezes para a Europa, conhece 12 países, incluindo Portugal, e sente orgulho de ter dupla nacionalidade: brasileira e portuguesa. Mogiano, Milton conheceu o trabalho cedo. Aos 10 anos, para ajudar a família, deixou os estudos após concluir o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida e trabalhou em armazém, nas farmácias Santo Antônio e Santa Terezinha e, aos 15 anos, passou a ajudar o pai no depósito de ferro-velho, que primeiramente funcionou a rua Dr. Ricardo Vilela e ainda hoje está em atividade no distrito de César de Souza. Em 1960, convidado por amigos, começou a participar da Loja Maçônica União e Caridade IV e dois anos depois, ingressou no Lions Clube de Mogi, dos quais ele ainda faz parte, além de ser sócio do Clube de Campo. Na entrevista a O Diário, Milton relembra os bons tempos da juventude em Mogi e conta suas histórias na cidade:

Qual o segredo para chegar aos 90 anos com vitalidade?

Desde moço, tenho algo que considero importante, que é tratar as pessoas como gosto de ser tratado. Desde um gari até um desembargador merecem ser tratados da mesma maneira, com respeito. Além disso, sempre fui alegre, gosto de festa e de dançar, tomo meu uísque e vinho, mantenho as amizades e não tenho preconceitos. Meu único defeito é se corintiano (risos) e já fui muito a estádios assistir aos jogos, mas quando torcedores rivais podiam sentar-se lado a lado. Havia gozações, mas violência jamais.

Em qual região da cidade o senhor nasceu?

Quando nasci meus pais moravam em um sobrado na antiga rua Tietê, que hoje se chama Cabo Diogo Oliver, onde ele tinha a oficina com acesso também pela rua Independência, a atual Hamilton Silva e Costa. Na esquina onde funcionou um posto de gasolina e hoje está uma praça, logo depois do túnel (Complexo Viário Jornalista Tirreno Da San Biagio), meu pai tomava conta de uma pensão, onde minha mãe era cozinheira, e ele tinha um bar lado. Depois, moramos em uma chácara da rua Rui Barbosa e em outras regiões do centro da cidade.

Onde o senhor estudou?

Quem me alfabetizou, quando eu estava com 7 anos, foi a professora Aurora Negreiro, que dava aulas na rua Francisco Franco. Depois, do 2º ao 4º ano, estudei no Grupo Escolar Coronel Almeida, onde os meninos frequentavam as aulas pela manhã e as meninas à tarde. Lá, tive professores como a dona América e o seu Manuel de Mattos, que morava na rua Barão de Jaceguai e nos dava aulas de reforço no contraturno da escola. Mas não pude dar continuidade aos estudos porque meu pai teve dificuldades financeiras e aos 10 anos comecei a trabalhar.

Qual foi o primeiro emprego?

Foi em um armazém que ficava na fazenda da madame Mascarini, no Caputera, onde depois foi o posto de gasolina do Januário. Ali era vendido de tudo. Na época, morava na rua Salvador Cabral, acordava às 6 horas e ia a pé até o trabalho, onde fiquei nove meses. De lá, fui para a Farmácia Santo Antônio, do Zé da Bala, na rua Dr. Deodato Wertheimer, onde havia também a farmácia da dona Alzira; a Santa Terezinha, do seu Acácio; e a do seu Paschoal Grande. Com 11 anos, uma vez por semana, pegava o trem Maria Fumaça, que levava duas horas e meia até a Estação do Norte, hoje Brás, em São Paulo, onde pegava o bonde até a Praça da Sé e buscava os medicamentos na Drogasil da rua José Bonifácio.

Como era esta viagem?

Ainda não havia o subúrbio e chegávamos a São Paulo cheios de fuligem da Maria Fumaça. Deixava a lista na farmácia e voltava depois de duas e três horas para pegar os remédios já separados e trazê-los a Mogi. O Zé da Bala me dava dinheiro para viajar na primeira classe do trem, mas eu ia na segunda e com o troco comprava pastel. Como acordava muito cedo, colocava o pacote embaixo das pernas e dormia na volta, mas em Ferraz de Vasconcelos, Poá e Suzano, subiam vários jovens que vinham estudar em Mogi, então, eu acordava.

Em quais outras farmácias o senhor trabalhou?

Como viajava muito a São Paulo, acabei saindo da Farmácia Santo Antônio e indo para a Santa Terezinha, do seu Acácio, onde trabalhava de jaleco branco e gravatinha e também aprendi a manipular medicamentos. Antigamente, fazia-se a receita e as cápsulas e pílulas eram preparadas nas farmácias. Eu iria fazer o curso de prático de farmácia, mas em 1945, meu pai deixou de ser empregado e montou um depósito de ferro-velho na rua Dr. Ricardo Vilela, 761, onde hoje está uma loja de venda de móveis usados, próximo à padaria Canadá e da relojoaria do Xavier, que funcionam até hoje. Então, saí da farmácia e fui ajudá-lo.

A partir daí é que o senhor se envolveu com o ferro-velho?

Sim. Estava com 15 anos e fui trabalhar com meu pai e estudar no Liceu Braz Cubas, que funcionava na rua Princesa Isabel de Bragança, mas como acordava às 4 horas para carregar o caminhão, dormia nas aulas. Então, parei de novo. Também não era fácil puxar a carrocinha pela cidade. Em 12 de fevereiro de 1948, meu pai me levou ao cartório do seu Arouche, me emancipou, colocou como sócio dele e passou a firma que tinha seu nome para Coelho e Filho. Trabalhamos juntos até ele falecer, em 1964, aos 62 anos, e eu continuei com o ferro-velho, que funciona até hoje. Em 1967, o levamos para César de Souza, mas ainda mantivemos o depósito até 1975 na Ricardo Vilela para vendas no varejo. Depois disso, ficamos apenas em César, onde estamos.

Esta atividade cresceu muito nos últimos anos na cidade…

Quando meu pai começou com o ferro-velho eram poucos em Mogi. E o dele era o maior. Comprávamos resíduos de sucatas das antigas Valmet, Howa, Huber Warco, Rhom, NGK, entre outras, preparávamos e vendíamos para a usina siderúrgica, principalmente à antiga Mineração Geral do Brasil, depois Cosim (Companhia Siderúrgica de Mogi das Cruzes) e Aços Anhanguera, que movimentavam a economia da cidade.

Quais lembranças ficaram da juventude em Mogi?

Na época, a maioridade era apenas com 21 anos, mas quando eu tinha 18, já era emancipado e ia ao cinema assistir aos filmes proibidos para menores. Também guardo boas lembranças dos tempos em que joguei nos times juvenis do Comercial; Minerasil, que era da Mineração; e União. Mas em 1976, tive problema no tendão do braço e não pude mais jogar. E como sempre gostei de dançar, tanto que me apelidaram de pé de valsa, sinto falta dos bailes do União, que fazia o melhor Carnaval de todos, do Vila Santista, do Itapeti Clube e do São João, onde aprendi a dançar. Muitas vezes, saía do baile às 4 horas e ia direto entregar pães com a carrocinha que tinha um baú fechado atrás. Eu tinha um grupo de 11 amigos que sempre andavam juntos e, ao final dos bailes, nos dividíamos para levar as moças em casa. Fazíamos tudo a pé, mas não havia qualquer perigo, mesmo durante a madrugada. Um destes amigos é o Jamil Makssud, que hoje está com 96 anos, e nos levava em seu carro para dançar em Jacareí, Taubaté, Caçapava e Guaratinguetá.

E os cinemas?

Frequentei primeiro o Cine Odeon e o Parque, onde tinha um salão na entrada, bar e jogo de bocha. Havia também o Vera Cruz. Depois, vieram o Urupema, onde aconteciam as colações de grau, e o Avenida. Estes dois eram os mais chiques. Naquele tempo, os rapazes usavam chapéus e bengalas. Outra tradição era ir à missa das 10 horas de domingo na Catedral e depois passear no Mercadão e comer doces cristalizados e geleia de mocotó da família Salvarani.


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