MOBILIZAÇÃO

Mogianos voltam a se unir contra a instalação de uma praça de pedágio na cidade

PEDÁGIO NÃO Ato reuniu centenas de pessoas entre Aruã e o Jd. Aracy e provocou a lentidão no trânsito. (Foto: Elton Ishikawa)

Centenas de representantes e membros da sociedade civil de Mogi das Cruzes e região voltaram a se unir na manhã de ontem em um objetivo comum: pressionar o governo do Estado contra a instalação de uma praça de pedágio “em qualquer local do município”. Na maior manifestação realizada até hoje, organizada pelo movimento Pedágio Não, que percorreu e “parou” a rodovia Mogi Dutra (SP-98) – inicialmente cotada para hospedar o ponto de cobrança na altura do quilômetro 45 –, não faltaram críticas ao governador João Doria, ao prefeito Marcus Melo, ambos do PSDB, e a outras lideranças políticas locais. Também houve protestos contra a “falta de transparência” da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) que encaminhou nesta quinta-feira, nota exclusiva a O Diário afirmando que “proporá nova localização para a praça”.

Não há detalhes, ainda, sobre  localização planejada no projeto de concessão das rodovias litorâneas que incluiu a Mogi-Dutra como um ponto para o pagamento do pedágio.

Entre promessas de novos atos até que a proposta seja “completamente barrada, seja na Mogi Dutra ou Mogi-Bertioga”, organizadores acreditam que o recado foi dado, mas reforçam que a mobilização precisa ser contínua. O grupo já tem novos passos definidos: recolher na próxima semana as assinaturas físicas do abaixo-assinado contra o pedágio e levá-lo ao vice-governador Rodrigo Garcia. Há mais de três meses, lideranças tentam agendar um encontro com Garcia, que recebeu a incumbência do governador Doria de tratar o assunto.

“Faz tanto tempo que tentamos marcar uma reunião, e não recebemos nenhuma resposta, isso é uma falta de consideração com o povo de Mogi. O governador (Doria) não está dando atenção a Mogi”, alfinetou Adrianny Verçosa, uma das integrantes do Pedágio Não, em cima de um palco montado pelo grupo no início da Mogi-Dutra, no Jardim Aracy.

O protesto

O ato de ontem começou às 9h30, na porta do condomínio Aruã, quando manifestantes saíram em carreata pela Mogi-Dutra. Em simultâneo, outros grupos partiam de diferentes pontos até a entrada, no Jardim Aracy, em frente ao posto de gasolina Itamaraty. A estrada chegou a ficar congestionada, já que os manifestantes ocuparam três faixas da via, e trafegaram a 10 quilômetros por hora.

O buzinaço foi acompanhado por oito viaturas das polícias Militar e Rodoviária. Segundo a 1° Tenente Cristiane, da PM, toda a “ação foi tranquila e sem maiores preocupações”.

Na chegada de Mogi, por volta das 10h20 um palanque foi montado, em cima de um carro de som. Ali, diferentes representantes destilaram críticas e mostraram a “indignação dos mogianos contra a proposta.

“É uma aberração que o poder público tenha essa falta de respeito com o povo mogiano. Na véspera do protesto soltam uma nota falando que vão mudar, mas vão mudar para onde? Tentam nos desarticular, por isso precisamos mais do nunca estar unidos”, comentou Gilberto Farias, representando os moradores da Serra do Itapeti.

Nelson Bettoi, da Associação dos Engenheiros e Agrônomos de  Mogi, acrescenta que “se a Artesp falou que mudará, mas não diz para onde, isso significa que falta transparência, queremos uma conversa clara sobre o futuro de nossa cidade”, criticou

O Diário tenta uma entrevista com a direção da Artesp há dias. Nesta sexta-feira, em nota, o órgão afirmou que a escolha de um local obedece a critérios técnicos, considerando o traçado da rodovia, a segurança viária, os aspectos topográficos, geográficos, ambientais, o fluxo de veículos, as necessidades da sociedade civil, entre outros. Porém, não diz o que interessa à população: o endereço avaliado pelos técnicos

Presidente da comissão de Transportes, o vereador Jean Lopes (PC do B) critica a ideia e destaca que a Câmara permanecerá mobilizada nesta semana. “Pode ter certeza que um pedágio na entrada da cidade, encarecerá diversos produtos, então todos serão afetados”, lembrou. “Esse protesto está sendo muito promissor, é uma forma de exercer a cidadania plena e lutar por nossos direitos, a união do povo, independente de partidos políticos, faz toda a diferença”, acrescentou.

O vereador Caio Cunha (PV) e o ex-deputado Luis Carlos Gondim Teixeira (PTB), ambos cotados como virtuais candidatos a prefeito neste ano, marcaram presença no protesto.

Positivo

“Hoje é um dia especial, não só por que estamos lutando pelo pedágio, mas estamos mostrando que o mogiano tem brio, e capacidade de se juntar contra injustiças como essa”, disse Paulo Boccuzzi, um fundadores do movimento Pedágio Não. “O aviso da Artesp é uma vitória, mas vamos continuar essa luta, nós não aceitamos pedágio em Mogi das Cruzes, em lugar nenhum”, reforçou. Para ele, o protesto superou as expectativas. Boccuzzi assegura que “mais de mil pessoas participaram”, considerando todas as etapas, já um integrante da Polícia Rodoviária minimizou o número, estimando que havia 40 carros na carreata

‘Que procurem um local no litoral, não aqui’

PEDÁGIO NÃO Ontem, o engenheiro Jamil Hallage fez críticas à proposta da Artesp. (Foto: Elton Ishikawa)

Um dos participantes da manifestação em defesa dos mogianos foi o engenheiro Jamil Hallage, ex-secretário municipal de Obras e responsável por abrir as duas principais rodovias envolvidas nesta polêmica. Ele comandou em 1969 a construção da Mogi-Dutra e. em 1977, iniciou as obras da Mogi-Bertioga. Ambas as ligações foram projetadas nas administrações do prefeito Waldemar Costa Filho (1923- 2001).

Aos 94 anos, Hallage se diz consternado com a ideia de desmantelar um trabalho construído “totalmente por esforços da população mogiana”.

“Só para começar, propor um pedágio na Mogi-Dutra foi um absurdo, é muito perto da região central da cidade e separaria moradores de Mogi”, reforça. “O projeto de concessão que inclui a rodovia propõe benefícios às estradas no litoral, então eles que procurem um local mais apropriado no litoral, não aqui. Não queremos ser a solução do problema de outros locais”, instigou Hallage, com propriedade.

Eliana e 50 mil pessoas assinam contra ideia

Apenas ontem, o movimento “Pedágio Não” coletou aproximadamente 200 assinaturas contra a instalação da praça de cobrança, colhidas em diversos pontos de Mogi e região. O documento que já soma mais de 50 mil adesões, entre as edições física e virtual será encaminhado ao governo do Estado. Em comércios de Mogi, Arujá e Itaquaquecetuba é possível aderir à bandeira iniciada no em outubro passado por um grupo de moradores dos condomínios Aruã.

A família de Eliana Cofferi, residente do condomínio Aruã, assinou a petição neste sábado. “Apenas na segunda-feira, eu peguei a rodovia Mogi-Dutra oito vezes. Muita gente depende dessa estrada para as coisas do dia a dia, como ir a hospitais, ao trabalho, colocar um pedágio aqui seria impedir essas pessoas de tocarem a vida”, critica ela.

Eliana afirma que está disposta a participar de novas manifestações “até essa ideia ser descartada”.


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