CHICO ORNELLAS

No tempo do telefone a manivela

TELEFÔNICA – O predinho da Telefônica Mogi das Cruzes S.A. resiste na Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, agora como Centro Cultural.
TELEFÔNICA – O predinho da Telefônica Mogi das Cruzes S.A. resiste na Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, agora como Centro Cultural.

Estive, há dias, às voltas com a questão da telefonia. Pensamentos que as lembranças da idade trazem. Para nossos conterrâneos e vizinhos de hoje, isto deve integrar períodos jurássicos de nosso passado. Nem tanto.

O primeiro telefone que tive em casa de meus pais era manual, daqueles pelos quais se dizia o número chamado a uma telefonista. Tinha o número 576. Não peguei o aparelho movido a magneto – que só usei na casa de meus avós – mas me são inesquecíveis dois momentos constantes: o primeiro deles, quando ouvia o “número por favor” dito pela telefonista e lhe respondia com o número da casa dos pais da namorada. A telefonista, antes de completar a ligação, me provocava: “Já vai namorar?”

Outro era a espera por uma chamada interurbana. Pedia-se uma ligação para São Paulo às 10 da manhã e, se tivesse sorte, ela era completada às duas da tarde. Mesmo tempo demorava uma ligação para Suzano. Pelo simples motivo de que não havia linha telefônica entre Mogi e essa cidade; a chamada saía da central de Mogi, na Rua Barão de Jaceguai, ia à central de São Paulo na Rua 7 de Abril e, de lá, era enviada a Suzano.

Era o tempo da CTB – Companhia Telefônica Brasileira, que tinha concessões municipais para suas operações. A concessão de Mogi venceu em meados da década de 1950 e não foi renovada. Em seu lugar, surgiu a Telefônica Mogi das Cruzes S.A., uma empresa comunitária fundada para prover os serviços por aqui, com aparelhos de disco. Então, o número de minha casa mudou para 3004. Creio que em 1963. Mas os interurbanos seguiam com a demora antiga.

Durou pouco a Telefônica Mogi das Cruzes S.A.: em 1972 ela foi assumida pela CTBC – Companhia Telefônica da Borda do Campo, por decreto do presidente Costa e Silva. Nessa época, Mogi tinha 138 mil habitantes e 3 mil linhas telefônicas

Foi sob tutela da CTBC que, enfim, os telefones daqui foram integrados à rede de micro-ondas e as ligações interurbanas passaram a contar com o serviço DDD.

Pois descobri que, no vácuo da Telefônica Mogi, surgiu uma outra empresa, incitada pelo mesmo homem que “fez a cabeça” dos que a fundaram: Niocyr Silva Nabuco de Araújo. Cidadão do Paraná que participou, na década de 1940, da implantação de telefones em Apucarana, aproveitou o fim das concessões da CTB e montou, no Rio de Janeiro, a Cost – Companhia Organizadora de Serviços Telefônicos. E saiu a vender seu know-how. Aqui, além de oferecer os préstimos na constituição da nova companhia, também participou, em 1965, da fundação da Conagra – Companhia Nacional de Artes Gráficas que, a partir de uma planta em César de Souza, deveria produzir e imprimir listas telefônicas para o País inteiro.

Pois a Conagra, com 109 acionistas e capital de Cr$ 100 milhões (R$ 1,8 milhão atualizados), ao que eu saiba não chegou a produzir nenhuma lista telefônica. Niocyr foi seu primeiro presidente, partilhando a diretoria com Mário Cilento, José Meloni, Diomar de Melo Freire, Isaac Grinberg, Duílio Rossi, Dauro Paiva, Anésio Urbano, Célio Diniz Carneiro e Arthur dos Santos – isto para se limitar aos mogianos que nela estavam.

Consegui descobrir pouco acerca de Niocyr. A última informação apurada é de 1985, 34 anos atrás: ele estava envolvido com a Crislir Hotéis Reunidos S.A., que tinha sede em São Paulo.

Carta a um amigo

Pra baixo da linha do trem

Meu caro amigo

Dias destes, voltando de São Paulo, resolvi mudar o caminho da roça. Segui pela Ponte Grande rumo ao centro da Cidade, deixando para trás a Perimetral. A primeira coisa que me veio à mente foi o armazém do Margarido. Que continua no mesmo lugar, em frente à construção que, nos anos de 1950, abrigava as pequenas salas de aula de um grupo escolar improvisado. Eu cheguei a frequentar essas salas ao tempo em que minha mãe lecionava.

Segui meu caminho observando a Rua Tietê, digo, Rua Cabo Diogo Oliver, e dando a ela seu devido valor. A estação do trem divide Mogi e esta é a principal rua de baixo da linha, ela que liga a Cidade à Mogi-Dutra.

MANHÃ DE DOMINGO – Uma manhã de domingo no Clube Náutico Mogiano. O cocho em primeiro plano, o trampolim logo a seguir. Detalhe: nem com lupa se encontra uma moça de maiô na foto. A única está à esquerda, de vestido branco – bem abaixo dos joelhos –, com as mãos na cintura.

Esta rua marcou época: no final da década de 1950, todo dia 1º de maio, ainda bem cedo, muitas, muitas pessoas iam por ela rumo à Cruz do Século para, com um piquenique, comemorar o Dia do Trabalho. Ou à Gruta de Santa Therezinha – ela ainda existe? Era também na Diogo Oliver que, nos domingos de carnaval, muitos se juntavam para ver passar o bloco Banho a Fantasia. Todos com roupas de papéis coloridos e muita crítica, sátira, alguns vestidos de mulheres divertindo a população.

Brincando e cantando chegavam ao Clube Náutico. Não havia o ginásio nem a sede nova; apenas uma construção de madeira sobre pilotis, na ponta da qual ficava o bar do Paraíba. Era dos trampolins do Clube que o pessoal do bloco saltava nas águas do Tietê e deixava que fosse embora a fantasia de papel. Era divertido. Não me lembro quem eram, mas alguns deles ainda devem estar por aí. Ao lado do trampolim ficava o cocho; aquela construção de madeira pintada de preto, que boiava com o auxílio de tambores e na base tinha uma laje de cimento. Arremedo de piscina abastecida pelas águas do Tietê. Sim, do Rio Tietê, esse mesmo que passa hoje pelo mesmo lugar e no qual ninguém se atreve, sequer, a encostar o dedão do pé. Pelo que me recorde, Mogi tinha, a esse tempo, apenas duas piscinas. Uma também “pra baixo da linha”, na chácara de Carlos Alberto Lopes; outra na Fazenda do Rodeio, então propriedade da Família Ermírio de Moraes.

Continuei meu caminho.

Olhei para os lados da rua e senti falta da Loja Dulce, também da Loja Amélia e da Quitanda do Mário. Do Hotel Carioca, convenhamos, não dá para sentir falta. Mas fiquei contente ao ver a casa da família Silveira, do Constantino. Ainda deu para descobrir a mesma porta de aço da Sapataria do Acácio.

E um abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX 

ERRAMOS – Leitores atentos (razão de existência desta página), corrigem-nos na foto publicada domingo passado e republicada hoje. Nela, identifiquei a primeira esquina da atual Avenida Voluntário Pinheiro Franco como sendo a Rua Dr. Deodato Wertheimer. Não é: ali está a esquina da Rua Braz Cubas, o que pode ser comprovado pela localização da torre da antiga Igreja do Rosário, está sim na Deodato. Grato pelo alerta.

GENTE DE MOGI

ARROJADO – Ele era um homem adiante do seu tempo. Veio com a família para Mogi, na primeira década do século passado, quando o pai adquiriu a Fábrica de Chapéus que havia por aqui. Com 200 operários, era a maior empregadora local, gerava a própria energia elétrica e ainda vendia a sobra para a Prefeitura. Elegeu-se vereador, montou o próprio avião (depois cedido para o Aeroclube Nacional, do Rio de Janeiro) e foi homenageado em vida: no dia 7 de setembro de 1910, a antiga Rua do Bom Jesus passou a chamar-se Rua Ricardo Vilela.

O melhor de Mogi

O passeio de hoje pela Cidade é conhecer a Avenida das Orquídeas, inaugurada ontem. Vale, sobretudo, prestar atenção ao entorno, quando passa pela antiga várzea de Braz Cubas. Ali, onde era uma baixada inundável, vai surgir uma nova Mogi.

O pior de Mogi

A droga corre solta nas barbas do Centro Cívico (Rua Narciso Lucarini esquina com Narciso Yague Guimarães) e desocupados fazem, da Praça Antônio Batalha, seu principado. A Síndrome de Avestruz nunca saiu de Mogi.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter ido, pelo menos uma vez, a uma tarde de autógrafos da escritora Botyra Camorim. Na antiga Livroeton, esquina da Avenida Pinheiro Franco com a Rua Dr. Deodato Wertheimer, no espaço depois ocupado pela RIG.


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